Diálogos com os idosos sobre relações de gênero e sexualidades.

ISBN eBook – 978-85-7993-412-4 Impresso – 978-85-7993-413-1

Autor/Organizadores: Léia Teixeira Lacerda; Kátia Cristina Nascimento Figueira; Mircéia Terezinha Suffiatti Mesnerovicz Vareiro

Apresentação

 

 

Esta obra reúne os resultados das pesquisas desenvolvidas pelos discentes no projeto de ensino: Registro de Memórias dos Idosos sobre Sexualidade, Relações de Gênero e a Geração LGBT, vinculado ao Projeto: A Trajetória de Formação no Curso de Pedagogia da Unidade Universitária de Campo Grande desenvolvido na Unidade de Estudo: Gênero e Educação do referido Curso, da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, financiado pela Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul/Fundect, por meio dos recursos financeiros do Edital nº 025/2015.

 

A ideia de registrar as concepções dos idosos sobre sexualidade e relações de gênero, por meio de um roteiro de conversa surgiu quando apresentamos aos discentes os seguintes questionamentos em sala de aula: o que é ser autor de um texto? Qual é o mecanismo que possibilita ao pesquisador constituir-se autor? Para refletirmos sobre essas questões desafiamos os discentes da 2ª Série do referido Curso, em 2016, a fazerem um exercício de construção de autoria, por meio da compreensão da sexualidade e das relações de gênero estabelecendo uma interrelação com o registo das histórias de vida de idosos.

 

Assim, para subsidiar esse desafio é preciso considerar que ser autor compreende a construção de um estilo próprio. Segundo Possenti, “autor + singularidade constituem o estilo de escrita e de oralidade. Esse autor ainda nos ensina que “(…) um texto só pode ser avaliado em termos discursivos quando passa pela questão da subjetividade e de sua inserção em um quadro histórico, em um discurso que histórica e socialmente lhe dê sentido.” (POSSENTI, 2009, p. 106).

 

Dessa maneira, as memórias dos idosos estão marcadas por um contexto histórico que oportunizou aos discentes/autores se verem escrevendo a história de vida desses participantes, momento em que, pelas vozes do Outro, vivenciaram a possibilidade de confrontarem as suas crenças e vivências com as visões de mundo de homens e mulheres do Século XX. Dessa perspectiva, Possenti continua afirmando que (…) um dos indícios de autoria é dar voz aos Outros. Mas também, destaca que um texto bom é uma questão de como registrar essas vozes e experiências desse Outro. Dessa forma, os resultados do desafio proposto aos discentes são apresentados nos capítulos desta obra que os credibilizam como autores(as) que evidenciam “como se dá e se registra” a voz do Outro, conforme explicita Possenti.

 

 Portanto, nas narrativas desses idosos o leitor encontrará o registro de memórias dos tipos de brincadeira vividos entre meninos e meninas; como era a convivência entre gêneros; a educação sexual recebida ou não no contexto familiar, bem como os fatores que contribuíram para que optassem por discutir sobre a sexualidade com seus filhos, filhas, marido ou esposas, netas e netos.

 

Assim, as histórias de vida podem revelar muitas possibilidades de compreensão do sujeito participante enquanto ator social, possuidor de identidade cultural, bem como contribuir para a valorização dos seus códigos culturais e da sua cosmovisão de mundo. Essa concepção está fundamentada nos estudos de Verena Alberti (2011, p. 156) que afirma que esse tipo de história: “é uma metodologia interdisciplinar por excelência, pois se beneficia de ferramentas teóricas das diferentes disciplinas para ampliar o conhecimento sobre a trajetória de vida de determinados sujeitos”.

 

Segundo Gussi (2008) a perspectiva de trabalho com as histórias de vida evidencia três aspectos dessa abordagem: o primeiro, fornece informações do contexto social no qual o biografado está inserido ao evocar suas memórias; no segundo, revela subjetividades distintas que compõem a identidade humana e, no terceiro, desvela a dimensão intersubjetiva entre o biografado e o pesquisador.

 

Nessa mesma lógica, Chizzotti (2006, p.101) define o uso de história de vida nas pesquisas acadêmicas como “um relato retrospectivo da experiência pessoal de um indivíduo, oral ou escrito, relativo a fatos e acontecimentos que foram significativos e constitutivos de sua experiência vivida”. Portanto, o registro de memória desses idosos possibilita a compreensão de diferentes subjetividades dentro de um mesmo grupo social, bem como produz fontes e reflexões autorais do seu percurso de vida diante das vivências da sexualidade e das relações de gênero.

 

Essas fontes ficarão disponíveis no Centro de Pesquisa, Ensino e Extensão em Educação, Linguagem, Memória e Identidade/CELMI, no acervo do Centro de Documentação de Educação, Linguagens e Diversidade Cultura de Mato Grosso do Sul, vinculado ao Grupo de Pesquisa: Educação, Cultura e Diversidade, como também serão disponibilizadas para utilização por outros pesquisadores da instituição e de fora da instituição que desejam pesquisar a temática abordada na presente obra.

 

Finalmente, convidamos os leitores para conhecerem o resultado do trabalho desses jovens autores no conjunto de narrativas das histórias de vida desses idosos, que nos possibilita compreender suas vivências diante de um tema complexo e ainda muito carregado de tabus e preconceito.

 

Léia Teixeira Lacerda

Kátia Cristina Nascimento Figueira

Maria Leda Pinto

 

 

Referências:

 

ALBERTI, Verena. Histórias dentro da história. In: PINSKY, Carla Bassanezi et al (Orgs.). Fontes Históricas. 3ª. Ed. São Paulo: Contexto, 2011. P. 155-202.

CHIZZOTTI, Antonio. Pesquisas qualitativas em ciências humanas e sociais. Petrópolis: Vozes, 2006. 12

GUSSI, Alcides Fernando. Reflexões sobre os usos de narrativas biográficas e suas implicações epistemológicas entre a Antropologia e a Educação. In: 26ª. Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os dias 01 e 04 de junho de 2008 (Comunicação Oral), Porto Seguro, Bahia, Brasil.

POSSENTI, S. Questões para analistas do discurso. São Paulo: Parábola Editorial, 2009, 183 p.

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