Observatório da violência nas escolas: cotidiano escolar – entre saberes e desencontros das práticas pedagógicas de socialização e prevenção de violência.

ISBN eBook: 978-85-7993-458-2 impresso: 978-85-7993-457-5

Autor/Organizadores: Elson Luiz de Araujo; Doracina Aparecida de Castro Araujo

PAZ

Gabriel, O Pensador, Thiago Mocotó e Lenine

Aqui se planta, aqui se colhe, mas pra flor nascer é preciso que se molhe

É preciso que se regue pra nascer a flor da paz. É preciso que se entregue com amor e muito mais.

É preciso muita coisa, e que muita coisa mude. Muita força de vontade e atitude

Pra poder colher a paz tem que correr atrás. E tem que ser ligeiro!

Pra poder colher a fruta é preciso ir à luta. E tem que ser guerreiro!

Pela paz a gente canta, a gente berra.

Pela paz eu faço mais. Eu faço guerra.

Eu vou a luta, eu vou armado de coragem e consciência. Amor e esperança

A injustiça é a pior das violências. Eu quero paz, eu quero mudança.

Dignidade pra todo cidadão. Mais respeito, menos discriminação

Desigualdade, não. Impunidade, não. Não me acostumo com essa acomodação.

Eu me incomodo e não consigo ser assim, por que eu preciso da paz

Mas a paz também precisa de mim. A paz precisa de nós. Da nossa luta, da nossa voz.

Paz, aonde tu estás? Aonde você vive? Aonde você jaz?

Onde você mora? Onde te encontramos? Onde você chora? Onde nós estamos?

Onde te enterramos? Que lar você habita? Onde nós erramos? Volta, ressuscita.

Será que a paz morreu, será que a paz tá morta? Será que não ouvimos quando a paz

bateu na porta?

A paz que não tem vaga, na porta da escola. A paz vendendo bala, a paz pedindo esmola

A paz cheirando cola, virando adolescência. Atrás de uma pistola virando violência.

Será que a paz existe, será que a paz é triste? Será que a paz se cansa da miséria e desiste?

A paz que não tem vez, a paz que não trabalha. A paz fazendo bico, ganhando uma migalha

No fio da navalha, dormindo no jornal. Atrás de metralha virando marginal

Será que a paz ataca, será que a paz tá fraca? Será que a paz quer mais do que viver numa barraca?

A paz que não tem terra, a paz que não tem nada. A paz que só se ferra, a paz desesperada

A paz que é massacrada lutando por justiça. Atrás de uma enxada, virando terrorista

Será que a paz assusta, será que a paz é justa? Será que a paz tem preço? Quanto é que o preço custa?

A paz que não tem raça nem boa aparência. A paz não vem de graça, a paz é consequência

A paz que a gente faz, sem peso e sem medida. Atrás dessa fumaça, paz virando vida.

A paz que não tem prazo, a paz que pede urgência. Não vai ser por acaso. A paz é consequência

Não é coincidência nem coisa parecida. A paz a gente faz, feito um prato de comida.

Eu vou a luta, eu vou armado de coragem e consciência

Amor e esperança. A injustiça é a pior das violências. Eu quero paz, eu quero mudança.

[…]

Como é que a gente faz. Pra medir a violência na emergência dos hospitais?

A dor e o sofrimento. Os filhos que não nascem, os pais que morrem sem atendimento?

Qual é a gravidade. Do roubo milionário praticado por alguma autoridade

Que tem imunidade, que compra a liberdade? Enquanto o cidadão honesto vive atrás das grades

Com medo de um assalto à mão armada. Pagando imposto alto e não recebendo nada

Qual é o grau do perigo. Da falta de escola e de emprego, de prisão e de

abrigo? Qual é o pior inimigo. Os pais da corrupção ou os filhos do mendigo?

Quem é o grande culpado. O ladrão, que tem cem anos de perdão, ou você, que

vota errado?

 

 

PREFÁCIO

 

Washington Cesar Shoiti Nozu[1]

 

Prefaciar um livro é sempre uma tarefa árdua, pois, conforme os rituais dos impressos, sua atuação incide em apresentar os seus autores e o seu conteúdo. Diante de tamanha empreitada, confesso, de imediato, que a fragilidade da minha escrita jamais dará conta de dimensionar a importância dos trabalhos aqui compilados, quer pela minha relação de afeto, respeito e admiração pelos autores, a começar pelos organizadores desta coletânea, quer pelo fato de ter integrado, ainda que timidamente, o projeto de pesquisa cujos resultados são, parcialmente[2] e oportunamente, apresentados.

