Diagnósticos do presente: pensar a atualidade com Michel Foucault

ISBN: 978-85-7993-809-2
eISBN: 978-85-7993-810-8

Autor/Organizadores: Douglas de Oliveira Domingos; Francisco Vieira da Silva; Luciana Fernandes Nery

APRESENTAÇÃO

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes, a vida presente.
(Carlos Drummond de Andrade)

O presente livro reúne uma miríade de olhares que perscrutam a análise de diversos fenômenos e práticas do momento presente sob o olhar investigativo de Michel Foucault. Ao se autoproclamar como um diagnosticador do presente, o pensador francês, faz-nos pensar, por um lado, que seu trabalho arquegenalógico buscou, ao articular os saberes e poderes, responder às demandas e às problematizações do momento presente e, por outro lado, permite-nos examinar temas, objetos e abordagens que não foram alcançadas pelo raio analítico do pensador francês, especialmente a partir do advento das tecnologias digitais.

Fazendo jus ao empreendimento teórico foucaultiano, esta coletânea abarca onze capítulos que (re)discutem variados discursos e práticas entrevistas a partir de diversificados dispositivos, como a mídia, a justiça e a escola. Além disso, algumas discussões em torno da história oportunizam-se observar a não evidência do presente e enxergá-lo como devir.

Dessa maneira, introduzindo o livro, o capítulo de Douglas de Oliveira Domingos analisa as relações de saber, poder e resistência que se entremeiam à história de Katiele Fischer e de sua família, cuja caçula, Anny, tem um problema genético raro que a levava a sofrer dezenas de crises convulsivas e necessita tratar-se por meio uma substância extraída da maconha a qual era proibida no país, até a autorização judicional que concedeu o direito de importar tal medicação. O autor encerra o texto indagado sobre outros casos de sujeitos que tiveram familiares vítimas de problemas de saúde cujo tratamento dependia do uso medicinal da maconha e, ao contrário da família Fischer, não tiveram a visibilidade midiática e o amparo institucional derivado da midiatização do fato.

Posteriormente, Dayane Oliveira e Regina Baracuhy refletem acerca do estatuto do sujeito criminoso, por meio do exame dos modos de subjetivação desse sujeito hoje, na era digital, mais especificamente no espaço heterotópico da web. As autoras frisam que esses sujeitos têm suas entrevistas compartilhadas em canais do YouTube, que recebem milhões de visualizações, tornando-os verdadeiros “fenômenos da internet”, não pela gravidade dos crimes cometidos, mas por provocarem a admiração e o riso dos internautas. Já no capítulo de Izaías Serafim de Lima Neto e Francisco Vieira da Silva, o foco centra-se em averiguar os modos de subjetivação e as estratégias de resistência responsáveis por produzir o sujeito mulher trans em vídeos do YouTube. O estudo aponta que esse sujeito empreende procedimentos de governo que incidem sobre si e sobre os demais sujeitos que assistem aos vídeos. Esse governo intenta moldar modos de ser que permitem cuidar de si ao passo que produz experiências de resistência à normatividade.

O texto escrito por Thâmara Soares de Moura e Luciana Fernandes Nery toma como objeto de análise postagens do Instagram e intenta compreender como ocorrem os modos de subjetivação dos sujeitos ansiosos neste dispositivo medicalizador (o Instagram). As autoras assinalam que o corpo psíquico do sujeito acaba sendo materializado virtualmente nos posts, sendo, então, reproduzido pelas particularidades de organização e de representação verbo-imagéticas dos discursos de ansiedade nestes ambientes. Dando continuidade à coletânea, Renata Mendes Schirman e Rafael de Souza Bento Fernandes volvem o olhar para anúncios publicitários da marca Budweiser (2019), que tratam sobre a constituição da feminilidade – em especial, o discurso de “revisão histórica”. Os autores alertam, a partir das análises, que determinados discursos de circulação midiática estão propondo uma “revisão histórica”, na medida em que se endereçam a um público específico. As verdades aí construídas, por outro lado, serão economicamente rentáveis do ponto de vista do consumo.

