Devorando vozes: sobre literatura, identidade e memória

Devorando vozes: sobre literatura, identidade e memória

ISBN: 978-85-7993-809-2

Autor/Organizadores: Juliana Patrizia Saldanha de Sousa; Aline Costa da Silva; Francisco Pereira de Oliveira

APRESENTAÇÃO

COMO DEVORAR VOZES

Em 1985, Manuela Carneiro da Cunha e Eduardo Viveiros de Castro escrevem o ensaio “Vingança e Temporalidade”. Nele observamos que a sociedade Tupinambá era movimentada pela vingança. Explico.

Tendo em mãos um de seus cativos de batalha, o estopim de guerras futuras estava na possibilidade do grupo adversário vingar-se, a vingança tinha seu ponto mais alto na devoração do Outro. Para tanto, a máquina ritual deveria ser acionada, o cativo era mantido preso e recebia uma esposa com quem conviveria até o fatídico dia de sua morte, momento em que ele seria abatido e devorado. Duas ações com sujeitos distintos.

Quem abate não come, fica recluso. Quem devora partilha algo que torna todos iguais, o repasto canibal. Todos compartilham o mesmo alimento, comendo como e com todos ali presentes (FAUSTO, 2002), dizendo com isso que todos se parecem, sendo, portanto, parentes. E o abatedor? O que lhe resta fazer após desferir um único golpe com sua ibirapema que esfacelava o crânio e jogava o inimigo morto com a face na terra? Ele entrava em reclusão e ganhava nomes novos. Ele ficava de resguardo porque era perigoso por possuir o Outro dentro de si, tanto é que ele possuía algo do outro que fecundava sua esposa, gerando um filho do “inimigo”.

No entanto, não era uma essência que o guerreiro matador devorava, e sim a perspectiva do inimigo, o ponto de vista do Outro, como diria mais tarde Viveiros de Castro (1996), o ponto de vista é de quem pode dizer eu. Quem é sujeito da oração em um contexto relacional de predador-presa? É aquele que devora. Por isso, diante dessa coletânea de artigos, diria que “devorar vozes” é um exercício de se situar no lugar do outro, um gesto violento, é bem verdade, mas que é posto em benefício dos Estudos Literários.

Devorando vozes, organizado por Juliana Patrizia Saldanha de Sousa, Aline Costa da Silva e Francisco Pereira de Oliveira traz em sua concepção esse exercício violento de outrar-se. Não de se colocar simplesmente no lugar do outro, a proposta não é essa, outrar-se está no sentido de vestir-se de outro, de saber que a troca de posições é possível e, por vezes, desejável. Quando o matador Tupinambá está com a ibirapema, antes de golpear sua presa, eles trocam ofensas sobre as devorações passadas de ambos os lados, nesse sentido, André Thevet (1944 [1558], p. 240) anota o canto de um prisioneiro que será abatido, a citação diz o seguinte: “Meus amigos, os margajás (diz), são honrados, fortes e possantes guerreiros. Aprisionaram e devoraram numerosos dos seus amigos. Quanto a mim, matei e devorei parentes e amigos dos que me conservam prisioneiro, e, por isso, é justo que me devorem também, no dia que melhor lhes agradar”. Como asseguram Carneiro da Cunha e Viveiros de Castro (1985, p. 65), a vingança é interminável. Ou seja, a posição do matador já foi o lugar da vítima e, futuramente, quem agora segura a ibirapema estará de joelhos esperando o golpe, há claramente uma alternância de posições. A minha própria voz já foi de outro, a voz que agora é do outro poderá ser a minha. Por isso, em última análise, esta coletânea convida o leitor a refletir sobre alteridade, pois, ao devorar assumo uma posição de sujeito, lei do antropófago, para lembrar Oswald de Andrade (1928). Mas também para dizer que dois capítulos se preocupam diretamente com esse tema, são eles, “A devoração do outro: ecos na escrita do próprio” e “Quem fala quando o outro é um hostis?”.

