A linguagem da avaliação em língua portuguesa. Estudos sistêmicofuncionais com base no sistema da avaliatividade.

ISBN 978‐85‐7993‐043‐0

Autor/Organizadores: Orlando Vian Jr.; Anderson Alves de Souza; Fabíola A.S.D.P. Almeida

PREFÁCIO[1]

 

James R. Martin

Universidade de Sidney, Austrália

 

Cais

 

Quando meus colegas e eu demos início ao trabalho com a linguagem da avaliação, pouco mais de duas décadas atrás, nosso foco era a língua inglesa, já que estávamos preocupados com os modos pelos quais os sentimentos são expressados pelos australianos em histórias orais e escritas, em comentários críticos sobre trabalhos que envolvem criatividade, e no discurso da mídia. No decorrer dos anos, naturalmente tivemos consciência da vasta literatura, na e ao redor da Linguística, explorando a linguagem da emoção nas culturas. Isso, é claro, suscitou nossa curiosidade sobre o que ocorreria à descrição e à teoria da avaliatividade quando recontextualizadas para línguas que não o inglês, especialmente línguas de famílias linguísticas e com bagagens culturais diferentes da nossa. Fora uma pequena especulação superficial em Martin 2002[2] , deixamos o julgamento em suspenso, aguardando o trabalho de colegas de outras partes do mundo.

 

Na década passada, ficamos surpresos pelo grande interesse gerado, especialmente na América Latina e na China. Quando convidado a ministrar workshops em outros países, descobri que a teoria da avaliatividade tinha suplantado a análise de gêneros e o letramento como área de pesquisa que os colegas mais gostariam que eu abordasse. O website de avaliatividade projetado por Peter White, e a sua lista de discussão por email, é sem dúvida enormemente responsável por isso, desde que permitiu o acesso eletrônico a esse trabalho a muitos estudiosos ao redor do mundo. Fico especialmente honrado ao ser convidado para escrever algumas palavras para esta coletânea editada sobre a linguagem da avaliação em português – já que minhas visitas a Portugal e ao Brasil geraram tantos relacionamentos e amizades tão caras no decorrer dos anos.

 

Este volume representa o trabalho de vários estudiosos brasileiros que se apropriaram do arcabouço da avaliatividade desenvolvido para o inglês e o retrabalharam para o português. Não é trabalho fácil retrabalhar teorias desse tipo de uma língua para outra, e tenho conhecimento das muitas discussões originadas que variavam desde a terminologia específica até preocupações conceituais mais gerais que foram fortemente contestadas e profundamente exploradas – como os trabalhos neste volume testemunham. Após uma introdução pelos editores, o volume lida com as três dimensões mais amplas da avaliatividade – engajamento, atitude e gradação; e foca em textos de uma vasta gama de áreas, incluindo a mídia, educação, novas tecnologias, literatura e textos publicitários.

 

Como conheço tão pouco a língua portuguesa, sei que tatearei esses artigos cheio de ciúmes daqueles que sabem a língua e estarão numa posição mais privilegiada para saborear as análises apresentadas. A esses leitores, eu gostaria de perguntar até que ponto eles acham que as análises captam o espírito da avaliação em português, e até que ponto isso pode ter sido atribuído ao desenvolvimento inicial da teoria em inglês. Por ter trabalhado com gramática funcional com alunos no decorrer dos anos, sei que o primeiro passo envolve inevitavelmente fazer com que as línguas não-inglesas fiquem parecidas com as descrições apresentadas por Halliday na gramática do inglês – e assim será necessário parar e perguntar: como ficaria minha língua se eu nunca tivesse lido nada do trabalho de Halliday? Então, leitores de português, onde estamos atualmente, no que diz respeito à teoria da avaliatividade? Sei que vocês defenderão sua língua e sua cultura, neste mundo pós-colonial. E talvez, um dia, eu aprenda o suficiente de sua língua para me garantir que ofereci a vocês algumas perguntas para questionar não as respostas que eu descobri (o cais mas não saveiro que a canção Cais de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos coloca tão impressionantemente bem).

 

 

1 Tradução de Orlando Vian Jr.

2 Martin, J R 2002 Blessed are the peacemakers: reconciliation and evaluation. C Candlin [Ed.] Research and Practice in Professional Discourse. Hong Kong: City University of Hong Kong Press. 187-227.

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