Bárbaras cenas: ecos do holocausto brasileiro após a reforma psiquiátrica nos discursos sobre A cidade dos loucos e das rosas

eISBN 978-65-990019-1-8

Autor/Organizadores: Valéria Bergamini

PREFÁCIO

A ideia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma sintoma de demência…
Machado de Assis

Na Itaguaí de Simão Bacamarte, a proposta da construção de uma casa, destinada a abrigar os loucos da cidade e da região, foi recebida com burburinho. No conto machadiano, alguns loucos passavam os dias confinados em suas próprias casas, enquanto outros caminhavam livremente pelas ruas, até que a proposta feita ao poder público pelo médico Simão Bacamarte viria a alterar tal cenário: a construção de um asilo, destinado a abrigar os supostos doentes mentais, possibilitaria a cura de suas enfermidades e contribuiria para o avanço científico. Construída aquela que viria a ser chamada Casa Verde, logo ela estaria lotada… e os cofres do médico, cheios de dinheiro.

A história da loucura, no Brasil e no mundo, não percorre caminhos muito distantes daquele narrado por Machado de Assis, na fictícia Itaguaí. Historicamente, constituem-se sentidos para a loucura e constroem-se lugares de tratamento/exclusão para os loucos. E havendo lugar para abrigar essas pessoas, e dinheiro para mantê-las apartadas, surpreende o número de loucos que aparecem…

Longe de se constituir como um fato em si, a loucura é construída discursivamente em conjunturas sócio-históricas específicas, como se pode inferir por esse exemplo literário aqui mobilizado e, também, por uma vasta literatura acerca da loucura e de sua história, que tem como grande referência o trabalho de Michel Foucault, História da loucura. É nessa perspectiva, com foco no discurso sobre a loucura e o sujeito dito louco, que se inscreve essa bela e densa pesquisa desenvolvida por Valéria Bergamini.

Na condição de orientadora, tive o prazer de acompanhar o desenvolvimento dessa pesquisa desde os seus primeiros passos: do desejo que move a pesquisadora que nasceu e reside em uma cidade dita “dos loucos”; de sua descoberta de uma perspectiva teóricometodológica que se volta ao estudo do discurso, questionando os efeitos de evidência, de naturalização dos sentidos; do seu encontro com o discurso sobre a loucura e a Reforma Psiquiátrica, que se materializa em dizeres na imprensa local. Em quatro anos de trabalho árduo, a pesquisa de Valéria foi ganhando forma e dando a ver o funcionamento de discursos sobre a loucura no município mineiro de Barbacena, nomeado a cidade dos loucos e das rosas. Em quatro anos, Valéria foi se tornando uma pesquisadora.

Em sua tese, que agora dá forma a este livro, a autora empreende um percurso teórico pela análise de discurso que se desenvolve na França, na década de 1960, em torno dos trabalhos de Michel Pêcheux, e que segue seu curso no Brasil, constituindo-se como uma disciplina de entremeio, que se ocupa dos processos de produção dos sentidos.

Ao voltar-se às condições de produção do discurso sobre a loucura, percorre os sentidos que instituem a loucura como enfermidade em nossa conjuntura sócio-histórica e discorre acerca das peculiaridades da criação dos hospícios no Brasil, de um modo geral, e do Hospital Colônia de Barbacena, em particular. Ao mesmo tempo em que mobiliza referências bibliográficas numerosas e sólidas, a pesquisadora também vai a campo em busca da situação dos hospitais psiquiátricos e das casas de saúde que hoje seguem em funcionamento, em Barbacena.

Para o desenvolvimento das análises, com sensibilidade, a autora percorre os arquivos do jornal Correio da Serra, periódico com circulação no município mineiro, recortando os dizeres sobre a loucura, o sujeito dito louco, os hospitais existentes na cidade, a Reforma Psiquiátrica e as ações implementadas por decorrência desse processo, tais como o Museu e o Festiva da Loucura; em meio a tantos dizeres, já-ditos e não-ditos sobre a loucura e o louco, marcam-se também sentidos sobre o espaço urbano, sobre a cidade – dos loucos e das rosas –, sobre a política e o(s) político(s) que deixam rastro no modo como (não) se diz na imprensa.

O trabalho de Valéria vem somar-se, assim, a tantas outras pesquisas em análise de discurso desenvolvidas no Brasil, desde a década de 1980, que mostram a não-transparência da linguagem, a divisão dos sentidos, o funcionamento da ideologia no discurso, o modo como a língua se inscreve na história para significar.

Além da contribuição teórico-analítica que representa para o campo dos estudos da linguagem e do discurso, a pesquisa desenvolvida pela autora possui inegável relevância social.

Desenvolvida no âmbito de um programa de Doutorado Interinstitucional (DINTER), implementado com apoio da CAPES, com o objetivo de contribuir para o aprimoramento da formação como docentes e pesquisadores de servidores vinculados ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sudeste de Minas Gerais (IF SUDESTE MG), a pesquisa em tela de fato permite o enlace dos estudos da linguagem a questões importantes para o município de Barbacena e sua população, ao voltar-se a discursos que constituem a própria cidade e os sujeitos que a habitam.

Na Itaguaí de Simão Bacamarte, diante da proliferação de internações, ouve-se a indagação: “— Nada tenho que ver com a ciência; mas, se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?”. Ao tratar da posição de trabalho evocada pela análise de discurso, Pêcheux ([1983], 2008, p. 57) nos adverte acerca da necessidade de se questionar as evidências das “interpretações sem margens”, e do “intérprete [que] se coloca como um ponto absoluto, sem outro nem real”. Questionar sentidos estabilizados, conforme o autor, é “uma questão de ética e política: uma questão de responsabilidade” (idem, ibidem); responsabilidade essa assumida por Valéria Bergamini, em seu percurso como pesquisadora, como analista de discurso.

Silmara Dela Silva
Professora Associada do Instituto de Letras da UFF
Janeiro de 2020

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