De todo modo, a relação com a alteridade também é construída a partir do estranhamento, da memória e da identidade. Memória aqui que se institui no tensionamento com o que lhe é estranho, como exemplo, o gatilheiro Quintino Lira opondo-se ao Estado e consolidando-se como mito. O Estado, nesse e em outros casos, é o símbolo da alteridade radical do sujeito, como muito bem pode ser constatado em “A literatura e a memória na construção do mito Quintino Lira”. Ou ainda como José Veríssimo esboça um projeto de identidade brasileira no século XVIII tendo o indígena como elemento central da discussão em “Entre o vivido e o devaneio: José Veríssimo e a construção da identidade brasileira”. Outrossim, a memória também é edificada no conflito entre os europeus e as populações autóctones do nosso continente, como podemos observar em “Memória e ancestralidade em O Karaíba de Daniel Munduruku”, ou com o lirismo enovelando-se na memória nos poemas da santomense Conceição Lima no capítulo “Outras África’s: estranhamento e memória em O Útero da Casa, de Conceição Lima”, novamente o europeu como elemento devastador em sua relação colonialista em São Tomé e Príncipe.

As cenas soterradas na memória quando esta se relaciona com o trauma e o testemunho é o tema central dos capítulos “Memórias quase póstumas de um ex-torturador” e “A fundação Shoah como promotora da memória”. A memória, nesse caso, está a serviço da atualização dos fatos passados, algo que foi impresso naquele sujeito e, por isso, deixou marcas que retornam pelo testemunho, mas maculadas pelo trauma. Nesse contexto de ditadura militar e Auschwitz, é escusado dizer que a relação com o diferente é tão violenta e devastadora que a memória opera por meio de um jogo que envolve o lembrar e o esquecer.

As vozes “não oficiais” são, portanto, postas em discussão para novas versões dos fatos. Seja na ficção, tendo por base a escrita diária, como se constata no capítulo “Haroldo Maranhão e o exercício diário da escrita”, seja quando a homoafetividade entra no jogo ficcional que confunde a perspectiva do autor com a do narrador, como é o caso do texto “Homoafetividades na perspectiva da escrita de si”. Nesses dois casos, temos a escrita marcada como representação de si e a memória operando a reconstrução do eu. Nesse entrelaçamento de vozes, podemos ainda dizer que esses capítulos evidenciam três figuras que se confundem, quais sejam, o autor, o narrador e o protagonista. Com isso, a escrita de si dá certa confiança ao aspecto factual da narrativa, ao mesmo tempo em que lança em debate o caráter instável da realidade, pois a própria narrativa expõe o real como uma construção.

Observamos também que o romance pode ser construído pelas memórias de vários personagens que são filtradas pela voz de uma narradora, como é o caso do capítulo “O romance e o mundo da vida: uma leitura de Relato de um certo Oriente de Milton Hatoum” em que há a ênfase em um conjunto de vozes que constituem o romance, visto que cada capítulo é uma espécie de fragmento de memória posta em ficção pela narradora que recolhe sobre si essas vozes dispersas. Aqui o título desta apresentação ganha teor de pergunta: “Como se devora vozes? ”, a qual pode ser respondida com um fragmento da narradora do romance de Milton Hatoum, no que eu diria ser um exemplo da violência em devorar o Outro, pois as vozes dos outros personagens tornam-se a própria voz da narradora. A citação faço ressoar aqui: “Restava então recorrer à minha própria voz, que planaria como um pássaro gigantesco e frágil sobre as outras vozes” (HATOUM, 2008, p. 148). Voo mais alto, ave de rapina, grande predadora que se dispõe a devorar o outro.

Fernando Alves da Silva Júnior

Doutorando em Estudos Literários (PPGL/UFPA). Correio eletrônico: macuninfeta@gmail.com

Referências

ANDRADE, Oswald de. Manifesto Antropófago. Revista de Antropofagia, São Paulo, ano I, n. 1, p. 3; 7, 1928.

CARNEIRO DA CUNHA, Manuela; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Vingança e temporalidade: os Tupinamba. Journal de la société dês américanistes, n. 71, p. 191-208, 1985.

FAUSTO, Carlos. Banquete de gente: comensalidade e canibalismo na Amazônia. Mana, v. 8, n. 2, p. 7-44, 2002.

HATOUM, Milton. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

THEVET, André. Singularidades da França Antártica. São Paulo: Brasiliana, 1944 [1558].

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo ameríndio. Mana, v. 2, n. 2, p. 115-144, 1996.

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