Análises em (dis)curso: perspectivas, leituras, diálogos

eISBN: 978-85-7993-798-9

Autor/Organizadores: Dalexon Sérgio da Silva; Glaucio Ramos Gomes

PREFÁCIO

Queríamos escrever este livro à semelhança de um rio com múltiplos afluentes…

Achille Mbembe, Crítica da razão negra

Saber ler, apropriar-se da escrita, não torna uma pessoa mais inteligente ou mais humana, não lhe concede virtudes ou qualidades, mas lhe dá acesso a uma ferramenta poderosa para construir, negociar e interpretar a vida e o mundo em que você vive.

COSSON, Rildo. Círculos de leitura e letramento literário

Conta-nos o bardo Fêmio de Ítaca que Odisseu, após ter passado vinte longos anos longe de sua terra natal e de sua amada Penélope, dez travando a guerra de Tróia e mais dez, preso aos diversos infortúnios da jornada de retorno, regressa ao lar disfarçado de mendigo. Estratagema para descobrir seus verdadeiros algozes. Ao ver aquele mendigo, sem desconfiar que fosse seu amado, Penélope ordena à governanta, a velha Euricleia, banhar os pés do forasteiro, manifestação de hospitalidade nas histórias antigas. No cumprimento da ordem, a criada reconhece uma cicatriz na perna do hóspede e descobre que o mendigo é na verdade o senhor daquela casa, seu amo tão esperado. A marca era reminiscência de uma das caçadas de Odisseu ao javali no monte Parnaso. Mais que isso, naquele momento, em que o reino de Ítaca estava ameaçado pelos pretendentes de Penélope, aquela cicatriz não era apenas uma marca de identificação de Odisseu, mas indício de esperança.

Nesse contexto, aquela cicatriz era estrutura e acontecimento, “no ponto de encontro de uma atualidade e uma memória” (PÊCHEUX, 1997, p. 17). Essa marca na pele, como uma tatuagem, manifesta-se como efeito de sentido que provém do retorno ao passado e de sua relação com o presente, da história de Odisseu, de sua posição, das relações de poder que subjazem a essa posição. A cicatriz de Odisseu, materialidade simbólica, não significava por ela mesma, em sua estrutura, mas num feixe de relações com outros acontecimentos, ou seja, significava em sua enunciação.

Essa breve alusão à história de Odisseu é convocada para à construção desse prefácio com a pretensão de estabelecer uma analogia entre a cicatriz do herói de Ítaca e o discurso, palavraconceito, presente em cada um dos capítulos dessa obra tecida a muitas mãos. Não obstante suas singularidades teóricometodológicas, as análises aqui em curso evidenciam que o discurso vai além das palavras, das frases, das proposições. Essas análises, (in)dependentes de suas perspectivas, leituras e diálogos teóricos, ratificam que o discurso é cicatriz que só se enuncia relacionada ao universo das formas simbólicas, às suas condições de produção, às situações de interação entre contextos e sujeitos.

Com o mesmo desejo expresso por Achille Mbembe na primeira epígrafe, os organizadores desse livro, Dalexon Sérgio da Silva e Glaucio Ramos Gomes, queriam estruturá-lo à semelhança de um rio com múltiplos afluentes, com múltiplas formas de enxergar o discurso.

Os seus desejos, desde o primeiro projeto, eram organizar uma obra em que dialogassem várias análises de discursos. Um livro que fosse avesso a um monologismo teórico-metodológico, que estampasse várias possibilidades de investigar os discursos em materialidades as mais diversas. Ei-lo aqui. Reafirmando que muitas são as análises de discursos, “Análises em (dis)curso: perspectivas, leituras, diálogos” reúne vinte e um capítulos de pesquisadores e de pesquisadoras inscritos/inscritas nas mais diversas vertentes contemporâneas de estudos do discurso. O primeiro capítulo, Bairro, comunidade, favela: o movimento de denominações sobre um espaço simbólico, das pesquisadoras Diane Mageste dos Santos e Silmara Dela Silva, ambas da UFF, com fundamento na Análise de Discurso francesa, discute o funcionamento das denominações: bairro, comunidade e favela (palavra cheia de silêncio) em relação ao local denominado Caramujo.

