Juventude e educação na América Latina

ISBN: 978-85-7993-734-7

eISBN: 978-85-7993-752-1

Autor/Organizadores: Aldimar Jacinto Duarte; Cláudia Valente Cavalcante; Vinicius Oliveira Seabra Guimarães

APRESENTAÇÃO

As juventudes vêm se tornando cada vez mais presentes nas pesquisas acadêmicas, nos debates científicos, em especial por meio de abordagens qualitativas pelo importante papel que cumprem historicamente no processo de (re)produção da realidade social. Na modernidade tardia esses agentes vêm ocupando os espaços sociais ora como agentes de contestação e subversão frente às estruturas de dominação, ora como mantenedores dos padrões previamente estabelecidos. Por essa razão, há muita expectativa sobre as ações e reações dos jovens frente às mudanças sociais, políticas e culturais, especialmente no contexto da América Latina, isso porque esses agentes sociais transitam com certa frequência entre os diversos espaços formativos, entre os quais, pode-se destacar a educação.

Juventude e educação são duas categorias que apresentam muitos imbricamentos, inicialmente porque um considerável período de tempo da vida dos jovens se dá dentro do espaço da educação formal, ou seja, no período de escolarização, sendo esse um importante espaço social de formação das juventudes. É razoável considerar que esse processo de escolarização se dá de formas diferentes para cada grupo juvenil, dependendo da classe econômica, do capital cultural, das condições sociais, entre outras esferas da vida coletiva. A educação formal não é a única instância educativa em que os jovens estão inseridos, sendo também influenciados pela educação informal e pela educação não-formal, cabendo, portanto, uma análise dos processos formativos por meio de sua inserção em agrupamentos e culturas juvenis: religioso, tecnológico, familiar, do mundo do trabalho, das políticas públicas, das questões de raça e gênero, entre outras.

A presente obra tem como propósito principal contribuir para uma melhor compreensão da condição juvenil nesses múltiplos espaços educativos e formativos, levando em consideração o cenário da América Latina no tempo presente. Dessa forma, os olhos estão postos nos jovens como sujeitos das pesquisas aqui apresentadas, desvelando em cada capítulo um contexto permeado de dramas e tramas sociais em que os jovens estão imersos nas sociedades do tempo presente. Na tentativa de capturar as múltiplas dimensões desses variados contextos, nos propomos a transitar pela realidade de cinco países latino-americanos: Brasil, México, Argentina, Chile e Paraguai.

No primeiro capítulo, Vinicius Oliveira Seabra Guimarães e Aldimar Jacinto Duarte discutem a formação histórico-social da categoria América Latina dando ênfase para as disputas sociais dos jovens no campo da educação, destacando o enfrentamento às estruturas de dominação como inerentes à condição juvenil na América Latina. Para tanto, os autores, compreendem que os movimentos juvenis ganham evidência a partir do século XX como um possível catalizador da efervescência cultural, social e política do contexto latino-americano.

Conclui-se que os ideais libertários de luta por autonomia e fraternidade regaram o campo juvenil latino-americano ao longo dos tempos, como que em um processo mnêmico da própria construção histórico-social da categoria América Latina.

No segundo capítulo, Antonio Carrillo Avelar, Esteban Rodríguez Bustos e Luis Alfredo Gutiérrez Castillo discutem sobre a formação de jovens estudantes em nível de pós-graduação a partir da experiência de elaboração de um acordo de colaboração entre o Brasil e o México.

O referido acordo de colaboração visa promover a “abertura” de conteúdo, tecnologia e processos por meio da conscientização, da formulação de políticas e do reforço das habilidades intelectuais dos jovens que lutam pelo respeito à diversidade cultural e aos direitos humanos. Conclui-se que o aprendizado dos jovens pode ser reforçado e melhor otimizado, no que diz respeito à causa da diversidade cultural e dos direitos humanos, se as condições acadêmicas forem entrelaçadas com um programa de desenvolvimento multicultural, com abertura de mídias de comunicações sociais e com a utilização das tecnologias da informação.

No terceiro capítulo, Thalita Fernanda Moreira Cardoso e Divino de Jesus da Silva Rodrigues discutem os sentidos e significados da Polícia Militar para jovens universitários do curso de Serviço Social.

