Metodologias alternativas no ensino de Letras e Humanidades

ISBN: 978-85-8263-457-8 (Broch.)

Autor/Organizadores: Leonardo Bis dos Santos; Letícia Queiroz de Carvalho

Prefácio

“Estamos num momento de perigo que é também um momento de transição. O futuro perdeu a sua capacidade de redenção e de fulguração e o passado ainda não a adquiriu.”

A gramática do tempo

Boaventura de Sousa Santos

É Boaventura de Sousa Santos quem afirma que a ideia de tempo e temporalidade ligados ao colapso da teoria da história constituído pelo paradigma dominante da ciência moderna nos dificulta pensar em possíveis transformações sociais. A sensação de vitória histórica da classe dominante promove a repetição do presente como espólio do vencedor. Os derrotados, por sua vez, trabalhadores e povos do hemisfério sul, parecem não se interessar pelo futuro como progresso, posto ter sido a promessa de futuro o que fundou sua derrota. Essa incapacitação do futuro, por sua vez, não permite que se reaprenda a reinventar e a capacitar o passado, ações necessárias para que se deem a transformação social e a emancipação social.

A ciência, como saber dominante, termina por desperdiçar experiências e saberes sociais, na medida em que oculta ou desacredita alternativas viáveis por meio da subalternização de saberes que não o hegemônico, impedindo uma compreensão mais ampla do mundo. O poder social por ela legitimado e respaldado vincula-se, por sua vez, a concepções de tempo e temporalidade que de um lado reduzem o presente para que nele não se façam presentes possíveis alternativas que promovam mudanças efetivas e de outro lado expandem o futuro para que a renovada promessa de um mundo melhor protele possíveis resoluções.

Em outras palavras, o saber hegemônico atesta sua indolência tanto por reivindicar o estatuto de saber totalitário e único, contraindo o presente para que nele se façam ausentes outros saberes, alternativas e experiências que não o saber dominante, como por não empenhar-se num pensamento de futuro que não seja essa consolidada visão linear, automática e infinita de mera repetição do presente. Impede, desse modo, que o presente se expanda e que nele se possa vislumbrar a emergência de alternativas de transformação.

Faz-se necessário contrair o futuro e expandir o presente para que nesse último caiba a inesgotável experiência social da atualidade, evitando-se o seu desperdício.

Para se dilatar do presente, faz-se necessária a reinvenção da variedade de experiências tornadas ausentes pela razão total e única do discurso hegemônico do saber dominante.

Para que se contraia o futuro é preciso romper a repetição automatizada e linear do presente por meio da emergência de experiências e saberes não hegemônicos, pois é no presente, e não no futuro, que se faz possível viver em um mundo melhor.

Um futuro melhor possível não está, pois, em um momento distante e prometido, mas na ampliação e na reinvenção do presente, para que alternativas possíveis efetivem um mundo melhor hoje em ações que promovam a emancipação social.

Sobretudo no âmbito do ensino faz-se urgente a emergência de metodologias alternativas. E esse é justamente um dos méritos deste livro, escrito a partir de pesquisas na área de ensino de letras e de humanidades: apresentar reflexões feitas a partir da escola, na escola e com a escola, acerca das práticas educacionais, da formação docente, da aplicação metodológica e da presentificação das alternativas.

Em seu primeiro capítulo, intitulado Narrativa e polifonia na escola: contribuições de Walter Benjamin e Mikhail Bakhtin nos processos de formação docente, Antônio Carlos Gomes e Letícia Queiroz de Carvalho, à luz de Benjamin e Bakhtin, tratam da formação docente em Literatura e Linguagem, em específico da relevância da produção de narrativas orais e escritas de professores, no âmbito da formação docente, que favoreçam a socialização polifônica de experiências e saberes dos profissionais que vivenciam o fazer educacional.

Lucas Passos assina o capítulo subsequente, Notas de humor e oralidade no ensino da poesia marginal. Com vista a promover reflexões acerca do trabalho com a linguagem nas aulas de Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica a partir da leitura de poesia marginal, o autor dialoga com abordagens sobre ensino de literatura, poesia marginal, aspectos linguísticos do humor e características da fala na escrita, analisando a presença de traços de oralidade na constituição do humor na poesia marginal.

Em Diálogos entre música popular brasileira e literaturas: vozes da vida, Tatiana Aparecida Moreira parte do projeto homônimo realizado nas aulas de Língua Portuguesa de uma escola púbica estadual de Ensino Médio da periferia da Grande Vitória. Tomando a linguagem como lugar de interação, os diálogos entre música popular de variados estilos e literaturas de diversas escolas literárias foram desenvolvidos de modo interdisciplinar e possibilitaram ao estudante assumir a palavra e atuar como protagonista de múltiplos saberes e fazeres.

O penúltimo capítulo, escrito por Dilza Côco, Priscila de Souza Chisté Leite e Sandra Soares Della Fonte, Educação na cidade e humanidades: abordagens metodológicas utilizadas pelo GEPECH, apresenta o conjunto de estratégias metodológicas, pautadas em relações teórico-práticas contra-hegemônicas, desenvolvidas pelo Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Educação na Cidade e Humanidades (GEPECH), tendo em vista fundamentar, visibilizar e percrustar os aspectos complexos, múltiplos e contraditórios da Educação na Cidade.

Por fim, no capítulo Pesquisa intervenção como metodologia alternativa de formação de pesquisadores sociais, Leonardo Bis dos Santos e Antonio Donizetti Sgarbi, ao se proporem a fazer pesquisa com as pessoas e não para as pessoas reconhecendo o protagonismo dos sujeitos, questionam a tradicional concepção que dispõe pesquisado e pesquisador em lados opostos. Para tanto, objetivando formar pesquisadores sociais, lançam mão da metodologia do tipo intervenção social a partir de escolas de duas comunidades periféricas da Grande Vitória.

O livro em sua proposta contra-hegemônica, como a escovar a escola a contrapelo, ajuda-nos a abrir necessária e urgente clareira nesse presente linear e automatizado tão fechado, ao apresentar-nos metodologias alternativas que nos possibilitem, não amanhã, mas no amplo dia que deve ser hoje e no dilatado momento que deve ser agora, a emergência de ações de transformação e de emancipação social.

Fabiano de Oliveira Moraes[1]

  1. Doutor em Educação. Licenciado em Letras-Português e Pedagogia. Professor Adjunto da UFES.

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