Reflexões educacionais: desafios formativos.

ISBN 978-85-7993-693-7

Autor/Organizadores: Analígia Miranda da Silva; Fábio Antonio Gabriel; Flávia Wegrzyn Magrinelli Martinez; Marivete Bassetto de Quadros

PREFÁCIO

 

 

Vivemos, nestes momentos, um capitalismo pós-democrático com todas as suas consequências para a população mundial, principalmente para os trabalhadores. O capital financeiro mascara o conflito entre os princípios democráticos e seus interesses nefastos em relação às conquistas sociais, aos direitos humanos, a qualidade ambiental para potencializar a acumulação privada. Contudo, as crises inerentes a este modo de produzir a vida em sociedade permitem visualizar as estratégias do capital para exercer o domínio mundial sobre a democracia por meio de processos relacionados à tecnologia, as normas fiscais e à dívida pública que massacra os trabalhadores, os autênticos produtores da riqueza.

 

Ainda, o poder do capital coopta os Estados mundiais, para que estes imponham, por meio dos seus aparelhos repressores e ideológicos, o controle sobre os trabalhadores com o intuito de favorecer o “mercado” e desmontar as formas de enfrentamento destas imposições que vêm sacrificando as importantes conquistas da população.

Desvendar e resistir a essa força hegemônica do capital, passa inequivocamente pela educação das massas populares para reagir a esta tragédia socioeconômica e política. A afirmação não pressupõe uma visão redentora da educação, mas afirmar que não é possível compreender o quadro conjuntural sem ela. Entretanto, é preciso identificar e analisar diversidade dos processos educativos, mais especificamente o que temos produzido no Brasil para entender que o processo educativo ainda carece de bases para efetivar esta finalidade.

 

As múltiplas expressões da educação brasileira são problematizadas de diversas formas considerando contextos, fundamentações teóricas, práticas diversas e concepções pedagógicas em realidades díspares e complexas. É relevante considerar que a educação está submetida a aspectos econômicos e políticos que a determinam, pois regulam sua implementação em âmbito municipal, estadual e federal traduzindo, em grande medida, mecanismos de dominação e de subordinação reproduzindo assimetrias de classe, próprias da sociedade do capital.

 

Diante do exposto, faz-se necessário um olhar crítico sobre essas diferentes formas de expressão da educação e como reproduzem as mazelas da sociedade no contexto da escola pública, seja ela de educação básica ou de ensino superior, considerando os determinantes políticos e econômicos.

 

Este olhar nos possibilita evidenciar as contradições que decorrem do modo como produzimos a vida em sociedade e, como este interfere na constituição do projeto educativo nacional que gerou praticamente a universalização do ensino, contudo a qualidade não se efetivou. Esta problemática impõe certa incompreensão de como a sociedade funciona e, desta forma, inviabiliza opções e tomadas de decisão que de fato contribuam para a resolução dos problemas sociais.

 

Diante desta condição a escola que poderia contribuir para a transformação social, acaba por ter sua expressão limitada no âmbito formativo, escamoteando seu compromisso com educandos e educadores, não cumprindo seu maior objetivo que é formar a humanidade nos seres humanos. Superar essa condição é absolutamente desejável e para isso é preciso conceber que os fatos somente têm sentido e significado a partir do contexto histórico em que estão inseridos, considerando o movimento histórico como determinativo.

Esta afirmativa ganha significativa importância, a partir do entendimento que a escola e seus processos são produtos de uma sociedade envolvida em antagonismos aparentemente insolúveis e irreconciliáveis que podem levá-la a uma profunda desestruturação. Penso que este esclarecimento é uma das chaves para construir uma opção diferente de escola e de educação que desmistifiquem as relações de opressão e dominação impostas à sociedade e que se reproduzem na escola e nas práticas em seu cotidiano. Socializar os conhecimentos artísticos, científicos e filosóficos em seu mais elevando nível pode contribuir para que as disputas próprias da lógica destrutiva do capital não se reproduzam no ambiente escolar.

 

É neste sentido que este livro denominado Reflexões Educacionais: Desafios Formativos que reúne artigos de importantes estudiosos de campo da educação se inscreve. Traz contribuições para pensar a escola e a educação neste cenário contemporâneo em que análises qualificadas são urgentes.