Dessa forma, o texto propõe compreender como esses jovens estudantes em Goiânia, Goiás, Brasil, percebem e reconhecem a Polícia Militar, tendo em vista que essa é uma das instituições do Estado responsáveis pela promoção da segurança pública. Conclui-se que há alguns estudantes que apontam ser a Polícia Militar um os principais responsáveis pela prevenção, proteção, paz, defesa, manutenção da ordem e segurança. Entretanto, na percepção de outros estudantes, a Polícia Militar ocupa outros sentidos contrariamente distintos, caracterizado por uma ação desumana, violenta, ignorante, racista, repressora, autoritária e coercitiva.

No quarto capítulo, Víctor Raúl Américo Villalba Paiva apresenta uma percepção do que é ser jovem estudante no Paraguai no tempo presente. O texto expõe que os estudantes paraguaios estão em constante oscilação social, por vezes, pendendo para a delinquência, o consumismo e a violência. Entendendo que esse cenário contribui para o abandono escolar e afeta as reais oportunidades de trabalho desses jovens. Conclui-se que, apesar do contexto social paraguaio não ser tão favorável aos jovens, ainda sim, eles conseguem achar um caminho de enfrentamento e destaque, reivindicando, para tanto, uma educação de qualidade como pressuposto para o desenvolvimento social.

No quinto capítulo, Alexssandra de Oliveira Terribelle e Leila Silva de Moura discutem sobre o papel social da escola na perspectiva dos jovens goianos (Goiás, Brasil) que estudam e trabalham, simultaneamente. A pesquisa demonstra que os jovens tinham grande esperança na escolarização como possibilidade de qualificação para o mercado de trabalho e ascensão social, sendo que tais prerrogativas estão interligadas com outras esferas da vida coletiva desses jovens.

Conclui-se que os jovens estudantes trabalhadores consideram a escola como um dos mais importantes espaços sociais em suas trajetórias, porém o cotidiano escolar deles é perpassado por inúmeras dificuldades que vão desde a falta de materiais escolares à alimentação, além de terem que conviver com as experiências de isolamento, violência e medo.,

No sexto capítulo, María Alejandra Silva apresenta os desafios de um desenvolvimento sustentável em contraposição ao trabalho infanto-juvenil na zona rural da Argentina entre os anos de 2007 a 2017.

A lógica proposta é que a partir do desemprego, afrouxamento das leis e da precarização das condições de trabalho várias crianças, adolescentes e jovens estão sendo forçados a trabalharem em condições inapropriadas e indevidas, sendo que tal cenário produz marginalização e exclusão. Conclui-se que a o trabalho infanto-juvenil rural existente no nordeste da Argentina é fruto de uma ausência de políticas territoriais de inclusão educativa e de falta de acesso aos recursos de combate ao trabalho infanto-juvenil, o que não tem favorecido a Argentina a alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) propostos até 2030.

No sétimo capítulo, Wagna Maquis Cardoso de Melo Gonçalves discute sobre as políticas públicas para as juventudes no Brasil tendo a educação como eixo norteador, o recorte temporal escolhido foi a década de 1990 e o início da década de 2000. O capítulo faz um breve debate sobre os paradigmas de análise da juventude e sua influência nas diversas formas de intervenção estatal, apresenta as demandas sociais da juventude e as ações direcionadas a elas ao longo do século XX e discorre sobre a criação da Secretaria Nacional de Juventude e do Conselho Nacional de Juventude. Conclui-se que o governo brasileiro fez uso de diversas políticas ao longo de sua história recente, optando por focar em um conjunto de ações que por um lado são pautadas na segurança e controle social, e do outro lado, pautadas na renda e empregabilidade, tendo a educação como eixo norteador de tais políticas, independente do paradigma de análise da juventude.

No oitavo capítulo, Brunna Thais Reis Sales faz uma discussão sobre o papel social da Educação Física na perspectiva de jovens estudantes do Ensino Médio em Goiânia, Goiás, Brasil. A pesquisa se fundamentou a partir das Representações Sociais de Sergie Moscovici e teve como objetivo compreender as percepções dos jovens em relação à educação e à educação do corpo como elementos fundamentais para a formação humana. Conclui-se que apesar de todos os obstáculos e dificuldades que os jovens enfrentam no contexto escolar, ainda sim eles entendem que a educação é um fator importante para futuro e para melhorias na condição de vida, acreditando encontrar na educação, e consequentemente na Educação Física, uma possibilidade de ação consciente para a emancipação humana.