Emergências e (des)territorializações em discurso: a Venezuela à flor da pele, segundo capítulo, apresenta a análise de textos veiculados pela Deutsche Welle, em três plataformas midiáticas, Facebook, Twitter e YouTube. A partir do viés discursivo-descontrutivista, seu autor, Lucas Rodrigues Lopes, da UNICAMP, busca compreender “a produção dos sentidos social e culturalmente inscritos na história do presente, no contexto da vida, da vinda e da estadia de venezuelanos em solo brasileiro, emergentes em e de sujeitos históricos, materializados na linguagem”.

No capítulo terceiro, Quando o Estado comete violência de gênero: Análise Crítica do discurso sobre a (não) violência obstétrica, a autora Rebeca Lins Simões de Oliveira, da UFPE, objetiva, através da ACD, examinar o despacho emitido pelo Ministério da Saúde em 03 de maio de 2019, documento este que visa determinar oficialmente a não existência da violência obstétrica no Brasil. De acordo com Oliveira, questões de violência contra o sujeito mulher sempre são invisibilizadas ou mesmo menosprezadas pelo poder patriarcal.

Dalexon Sérgio da Silva, da UNICAP, em O efeito cai-cai do jogador Neymar mobilizado pelas posições do técnico e treinador Tite, investiga como as formações imaginárias do sujeito técnico Tite, em relação ao jogador Neymar, mudam e produzem outros sentidos a partir das posições ocupadas pelo técnico e treinador Tite, ora na posição-sujeito de Técnico do Corinthians, ora na posição-sujeito de Técnico da seleção brasileira.

No capítulo quinto, Discursos e(m) imagens no livro didático de língua portuguesa: história e questões de estudos, Jocenilson Ribeiro, do UNILA, investiga, à luz dos estudos em análise do discurso e na história da semiologia francesa, “como historicamente o papel das materialidades discursivas não verbais foi definido no LD e que concepções de língua e linguagem acompanharam a própria emergência das imagens nesse instrumento didático”.

Em Governamentalidade, cuidado de si e representações sociais de ser professor na formação docente (inicial) em documentos oficiais, sexto capítulo, Marcos de França (URCA) e a Pollyanne Bicalho Ribeiro (UFC), a partir da inquietação sobre a existência ou não de uma ação de governamentalidade na formação docente inicial e continuada por meio da construção de um projeto pedagógico do curso de Letras, analisam a formação docente inicial e continuada no curso de Letras-Português licenciatura a partir da leitura discursiva de textos de alguns Projetos Pedagógicos de Curso de Letras de seis universidades públicas brasileiras, do Nordeste e do Sudeste do Brasil.

Em Da escola ao homeschooling: deslocamentos do/no discurso sobre a educação, Wellton da Silva de Fatima, da UFRRJ, observa e analisa uma disputa nos sentidos para a escola. Disputa esta que situa a escola discursivamente em lugares antagônicos. Segundo o autor, “tal trama discursiva implica os rumos institucionais a serem tomados pelas políticas educacionais nos próximos anos, atualizando a memória sobre o que é escola, para que e a quem ela serve”.

Glaucio Ramos Gomes, da UFPB, no capítulo Análise de Discurso e Ensino de Língua Portuguesa: impressões de uma experiência, à luz da AD francesa, evidencia como o professor pode mediar uma prática discursiva de leitura. Segundo Ramos, “sua pesquisa insere-se no campo da linguística que se preocupa em como levar para sala de aula aquilo que é investigado na língua”.

No nono capítulo, Mídias e análise do discurso: Michel Foucault, possibilidades e limites metodológicos, os autores, Rodolfo Rorato Londero, da UEL-PR e Samilo Takara, da UNIR-RO, discutem as possibilidades e os limites da AD na análise do discurso midiático. Os autores defendem que “compreender as possibilidades de produção de sentidos também é questionar os limites que indicam sentidos e oferecem oportunidades de outras problematizações acerca da prática de análise e discussão sobre a determinação das mídias na vida das interlocuções de sentidos da contemporaneidade”.

