Oralidade e (multi)letramentos no ensino de línguas

eISBN: 978-85-7993-799-6

Autor/Organizadores: Elaine Cristina Forte-Ferreira; Vicente de Lima-Neto

APRESENTAÇÃO

A obra que estão por ler é uma coletânea de artigos que são frutos das pesquisas realizadas pelos grupos GLINET e ORALE, ambos vinculados à Universidade Federal Rural do Semi-Árido, no âmbito da graduação e da pós-graduação (Programa de Pós-Graduação em Ensino – POSENSINO), e por convidados de outras instituições, todos compactuando das mesmas preocupações que nós: o ensino de línguas nos mais diferentes níveis de aprendizagem. Uma de nossas perguntas, ao organizar o livro, foi: que lugar ocupamos nas pesquisas da área de Ensino hoje?

Os treze artigos que compõem a obra foram pensados para mostrar que há caminhos possíveis para diminuir o abismo que há entre o que se produz na academia e as salas de aula de línguas, seja no ensino básico ou profissional, seja no ensino superior. A nossa atuação foi organizar um compêndio que permitisse unir pesquisas que tratem tanto da modalidade oral quanto escrita das línguas, modalidades essas atravessadas por tecnologias digitais, pelo menos nos últimos vinte anos. Logo, há um foco também na relação linguagem e tecnologia, relação essa que, muitas vezes, corre alhures da sala de aula.

Os três primeiros artigos estão no âmbito dos estudos da Oralidade: em “O espaço da Oralidade na escola: uma análise da Base Nacional Comum Curricular”, os autores se debruçam em discutir as habilidades voltadas para o ensino da oralidade na BNCC. O segundo artigo, intitulado “O gênero seminário em cursos de graduação: metodologias de ensino e critérios de avaliação”, parte da pergunta: o que devemos avaliar, no gênero seminário? Logo, ele busca responder a essa pergunta, elencando os critérios avaliativos possíveis do gênero. Em “Letramento acadêmico e o gênero comunicação oral: uma análise das práticas discursivas no contexto da universidade”, as autoras se debruçam em compreender quais são as práticas da oralidade desenvolvidas por alunos da universidade, quando apresentam comunicações orais, e que letramentos acadêmicos são desenvolvidos a partir dessas práticas.

Um segundo movimento do livro volta-se para a relação linguagem e tecnologia, sobretudo com o que acontece em sites de redes sociais. “Na perspectiva do letramento crítico: uma análise dos discursos que emanam das postagens realizadas no Facebook” traz um assunto caro à baila: a criticidade de nossos alunos e o que consomem na internet. Logo, investiga-se aqui que discursos se constroem em textos postados no Facebook sobre a posse de armas no Brasil. A preocupação se revela latente, uma vez que esses discursos acabam voltando para as salas de aula do país. Na esteira da discussão em meio tecnológico, o artigo “Reflexos e impactos das transformações sociais e tecnológicas nos denominados novos letramentos”, de cunho mais teórico, trata das preocupações sobre os novos letramentos demandados para o uso consciente de mídias digitais, e seu impacto deve voltar-se para as salas de aula que se dedicam ao ensino de língua.

O sétimo artigo, intitulado “A rede social Twitter como recurso didático para o ensino de língua portuguesa”, busca responder à questão: como pesquisadores têm se utilizado do Twitter para ensinar língua portuguesa? Os autores desenvolvem um estado do conhecimento sobre o tema, mostrando que essa famosa rede social tem diferentes facetas, inclusive a de ambiente virtual de aprendizagem. Essa mesma ideia é trazida no artigo “Multiletramentos e ensino de língua portuguesa para surdos como L2: o whatsapp na aprendizagem”, mas agora voltando a atenção para um público historicamente marginalizado, os surdos, e um aplicativo que, a priori, não foi pensado para atividades pedagógicas, o whatsapp. Já em “Clarice Lispector ou Shakespeare? A falsa autoria em tempos de redes sociais”, as autoras trazem à discussão uma importante problematização: como reconhecer que determinado conteúdo pertence a determinado autor? A discussão aponta para os cuidados que devem haver ao curtir e compartilhar uma postagem que pode ser inclusive uma fake news, sob o risco de ser perpetuada na rede.

Uma nova seção do livro é aberta com o texto intitulado “Facebook e aprendizagem de línguas: entre a aprendizagem da Libras e o discurso inclusivo para jovens do EM”, já que se trata de uma pesquisa voltada para o Ensino Médio (EM). Os autores buscam, aqui, entender como alunos do EM podem aprender Libras por meio do contato que eles têm com gêneros variados numa comunidade voltada para a cultura surda no Facebook. O artigo seguinte, intitulado “Projeto TV Radiotec: práticas de letramento e redes sociais”, volta-se para um relato de experiência de um projeto cujo foco são práticas de letramento de alunos do Ensino Médio, implantado num colégio técnico que é vinculado a uma Universidade Federal. Fechamos essa seção do livro com o artigo “A pesquisa para o desenvolvimento do ensino de línguas na Educação Profissional”, em que temos um trabalho que se debruça sobre a realidade da educação profissional e propõe um metodologia de ensino de línguas para esse público.

A última parte do livro tem um cunho mais conceitual com dois artigos: “Desenvolvimento linguístico em idade escolar: princípios de pesquisa”, que focaliza os aspectos teóricos e metodológicos que sustentam a compreensão do domínio de investigação do desenvolvimento linguístico de alunos em idade escolar, e fechamos o ciclo deste livro com um olhar dos professores de língua portuguesa: em “Escrita como lugar da escuta do outro: o trabalho com o texto em sala de aula de língua portuguesa”, o autor relata a experiência que teve analisando diários de bordo de doze professores de língua materna que relatavam sobre o trabalho com o texto escrito em suas aulas.

O livro, portanto, se justifica por trazer para os holofotes questões que são, há décadas, tratadas na academia, mas nem sempre discutidas nas salas de aula de línguas pelo país afora.

Nossa tentativa é a de apresentar possíveis caminhos teóricometodológicos para o trabalho com questões muito caras à academia e, sem dúvida, ainda mais caras para a escola pública brasileira. Por fim, agradecemos a todos os autores, que contribuíram com esta empreitada acadêmica, e à Universidade Federal Rural do Semi-Árido, por financiar a concretização deste projeto.

Os organizadores.

Janeiro de 2020.

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