No novo capítulo, Marco Antônio Oliveira Lima e Cláudia Valente Cavalcante discutem o papel social do corpo na perspectiva da juventude skatista em uma cidade do interior do Estado de Goiás, Brasil. O capítulo suscita uma releitura sobre a construção histórica do corpo, da educação e dos aspectos culturais dos jovens skatistas.

Dessa forma, os autores contribuem para compreender as múltiplas formas de vivenciar, partilhar e dar novos sentidos ao espaço urbano.

Conclui-se que a juventude skatista com seus corpos representa uma forma de enfrentamento, assim como permite a esses jovens encontrarem consigo mesmos e com suas perspectivas de mundo, o que aponta para uma autonomia de pensamento e de ação coletiva emancipatória.

No décimo capítulo, Milene de Oliveira Machado Ramos Jubé e Cláudia Valente Cavalcante apresentam a percepção de jovens do Ensino Médio público acerca das violências dentro do espaço escolar na cidade de Goiânia, Goiás, Brasil. O texto busca compreender a relação entre jovens e violência em contexto escolar uma vez que eles chegam à escola carregados de estereótipos midiáticos. Conclui-se que os jovens ora são vítimas da violência, ora são os protagonistas, sendo que os locais em que mais ocorrem episódios de violência dentro da escola são a sala de aula e o pátio. Observa-se também que os jovens vivenciam três tipos de violências, a saber: a violência simbólica, a violência na escola, a violência à escola.

No décimo primeiro capítulo, João Batista Coelho Cunha e Aldimar Jacinto Duarte discutem sobre o uso da violência nas manifestações de rua a partir das manifestações dos movimentos juvenis que ocorreram no Brasil dentre os anos de 2013 a 2016. Partese do pressuposto que o uso de ações violentas é um dos mecanismos de legitimação de grupos políticos em disputa e que também é uma forma de gerar controle dos discursos políticos sobre os demais manifestantes em um campo em disputa. Conclui-se que a violência, no sentido empregado nas manifestações, pode ser entendida para além de uma prática isolada ou de uma ação desinteressada, mas se configura em uma estratégica de poder político e de controle dos discursos.

No décimo segundo capítulo, Adriana Dias de Oliveira e Gabriel Andrés Mora Galleguillos apresentam um estudo comparativo entre Brasil e Chile analisando o protagonismo juvenil na América Latina. O texto discute as reivindicações dos movimentos juvenis nesses dois países e os enfrentamentos junto ao sistema neoliberal. Conclui-se que a lógica neoliberal tem contribuído para aumentar as desigualdades sociais e as desigualdades educacionais entre os jovens no atual contexto latino-americano. Contudo, a forma estrutural se difere entre os dois países: no Chile, os movimentos juvenis reivindicaram mudanças nas políticas públicas educativas abrangendo o Estado de forma mais ampla e posteriormente nas especificidades locais; no Brasil, a escola em si é quem foi alvo das reivindicações de melhorias na qualidade de ensino e, posteriormente, tais contestações atingiram questões mais complexas como injustiças sociais e a realidade social.

Entretanto, em ambos os casos o neoliberalismo foi apresentado como mola motor dos enfrentamentos.

No décimo terceiro capítulo, Rosana Carneiro Tavares e Sonia Margarida Gomes Sousa discutem sobre os significados do sistema socioeducativo para o jovem privado de liberdade no Estado do Tocantins, Brasil, durante os anos de 2012 a 2014. No capítulo são apresentados significados construídos a partir da percepção dos jovens que praticaram atos infracionais e das medidas que são aplicadas a eles devido ao cometimento de infrações. Conclui-se que o sistema socioeducativo funciona de modo muito semelhante ao sistema prisional, ou seja, bastante punitivo. Isso ocorre, segundo as autoras, pois historicamente a juventude, no âmbito das políticas, sempre esteve na condição do “menor”, associando-os à condição de pobreza, desadaptação e marginalidade. Dessa forma, o poder público só se voltava a essa parcela da população no sentido de produzir a ordem social, isto é, educar para serem cidadãos. Entretanto, caso haja impossibilidade desse modelo, institucionaliza-se o educar sob coerção.