A partir de discursos materializados em cartas pessoais publicadas na revista feminina Cláudia, com base na AD francesa, Ceres Carneiro, da UFF, em O jogo imaginário: discursos de esposas e amantes, apresenta uma reflexão teórica sobre as imagens que as mulheres formam de si, das outras e dos homens, a partir de suas posições de esposa ou de amante: de protagonistas da cena do três.

“Essa bichinha precisa morrer”: registros discursivos da transfobia nas mídias digitais, de Hellen Brasileiro, da UERN, e Francisco Vieira da Silva, da UFERSA, traz a análise do discurso transfóbico presentes em postagens e comentários no Facebook, Twitter, YouTube e outras plataformas. A análise desses discursos alicerça-se nos estudos foucaultianos, principalmente em relação às questões de sujeito e poder.

Emanoel Raiff Gomes da Nóbrega Filho, da Universidade Federal da Paraíba, no capítulo intitulado: O dúbio, o duplo e o próprio das travestis: éticas e estéticas antibinárias como exercícios de poder de produção discursiva da abjeção em Muriel Total, de Laerte Coutinho, à luz da AD francesa, investiga a discursivização de técnicas na constituição da feminilidade das travestis. Para tanto, “toma a problemática do corpo, do sexo, do gênero e da sexualidade das travestis através de um recorte temporal das publicações da série de tirinhas Muriel Total53, da cartunista Laerte”.

Questionando os limites da liberdade de expressão num Estado regido por uma Constituição democrática, Thiago Alves França, da Uneb, campus IX, no décimo terceiro capítulo, Discurso de ódio: definições prévias, incompatibilidades e formulação, problematiza as noções da formulação: “discurso de ódio”, em espaços do Facebook.

Essa problematização alicerça-se nas bases da AD pecheuxtiana. Edileide Godoi, da EAD/UFPB, tendo em conta que os sujeitos e a produção da subjetividade são sempre um processo de construção produzidos na exterioridade pelas práticas discursivas, pretende, no capítulo: A tatuagem na (des)ordem do discurso religioso, “discutir como a tatuagem entra na (des)ordem do discurso religioso e discursiviza modos de objetivação/subjetivação para os sujeitos”. Sua pesquisa insere-se no campo da AD francesa, especificamente, numa perspectiva foucaultiana de sujeito e produção de subjetividades.

Em Menino veste azul e menina veste rosa: uma análise do discurso da ministra pastora em um Estado laico, Arthur de Araújo Filgueiras e Nadia Pereira Gonçalves de Azevedo, ambos da UNICAP, objetivam analisar o efeito metafórico do discurso da pastora evangélica Damares Alves, quando esta limita as cores a serem usadas por meninos e meninas. A partir dessa análise, os autores discutem sobre o modelo binário, presente em nossa formação social, que usa cores para classificar as pessoas.

Jefferson Campos, da UNIFAMMA, a fim de explicar como o político se materializa no artístico como prática discursiva situada na contemporaneidade, apresenta-nos o capítulo Um tour pelos efeitos da virtualização (dos espaços) da arte: os casos do museu Casa de Portinari e portal Projeto Portinari. Esse capítulo é produto de suas pesquisas desenvolvidas no campo teórico e aplicado dos estudos discursivos foucaultianos.

Anísio Batista Pereira e Antoniel Guimarães Tavares Silva, ambos da UFU, em: O sujeito nas tramas do discurso: a representação do caipira na telenovela Êta mundo bom!, de Walcyr Carrasco, apresentam uma leitura discursiva dessa telenovela, exibida pela rede Globo em 2016.

Sua análise, fundamentada na AD francesa, sobretudo nos estudos foucaultianos sobre sujeito, poder e saber, objetiva elucidar a constituição do sujeito caipira, principalmente, a partir da leitura da personagem Candinho, protagonista da narrativa.