 

No texto “A crítica de Antonio Gramsci à escola tradicional/burguesa: considerações”, que abre a coletânea os autores Marcio Luiz Carreri e João Pedro dos Santos discorrem sobre o pensamento do filósofo da práxis considerando a escola sob a égide da tradição burguesa e tratam de importantes categorias gramscianas como hegemonia, sociedade civil, sociedade política e intelectual orgânico. Avançam sobre o debate analisando a escola unitária contrapondo-a a escola tradicional. Tratam também da introdução das ideias de Gramsci no Brasil, destacando-o como um dos principais pensadores do século XX.

 

Luiz Matheus Macedo Périco e Maurício Gonçalves Saliba em “Experiências e significações escolares do sujeito que vivenciou o cárcere (jacarezinho, 2018)” buscam estabelecer uma relação entre educação e a condição carcerária enquanto possibilidade para a realização de pesquisa. Os autores trazem reflexões sobre o cárcere, e relatam a experiência do pesquisador no Centro de Assistência ao Dependente de Droga entrevistando três sujeitos com idades, crimes e escolarização diferentes entre si. Estes contam suas histórias e descrevem suas experiências escolares, o que possibilita aos autores pensar o papel da Educação em relação ao cárcere e as desigualdades sociais.

 

Em “As influências da desigualdade social no desenvolvimento escolar” Jenifer Cristina de Souza Marques e Maria Eduarda de Lara Lalli intentam compreender a dupla relação do fracasso escolar com o conflito de classes e ressaltam as dificuldades de estudantes oriundos das classes sociais desfavorecidas no processo ensino e aprendizagem. Destacam as autoras, as realidades de diferentes camadas sociais favorecidas e desfavorecidas e questionam a lógica em que a escola está imersa. Discutem a mistificação da escola que prepara para o mercado como uma configuração ideológica que produz fracassos e, em alguma medida, apontam a conversão do direito a educação a uma condição de produto a ser comercializado e, portanto comprado no mercado. Esta mesma lógica possibilita, segundo as autoras, o discurso ilegítimo do fracasso escolar como um elemento próprio dos desfavorecidos social e economicamente.

 

Na sequência encontramos o texto de Marcia Luiza Traskurkemb Funatsu e Isabella Caroline Debastiani Gonçalves que analisam o “Bullying” no ambiente escolar e discutem a possibilidade de seu enfrentamento refletindo sobre a sua definição e relação com a violência e como lidar com ela para que não mais ocorra. Afirmam a importância de saber identificar quem é o agressor e a vítima, neste contexto para estabelecer as intervenções efetivas nas relações de violência em suas diversas formas, apontando causas e consequências, com vistas a orientar a comunidade escolar sobre atos que possam gerar traumas que marcam a vida das pessoas.

 

Já Polyanna Santiago de Mesquita investigou o conceito e a relevância da abordagem da escuta no desenvolvimento e na relação com a criança na Educação Infantil, a partir das concepções de pesquisadores que propiciaram a autora o entendimento desta abordagem como forma de verificar e compreender a criança, seu pensamento e sentimento em relação ao mundo que a cerca, suas experiências e interações, possibilitando a ampliação de suas vivências. Também nos alerta para a importância do escutar pedagógico na escola para superar desafios, elaborar estratégias e repensar práticas que assegurem a percepção da perspectiva da criança no processo de ensino e de aprendizagem.

 

Temática relevante apresenta-se no artigo “Práticas inclusivas na educação infantil: jogos matemáticos e aprendizagem por meio da música” de Ana Paula Pinha de Almeida e Bianca Cristina dos Santos Pereira. As autoras elaboram um ensaio reflexivo sobre a abordagem lúdica em jogos matemáticos e da música na escola, especialmente na educação infantil em uma perspectiva inclusiva. Valorizam as diferenças individuais e grupais no contexto da diversidade cultural e a riqueza das manifestações musicais e de jogos presentes na escola. Entendem as autoras que os estudantes, principalmente os da educação especial que estão inseridos nas escolas de ensino regular, são deixados de lado e os professores têm dificuldades em se aproximar deles e abordá-los pedagogicamente. Afirmam, ainda que essa realidade distancia-os dos conhecimentos e que os professores da Educação Infantil precisam estar atentos ao desenvolvimento de seus alunos, e da importância do lúdico na prática pedagógica.