No décimo quarto capítulo, Valdeir Cesário Dos Santos e Maurides Batista de Macêdo Filha discutem sobre o direito à educação do jovem em conflito com a lei, na cidade de Anápolis, Goiás, Brasil. O texto argumenta que a educação é um direito humano e sendo assim, versa sobre o direito à educação dos jovens em cumprimento de medida socioeducativa em meio aberto, particularmente a medida de prestação de serviço à comunidade. Conclui-se que a experiência de Anápolis não se diferencia, nem na teoria e nem na prática, da situação nacional. Dessa forma, o jovem em conflito com a lei ainda continua sendo considerado mais problema social que esperança de futuro, cujas famílias, nomeadamente esestruturadas, são culpabilizadas por sua, suposta, má educação enquanto o Estado tenta justificar por diversos discursos a histórica ausência em lhes garantir direitos básicos.

No décimo quinto capítulo, Alessandra Sagica Gonçalves discute sobre as relações entre juventude, educação e pobreza no contexto brasileiro. A autora parte do princípio de que a escola pública é um espaço social em que essas três dimensões se intercruzam e ganham representações sociais, culturais e econômicas. Nesse sentido, as mudanças sociais, os processos hegemônicos e as tensões políticas diante do conhecimento e dos seus efeitos sobre a sociedade exigem outra dinâmica no currículo escolar. Conclui-se que é necessário a esses jovens o conhecimento e o reconhecimento de sua realidade historicamente construída, sendo a escola, o poder público e seus agentes educativos responsáveis por oportunizar a eles o direito a educação como forma emancipatória.

No décimo sexto capítulo, Hemanuelle Di Lara Siqueira Jacob e Anna Maria Dias Vreeswijk discutem sobre as questões étnico raciais e de gênero na perspectiva da juventude negra de uma escola pública localizada na região noroeste da cidade de Goiânia, Goiás, Brasil, no ano de 2016. As autoras avaliam que a estrutura social escolar é, por si só, regada de estereótipos no que se refere à raça e gênero, sendo isso perceptível nas atividades esportivas propostas pela disciplina de Educação Física, entre outras práticas pedagógicas. Conclui-se que, apesar de frequentemente a estrutura escolar e o currículo escolar reproduzirem as práticas preconceituosas já estabelecidas na sociedade, é possível construir identidades positivas sobre a sua origem étnico-racial e de gênero a partir de uma ação pedagógica consciente e questionadora.

No décimo sétimo capítulo e último desta obra, há uma transcrição de uma entrevista realizada por Rosane Castilho em 2018 durante o período de Estágio Pós-Doutoral no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, em Portugal. O entrevistado foi o professor português José Machado Pais, um dos mais importantes escritos sobre a categoria juventude na atualidade. A tônica da entrevista foi a partir do seguinte questionamento: Como cartografar a condição juvenil e o futuro dos jovens? A entrevista percorre as estruturas sociais em que os jovens estão inseridos e discute sobre a construção social da própria categoria juventude, dando ênfase a vida coletiva, a escola e o mundo do trabalho como instâncias socializadoras das classes juvenis.

Por fim, como foi possível observar no breve relato dos capítulos, estudar a condição juvenil na América Latina a partir dos processos socializadores, formativos e educativos é uma tarefa de proporções gigantescas que abarca inúmeras esferas do cotidiano, mas que também apresenta conexões com a história dos países latinoamericanos, como foi demonstrado a cada capítulo deste livro. A juventude, como foi possível observar nos textos, não é um grupo único, com coordenadas previamente estabelecidas e com um rígido limite de atuação, pelo contrário, compreende-se que cada agrupamento juvenil, em cada tempo histórico, em cada territorialidade, experimenta de forma intensa suas realidades sociais, suas utopias, angústias, lutas, labutas, ilusões e desilusões. Por essa razão, reafirmamos a categoria juventudes, no plural, como mais adequada para expressar a complexidade e diversidade de se experienciar esse tempo de vida, o que nos proporciona ainda traçar linhas de convergência e divergências entre a condição juvenil na América Latina.

Aldimar Jacinto Duarte

Cláudia Valente Cavalcante

Vinicius Oliveira Seabra Guimarães

(Organizadores)

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