Sementes de Educação Aberta e Cultura Livre. Série Texto Livre: pensemeando o mundo. Tomo I.

ISBN eBook: 978-85-7993-568-8x impresso: 978-85-7993-569-5

Autor/Organizadores: Ana Cristina Fricke Matte

Prefácio

 

A experiência docente tomada como objeto de apresentação e reflexão é a chave condutora do processo enunciativo deste livro. Obviamente, qualquer experiência poderia ter este papel. Mas aqui se trata de um trabalho que articula um conteúdo disciplinar – a Semiótica – a práticas analíticas de enunciados e a um processo de produção de outros enunciados, em Texto Livre, através do emprego das tecnologias hoje disponíveis.

 

Como defende a autora, não basta que se introduzam computadores conectados à internet para dentro da sala de aula para que esta mude sua tradicional geografia espacial: à frente o professor; os alunos em fileiras horizontais e verticais, cada um atrás de seu monitor. Caso se mantenha o que a geografia da sala de aula sempre significou: um lugar de saber que define o andamento temporal de estudos de um conhecimento selecionado aparentemente pelo professor, mas na verdade definido de fora pela ortodoxia que seleciona o que deve ser aprendido (supostamente como necessário) e o que, portanto, deve ser ensinado. Isto não só nos níveis iniciais da escolaridade: a existência de uma Base Nacional Comum Curricular mostra que este “conteúdo” se define do exterior para o ensino básico (incluído aí o ensino médio, também definido de modo externo não só no que concerne ao que deve ser ensinado, mas também quais alternativas de estudo podem ser seguidas). Também os currículos dos cursos superiores são previamente estabelecidos, com suas ementas e às vezes até mesmo a bibliografia, o que desvela a imagem do que deve ser o profissional que a universidade forma.

 

Aparentemente, no sistema escolar, somente a pós-graduação fugiria a esta relação de transmissão do já sabido, já que nossos cursos de pós-graduação são como árvores de Natal – cada professor inclui sua bola colorida, isto é, uma disciplina que contemple a perspectiva teórica que abraçou em seu trabalho de docente e pesquisador (ou mais de uma, dependendo do poder de força e da vontade de atrair para sua doutrina, no sentido foucaultiano do termo, o máximo de seguidores). Conseguido este feito, o que define efetivamente o “conteúdo” a ser discutido (penso que, ao menos na pós-graduação, tenhamos como hipótese que não se transmitem os conteúdos, mas se discutem estes conteúdos) provém precisamente do campo e da definição de seu objeto pelas teorias que conformam o fazer docente na pós-graduação.

 

Se é assim que funciona o sistema de formação, parece inescapável que o encontro entre o estudante e o professor seja mediado precisamente pelo “conhecido” (note que falo do “conhecido” e não do “conhecimento” como conhecido sempre se apresenta). As variações, com ou sem uso das modernas tecnologias disponíveis, ficariam por conta, sempre, do modo de apresentação, ou do que se pode chamar de metodologia.

 

Escapando da perspectiva semiótica que sustenta as análises apresentadas neste Sementes de Educação Aberta e Cultura Livre, este “modo de apresentar” me remete a um velho texto de Frege, Sobre o sentido e o significado, em que o autor nos ensina que o sentido é o modo como damos ao outro e a nós mesmos o objeto de que falamos. É neste terreno bastante movediço que inúmeras variáveis entram em cena, de tal maneira e tão relevantemente que as compreensões que fazemos das coisas, das gentes e das suas relações se definem precisamente nos sentidos que circulam no meio social.

Neste livro se defende uma posição que desveste o habitual, não só porque as análises vão desnudando o que naturalizamos – o capítulo da análise da “geografia da sala de aula” é, neste sentido, exemplar, mas porque também nos mostra outra possibilidade de formação em que os participantes, incluindo o professor, assumem correr riscos explícitos de deixarem o que no ensino tradicional seria apenas uma digressão, no caminho já traçado e a ser percorrido religiosamente, tornar-se mais relevante e abertura para o que nasce, para o que nasce do acontecimento.

 

Para conseguir este feito, a autora, professora e formadora, faz dois cortes iniciais que incidem sobre o tempo e o espaço: a destruição da sincronia da aula que o encontro presencial produz; e a abertura do espaço que se torna qualquer espaço em que esteja o participante, desde que conectado. Cria assim uma comunidade, a comunidade do Texto Livre:

Do ponto de vista institucional, o que é o grupo Texto Livre? Trata-se de uma organização livre com um pé na universidade pública cujo propósito é discutir e praticar o ensino libertador e a filosofia do Software Livre no ambiente universitário, em primeira instância e, em seguida, outros ambientes de ensino, particularmente a educação à distância e o ensino de línguas.

 

É no interior desta comunidade que ela ensina e aprende suas disciplinas Semiótica (na graduação e na pós-graduação); Aplicações computadorizadas nos estudos da linguagem (na pós-graduação) e Oficina de leitura e produção de textos (na graduação). Daí o vínculo institucional com a Universidade, no caso a Universidade Federal de Minas Gerais.