 

O projeto aludido, financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes/OBEDUC), teve como título “Observatório da violência nas escolas: cotidiano escolar – entre saberes e desencontros das práticas pedagógicas de socialização e de prevenção da violência nas escolas de Ensino Fundamental e Médio”, demarcando suas ações de investigação- formação-experimentação no âmbito de um município sul-matogrossense: Paranaíba. Esta delimitação foi, a meu ver, louvável, pois sinaliza o compromisso político e social da universidade com o seu entorno, atentando-se à aproximação necessária entre Educação Superior e Educação Básica com vistas ao debate e à produção de saberes e práticas pedagógicas relacionadas à problemática da violência na/da e contra a escola.

 

Sem perder de vista as discussões e implicações globais acerca da violência no cotidiano das escolas, o projeto, que teve duração de maio de 2013 a maio de 2017, envidou esforços para pesquisar-atuar no contexto local, buscando, simultaneamente, contribuir para a produção do conhecimento e para o desenvolvimento de atividades de formação e reflexão docente, de diálogo com alunos e pais/responsáveis, de valorização de expressões culturais marginalizadas, dentre outras.

 

Para tanto, esta pesquisa interinstitucional envolveu quatro instituições de ensino superior (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul; Universidade Federal de Mato Grosso do Sul; Universidade Federal da Grande Dourados; Faculdades Integradas de Paranaíba) e seis escolas de Educação Básica da rede estadual de ensino. Quanto aos participantes, contou com 10 professores pesquisadores, 7 alunos bolsistas de pós-graduação stricto sensu em Educação, 11 alunos bolsistas de graduação, 7 alunos de graduação, 54 professores e cerca de 3.150 alunos da Educação Básica, além dos pais/responsáveis destes últimos, vinculados direta e indiretamente nas atividades realizadas. Portanto, os nove textos aqui agrupados retratam, com objetos e enfoques teóricos diversos, inúmeras outras vozes (por vezes, gritos!), analisando centelhas de conhecimentos, impressões, situações, (in)disciplinas, arenas de saber-poder, culturas escolares, in/exclusões, redes sociais, temas transversais, intervenções (re)produzidas no cotidiano escolar, num movimento de identificação dos dilemas relacionadas à violência e de reflexão teórica e prática construída, colaborativamente, com os sujeitos docentes e discentes no “chão” da escola básica.

 

Textos que nos envolve e nos motiva a sair de um estado letárgico que tem assolado a área educacional, sobretudo nos “tempos temerosos” em que vivemos, para nos implicarmos, especificamente, com as questões atinentes à violência escolar, de modo à desbanalizá-la e desnaturalizá-la.

 

Assim, agradeço aos organizadores e aos autores – com os quais tive a honra e o privilégio de conviver intensamente e, nesse processo, assumir a luta em defesa da educação enquanto processo social de formação humana – pela confiança em mim depositada para disparar apenas alguns indicativos da potencialidade do conteúdo desta coletânea. Por fim, brindo aos leitores agraciados deste livro, que têm em mãos um instrumento com dados de pesquisa problematizadores para (re)pensar a violência escolar.

 

Dourados/MS, primavera de 2017.

 

 

1 Professor Adjunto da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Docente do Programa de Pós-Graduação em Fronteiras e Direitos Humanos da UFGD, vinculado à Linha de Pesquisa Direitos Humanos, Cidadania e Fronteiras. Doutor e Mestre em Educação pela UFGD. Especialista em Filosofia e Direitos Humanos pela AVM Faculdade Integrada. Especialista em Educação, Licenciado em Pedagogia e Bacharel em Direito pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). Vice-líder e pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Inclusiva (GEPEI/UFGD). Pesquisador do Grupo de Estudo e Pesquisa Estado, Política e Gestão da Educação (GEPGE/UFGD) e do Grupo de Estudos e Pesquisas em Práxis Educacional (GEPPE/UEMS). Gestor institucional do Acordo de Cooperação Internacional entre a UFGD e a Universidad de Alcalá (UAH), Espanha.

 

2 O capítulo inicial desta obra traz um panorama detalhado das produções bibliográficas relacionadas ao projeto de pesquisa em pauta e publicadas anteriormente.

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