As interfaces da educação: diálogos e desafios

ISBN 978-65-86101-13-3
eISBN 978-65-86101-14-0

Autor/Organizadores: Nayara Alves de Sousa; Jenerton Arlan Schütz

Prefácio

Sabemos que a construção da cultura supõe que os criadores (científicos, artísticos, filosóficos) comunicam entre pares (correspondências, via internet, revistas, jornais, artigos, eventos) e comunicam à humanidade, ao público em geral, a verdade é que, sem essa comunicação entre as gerações que a escola e a universidade proporcionam, o elo da criação cultural não se manteria.

Só essa comunicação entre gerações pode fazer participar cada criança ao mundo e no mundo que os humanos construíram, modificaram e aperfeiçoaram. A escola e a universidade são, justamente, invenções recentes e que se configuraram como capazes de transmitir às novas gerações o patrimônio cultural (científico, filosófico, artístico) adquirido pelas gerações anteriores.

Só pelo ensino, isto é, pela comunicação assimétrica (desigual) de um saber entre sujeitos diferentemente situados face a esse saber (professor e aluno) é que esse patrimônio pode continuar a ser salvo e prolongado, conservado e renovado.

Sem a escola e a universidade, a ciência seria impossível! O humano é o único animal que ensina e aprende, só por isso que pode produzir cultura (ciência, arte, filosofia), por isso, o humano é uma espécie aprendente, isto é, capaz de aprender com o Outro.

Se os humanos fossem imortais, poderia haver a construção de uma cultura sem que a escola e a universidade tivessem sido necessárias. Haveria uma circulação horizontal dos saberes adquiridos livremente pelos sujeitos na eternidade das suas vidas, entre pares, na amizade das suas relações comunicativas. Então, os homens poderiam instituir tradições e mesmo constituir uma cultura sem terem tido necessidade de escolas e universidades. Os deuses não vão à escola e nem à universidade! Não apenas por já saberem de tudo e tudo, mas também porque, ainda que não soubessem, teriam à sua disposição todo o tempo para aprender.

Mas os humanos não são imortais e a fragilidade da vida humana veio impor a exigência da escola, da universidade, a urgência do ensino e da educação. Para vencer a linearidade irreversível do tempo, os homens tiveram que criar novos mecanismos de transmissão dos saberes das gerações anteriores às gerações futuras, relações de ensino marcadas por uma diferente e desigual relação ao saber dos sujeitos comprometidos nessa relação.

Sem eles, seríamos como as abelhas, eternamente repetindo os mesmos gestos e palavras. Desde a Academia de Platão, a escola e a universidade são essas instituições, esses lugares de transmissão do legado cultural entre gerações pela qual o humano pode conquistar a eternidade, não individual, mas da cultura, do legado humano.

Escola e Universidade inscrevem, no caminhar sempre para diante da condição humana, o retorno, o regresso ao legado cultural do passado e, assim, dão continuidade ao elo da criação.

Todo aquele que entra e sai da escola e da universidade se constitui em um sucessor, alguém que herda do passado, alguém que sucede a, que vai atrás, à raiz, ao início, à fonte, e que, por isso, somente por isso, está em condições de continuar, de construir um futuro.

Este é, portanto, o propósito deste livro. Boa leitura!

Jenerton Arlan Schütz
Verão de 2020.

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