Em seguida, Marluce Pereira da Silva e Cid Augusto da Escóssia Rosado analisam práticas racistas na web, a partir da repercussão de uma postagem de Danilo Gentili no Twitter a respeito da senadora Regina Sousa (PT/PI). Na ocasião, o humorista afirmou que achava que a referida parlamentar fosse a “tia do café”. O artigo analisa também a fala de da senadora quando esta se autofirma negra, do “cabelo pixaim” e anuncia processo contra o humorista. Os autores acreditam que o discurso racista ou antirracista é historicamente constituído nas relações sociais e consolidado ou transformado ao longo do tempo.

No capítulo de Edson Santos de Lima, Maria Eliza Freitas do Nascimento e Antonio Genário Pinheiro dos Santos, o debate consiste em analisar discursivamente a Lei nº 12.319/10, a qual regulamenta a profissão de Tradutor e Intérprete de Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS. Os autores advogam que, nos enunciados desse discurso jurídico, os modos de ser e se subjetivar enquanto sujeito Surdo é posto em evidência pela visibilidade da LIBRAS, porém com um efeito de sentido de língua diferente que precisa de tradução e interpretação. Logo depois, Antonio Genário Pinheiro dos Santos e Rafaela Cláudia dos Santos enveredam-se pelo caminho da educação, ao estudarem a produção da verdade e os efeitos de discursivização a partir dos documentos regulamentadores da educação superior e com foco na formação docente em Letras, a saber: Constituição Federal de 1988 (CF/1988), a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Os apontamentos da investigação indicam, por exemplo, a oportunização de vontade de verdades sobre a forma de traçar perfis e maneiras consideradas aceitáveis e inaceitáveis ao comportamento dos docentes contemporâneos. Seguidamente, Jefferson Campos e Aline Almeida Inhoti discutem, dentre outras questões, a maquinaria discursiva do dispositivo de formação inicial e continuada de professores que estabelece as leis, normas e padrões de conduta. Os autores sublinham a constituição de práticas dissonantes no que se espera do dispositivo de formação inicial e continuada: ensinar a ler, mas sempre reiterando, como o fazemos, que a leitura sempre poderia ser outra.

O penúltimo capítulo, de autoria de Kyara Maria de Almeida Vieira e Ana Cláudia de Andrade Costa, debruça-se sobre narrativas orais de sujeitos campesinos, com o intuito de discutir algumas possibilidades de viver, entender e significar as trajetórias dos povos do campo em relação aos espaços em que se posicionam. Centrando na narrativa de um colaborador específico, as autoras assinalam o aspecto profuso dessa história e sugerem que vale a pena acreditar no porvir; que o semiárido e sua gente ainda têm muitas histórias por contar. Fechando o livro, Fábio Leonardo Castelo Branco Brito se propõe a compreender as possíveis relações possíveis entre as vanguardas estéticas brasileiras de 1970 e as propostas filosóficas de Michel Foucault acerca da loucura. Como um dos experimentalismos estéticos, o autor menciona a revista de invenção Navilouca, pensada pelo poeta e letrista Torquato Neto e pelo poeta Waly Sailormoon (posteriormente chamado “Salomão”), e publicada em 1974, dois anos após o falecimento precoce do primeiro, vítima do suicídio. O autor acredita que a História da Loucura na Idade Clássica, de Michel Foucault, ressignificada pelos experimentalismos estéticos brasileiros do período em questão, emerge como um potencial dispositivo, capaz de proporcionar importantes diagnósticos do presente brasileiro, visivelmente fraturado pelos tempos de ditadura.

Findadas essas observações descritivas, reiteramos o convite para a leitura e fruição dos textos aqui contidos e ratificamos a atualidade e produtividade das teorizações de Michel Foucault.

Douglas de Oliveira Domingos
Francisco Vieira da Silva
Luciana Fernandes Nery

Referências
ANDRADE, C. D. Sentimento do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

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