No capítulo: Ana Cristina Cesar: corpo(s) de enunciação no itinerário de Foucault, André Luís de Araújo, da Universidade Católica de Pernambuco, analisa a voz que se enuncia na poética de Ana Cristina César e que apresenta os modos de subjetivação da poeta ao escrever.

No itinerário de Michel Foucault e de outros filósofos franceses contemporâneos, apreende-se uma assinatura de peso na cultura brasileira e uma presença linguístico-iterária forte, que possibilita conhecer, ainda, uma época da história do país, a poesia marginal e seus desdobramentos.

Os autores Jarbas Vargas Nascimento e Marcel Fernandes Gugoni, da PUC- SP, no capítulo Estratégias discursivas de manipulação da verdade em fake News políticas na mídia, têm como objetivo principal examinar as estratégias discursivas de manipulação da verdade e os efeitos de sentido construídos no funcionamento de fake news. No centro dessa reflexão, cujo aporte teórico-metodológico é a AD francesa, a partir dos estudos de Maingueneau, os autores fazem “ponderações sobre a mentira, a verdade, a ética e as consequências advindas da quebra de legitimidade discursiva nos limites da política brasileira”.

Em: Discurso e argumentação na publicidade verde, Felipe Casado de Lucena, do IFPE, ao investigar o discurso da publicidade verde, embasado primordialmente nos estudos de Norman Fairclough e de Patrick Charaudeau, constata “que essas empresas estão investindo no discurso de sustentabilidade em suas fanpages como meio de alcançar seu público utilizando uma linguagem típica de posts cotidianos de Facebook, mas sem perder os procedimentos argumentativos do discurso publicitário”.

Por fim, encerrando a obra, mas não as discussões, pois essas reverberam a cada nova leitura, temos a contribuição de Karla Rossana Rodrigues de Souza, do Programa de Mestrado Profissional da UFPE, com o capítulo: A polissemia e a ideologia no texto publicitário que apresenta, a partir de uma perspectiva discursiva, uma proposta pedagógica de abordagem do jogo polissêmico na linguagem publicitária, na sala de aula em turmas do nono ano do Ensino Fundamental. Segundo a autora, essa proposta orienta os estudantes a compreenderem, através da análise de variados mecanismos linguísticos e discursivos, os discursos publicitários e jornalísticos como uma construção coletiva, histórico e socialmente situada. Finalizando esse prefácio, gostaríamos de voltar ao início, a sua segunda epígrafe e retomar as palavras de Rildo Cosson. Como diz esse autor, ler e escrever nos “dá acesso a uma ferramenta poderosa para construir, negociar e interpretar a vida e o mundo”. Cada capítulo que aqui se inscreve é cicatriz denunciadora do poder dessa ferramenta.

Cada capítulo denuncia a leitura que seus autores e suas autoras fazem das mais diferentes materialidades discursivas. Ocupando-se dos espaços urbanos ou dos espaços virtuais, olhando para a pele, para o corpo ou para a razão, considerando a educação ou a mídia, as autoras e autores das análises aqui em curso pretendem “compreender como a enunciação conecta textos a contextos” Análises em (dis)curso: perspectivas, leituras, diálogos é um convite a uma escuta/leitura alteritária em que não se pretende simplesmente que o leitor concorde ou discorde com as ideias aqui semeadas, mas que se coloque no movimento de “escuta” e de reflexão, compreendendo que ler é uma atividade política, histórica e social, e como tal exige que se saiba “desconstruir leituras anteriores para que novas e inovadoras surjam no horizonte, reconstruir desafios sob o signo da dúvida e da incerteza, sobretudo, superar-se como leitor e autor sempre”.2 À vista disso, boa leitura a todas, a todos e às pessoas que não se encaixam nos limites da flexão proposta pela estrutura da língua portuguesa.

Maria Angélica de Oliveira – PPGL/UFCG

Campina Grande, final de primavera de 2019.

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