 

Mais importante do que a institucionalidade – que em certa medida é burlada – é o conjunto de princípios que movem os processos participativos nestes estudos, cujo contato antecipo aos leitores:

• Colaboratividade: uma atitude frente ao trabalho e ao conhecimento que favorece um olhar construtivo nas relações, subsumindo a responsabilidade do indivíduo para o êxito de qualquer empreitada, ou seja, o indivíduo que faz parte de um processo é responsável por ele, no sentido de mobilizar suas habilidades e conhecimentos para o sucesso coletivo, pois, nesse paradigma, se uma pessoa conquista algo, todas conquistam;

• Meritocracia: bem diferente da meritocracia neoliberal, segundo a qual o valor da pessoa é uma característica individual, a meritocracia no meio do software livre e da Cultura Livre é citada como uma postura proativa, coerente com os princípios de sua comunidade e por sua atitude colaborativa. Em outras palavras, nesse meio, títulos e conhecimento ou inteligência não valem nada se o indivíduo, por mais genial que seja, não usa seu potencial para beneficiar a todos. Tem mérito, portanto, a ação na qual, se uma pessoa ganha, todas ganham;

• Liberdade: também sem qualquer relação com a liberdade do neoliberalismo, a liberdade do software livre é uma liberdade determinada pelo respeito à diversidade, respeito à opinião, respeito pela pessoa e, antes de mais nada, respeito ao conhecimento como desígnio não do homem, mas da humanidade: ser livre para crescer porque, nesse meio, se uma pessoa cresce, todas crescem;

• Compartilhamento: longe da ideia do compartilhamento tão em voga em redes sociais, em que, acima de tudo, compartilhamos para ganhar visibilidade e para sermos reconhecidos como parte de uma comunidade específica, o compartilhamento do software livre é, praticamente, uma questão técnica: compartilhar é permitir que aquilo que se está compartilhando possa ser revisitado por novos contribuidores e, assim, possa tornar-se melhor, mais abrangente ou mais criativo: porque, quando uma pessoa sabe, todas sabem, e a própria pessoa, ao compartilhar, sabe mais ainda.

 

Há uma aposta que poucos professores têm a coragem de fazer: como todo saber exige dedicação e insistência, a aposta será na responsabilidade do estudante: ele é o responsável por sua caminhada, pela abrangência dos seus gestos de aprendizagem, pela profundidade do seu mergulho, podendo ora nadar na superfície, ora e em determinados tópicos que lhe interessam, ir ao fundo para encontrar por lá o que ainda não se sabe, que ainda está por trazer à tona. Neste sentido, o processo de ensino que aqui a Ana Cristina revela, analisa e deixa à disposição do leitor, aprofunda o filão da pedagogia paulofreireana, trazendo para o mundo habitado por uma comunidade nas “nuvens” da virtualidade que se concretiza como saber que cada participante internaliza e passa a carregar, mas também como generosidade de partilha de suas descobertas. Creio que nestes dois elementos concretos está a grande riqueza de uma caminhada como esta. Por isso

No ir e vir de nossos aprendizados e crenças, o sentido das coisas não está nas coisas, é socialmente construído, nem que seja por uma sociedade de um homem só…

 

Que o leitor não se assuste com algumas análises semióticas, com o emprego de um vocabulário próprio à disciplina: não é necessário aderir a esta teoria para compreender o que movimenta este mundo dos textolivrenses. Muito mais do que as análises, aqui facilitadas por esquemas, é o movimento de reversão de uma pedagogia do já sabido ensinado ao mesmo tempo para todos, moderna, desde Comenius nos inícios do Século XVII e que perdura até nossos dias.

 

A autora traz também uma análise do próprio desenvolvimento da Web, do avanço na tecnologia, passando por um tema bastante atual: aquele do bullying, uma digressão necessária face ao meio virtual em que aposta, usando software livre, como a Educação Aberta e a Cultura Livre que quer semear. E semear é ter esperança, é apostar numa colheita. E a colheita aqui desejada não é a do produto predeterminado como se dá na agricultura bem sucedida. Trata-se de esperar uma formação que, transitando pela liberdade, constrói futuros pela revisão do passado, porque um passado não revisitado – incluindo aqui teorias e práticas – somente manufatura um futuro que o repete.

 

Aqui, trata-se de construir sentidos na história coletiva e individual, no contexto de uma sociedade que transformou o indivíduo em mero consumidor, ganancioso por mercadorias nesta felicidade paradoxal que o consumo alimenta, é um caminho revolucionário tanto na educação quanto nos meios das redes em que nos tornamos visitantes desenraizados. Porque sentidos construídos não só conformam nossas consciências, mas nos fazem participantes de um mundo outro que não aquele da mercadoria em que tudo se transformou.

 

 

João Wanderley Geraldi

outubro de 2018

2 comentários em “Sementes de Educação Aberta e Cultura Livre. Série Texto Livre: pensemeando o mundo. Tomo I.

  1. Excelente livro para quem quer conhecer sobre a Educação Aberta e a Cultura Livre. A autora e Professora Ana Matte traz uma abordagem com uma linguagem semiótica que leva o leitor a um entendimento sobre o tema de modo leve e indutivo. Possui licença e atribuição adequada para que outros possam fazer uso da obra de forma adequada, o que corrobora o proposto pela autora.

  2. Corrigindo a minha fala anterior, substituindo a palavra “adequada” por: “Possui licença e atribuição para que outros possam fazer uso da obra como é explicitado nela – usar, compartilhar e incentivar a produção de novas obras a partir dela.
    Reitero destacando que a autora usou uma “Licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional. Pode ser livremente usada, compartilhada e gerar obras derivadas, desde que mantida a licença e citada a fonte”, como mencionado na obra.
    Dessa forma o usuário pode usar e fazer surgir novas obras baseando-se na ideia original, criando um remix a partir dela.

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