 

As autoras Bruna Carolina Moraes Penteado, Mirian Prado e Flavia Wegrzyn Magrinelli Martinez trazem uma significativa reflexão para o ensino de história, articulando-o a importante concepção pedagógica histórico-crítica elaborada pelo professor Dermeval Saviani e colaboradores. Neste sentido, as autoras compreendem o ato educativo como o trabalho de produzir em cada indivíduo, de modo singular e intencional a humanidade historicamente construída pelo conjunto dos seres humanos. Meditam sobre as relações existentes entre condições de trabalho e o processo de ensino numa sociedade que cerceia possibilidades de ensino e limita o exercício do professor pela imposição de materiais didáticos limitando e, por vezes, inviabilizando a autonomia docente. Apontam a escolha do ensino de História por considerá-lo tradicional, nacionalista, com ênfase em datas e pouca articulação entre passado e presente. Ainda, entendem que a pedagogia histórico-crítica é uma possibilidade para esse enfrentamento.

 

Em sequência temos o estudo de Lucas Pereira e Marivete Bassetto de Quadros sobre o uso de recursos tecnológicos no processo de ensino. Com o artigo intitulado “Smartphones: de vilão a mocinho” os autores discorrem sobre o uso da tecnologia em sala de aula e como esta pode ser atrativa por, segundo os autores, proporcionar aos estudantes uma forma diferenciada de ensino. Entendem que é preciso aliar a Tecnologias de Informação a concepções metodológicas viabilizando uma forma mais criativa de ensinar. Intentam também, compreender os desafios enfrentados pelos professores para a aplicação e integração das mídias – especificamente do smartphone – no contexto escolar, identificando nas práticas educativas, um significado prazeroso e dinâmico para que os docentes ministrem suas atividades cotidianas, aplicando o recurso midiático pedagogicamente no meio escolar.

 

Luiz Ricardo Soares Ferreira, Simone Luccas e Selma dos Santos Rosa tratam da Avaliação formativa mediada por tecnologias digitais da informação e comunicação. Discorrem os autores sobre o contexto de reforma educacional brasileira a partir da proposta da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada para todas as etapas da Educação Básica, e afirmam a necessidade de repensar os currículos, assim como os eixos de formação de professores. Buscam evidenciar que uma proposta de reforma de currículos deve perpassar pela Educação Básica e por toda a estrutura organizacional da Educação brasileira, das instituições de ensino públicas e privadas, do ensino infantil ao superior, dos entes federativos, estaduais, municipais e a própria União. Afirmando inclusive que essa deve ser uma proposta curricular sistêmica. Avançam, a partir daí, para a questão fulcral do artigo que é a avaliação e seu papel na escola. Discutem avaliação formativa e avaliação somativa, problematizando-as conceitualmente.

 

Observe leitora e leitor, a riqueza de expressões propostas pelas autoras e autores nesta obra, fato que por si só, já justifica a leitura deste volume. Todavia, alerto que o livro não pode ser considerado como um conjunto de respostas definitivas em relação aos temas, sujeitos e objetos de análise que aqui se apresentaram, mas sim como uma rica e diversa coletânea de textos de pesquisas educacionais que convidam para o debate qualificado sobre o ensino, a educação e a escola a partir de diversos olhares, análises e argumentos que dão a este livro um elevado grau de importância no cenário atual, servindo como um excelente material de estudo e consulta para professores da Educação Básica, do Ensino Superior, estudantes de graduação e pós-graduação, pesquisadores ocupados com os muitos e complexos problemas da educação no Brasil. Estes profissionais poderão se beneficiar significativamente com esta obra.

 

 

Bauru/SP, 17 de Maio de 2019.

 

Prof. Dr. Jorge Sobral da Silva Maia

Professor Associado do Programa de Pós-Graduação em Educação do Centro de Ciências Humanas e da Educação; do Programa de Pós-Graduação em Ciência Jurídica do Centro de Ciências Sociais Aplicadas – Universidade Estadual do Norte do Paraná – UENP/CJ e Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência da Faculdade de Ciências – UNESP Campus Bauru/SP.

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