Práticas grupais: espaço de diálogo e potência

eISBN: 978 65 86101 52 2

Autor/Organizadores:Eliane Regina Pereira; Bader Burihan Sawaia

PREFÁCIO

Grupos, coletivos e novas experiências possíveis para o humano

Abrir o livro “Praticas grupais: espaço de di{logo e potência” é tarefa que exige responsabilidade e, ao mesmo tempo, orgulho e alegria. Revela, fundamentalmente, muita implicação. Isso porque, a primeira autora foi minha orientanda no mestrado e no doutorado e a segunda, foi minha orientadora no mestrado e no doutorado. Eliane e Bader, minhas queridas inspirações por meio das quais este livro se fez vida, desafiaram-me para a tarefa dessa escrita. Um pouco delas, um pouco de mim, um pouco delas em mim.

Inicio o Prefácio afirmando que o estudo dos grupos sempre interessou a psicologia social, como bem mostram nossas autoras. Passados aproximadamente 70 anos que essa disciplina se tornou independente, estamos criando e dando visibilidade a novas leituras e novas compreensões sobre as características e a potência do estudo dos grupos. Tenho defendido que temas como “grupos”, “coletivos” e “comum” – só para citar alguns -, são fundamentais para a produção de conhecimento e de intervenção a partir da psicologia social (Maheirie, 2019), permeado por diferentes leituras em meio a múltiplos contextos de intervenção. Nossas práticas, a exemplo de nossos fazeres nas políticas de assistência social, pautam-se na criação e no fortalecimento de vínculos familiares e comunitários, como forma do fortalecimento de grupos e, por meio deles, criar enfrentamentos as diferentes maneiras de se viver o sofrimento ético-político (Sawaia, 1999).

O livro traz uma pequena história da inserção desse conceito no campo, mas, primordialmente, traz uma forma problematizadora de abordá-lo, uma forma que potencializa suas características e, ao mesmo tempo, põe em diálogo conceitos fundamentais, por meio dos quais constrói sua objetivação e abre o horizonte do seu campo de possíveis. Ao chamar de práticas grupais, traz seu caráter de atuação e marca a necessidade de abordá-lo em suas dissidências e, ainda assim, ao mesmo tempo, no seu caráter de produzir bons encontros. Uma das questões mais interessantes que encontramos nesse livro e que nos seduz em demasia é a ideia de que os grupos produzem zonas reais de desenvolvimento e zonas de desenvolvimento iminente. Essa ideia de origem vigotskiana de que, por meio da mediação, podemos superar a nós mesmos, é uma das ideias mais brilhantes que se poderia desenvolver, o que traz como consequência que singularidades e coletividades se constituem como um constante vir a ser, tendo a mediação do outro como trampolim na superação de um estado ao outro. Depois de Vigotski, Sartre (1979), mesmo sem ter tido acesso a obra vigotskiana, investiu intensamente na ideia de que o humano é um movimento constante de tornar-se outro e além de si mesmo, afirmando que é justamente esse movimento que lhe dá a inteligibilidade do presente. É preciso compreender esse movimento e levá-lo do singular ao coletivo e deste a singularidade novamente.

A tese da zona de desenvolvimento iminente por meio da produção do comum e das relações grupais é fundamental na compreensão das práticas grupais. Isso foi constatado em minhas inúmeras experiências com grupos, por meio das quais pude identificar a potência do comum na ampliação das possibilidades de cada um e de todos os sujeitos coletivamente. Tais experiências apontaram as práticas grupais como dispositivo de fortalecimento do comum, fortalecendo a tese central desse precioso livro.

A experiência grupal amplia campos, dá visibilidade a horizontes, fortalece sujeitos e abre porvires. No entanto, nos alerta essa obra, não é qualquer prática grupal que é capaz de produzir bons encontros. É necessário que haja, na sua interioridade, relações não hierárquicas que se deem de forma horizontalizada e, fundamentalmente, uma coordenação que aposte na igualdade das inteligências (Rancière, 2012). Isso significa que criar a possibilidade de uma experiência grupal em suas práticas profissionais ou acadêmicas, implica em apostar na capacidade de qualquer um de relacionar o que experiencia com o que já viveu, de comparar, de escolher, enfim, de interpretar, a seu modo, o acontecimento grupal comum. Ainda que a forma como cada um possa interpretar seja a mais antagônica em relação a uma ética do comum, não se pode qualificar a interpretação como falta de inteligência, ou como simples necessidade de uma conscientização. Pensando na situação que vivemos hoje no país, não posso terminar esse prefácio sem mencionar o contexto do exato momento em que o escrevo. Estamos, agora, em meio a uma pandemia, em situação de isolamento social, como a única barreira efetiva que pode nos proteger e proteger o comum. Todos e cada um, em isolamento, dependem de cada outro para que o conjunto da obra possa surtir o efeito no tempo esperado. Quando o elo dessa corrente se abre, a corrente perde a força. Por isso, a pauta deve ser única: a luta contra a morte.

No entanto, a necropolítica tem sido a base e o impulso a pulsionar muitos na banalização da dor, da doença, do sofrimento e da morte. Estamos vivendo paixões tristes, que baixam nossa potência de ação, quando assistimos passeatas em frente a hospitais, exigindo a “volta | normalidade”, a “volta da ditadura militar”, a “volta do AI5”. Quando percebemos o pulso que pulsa essas paixões tristes, compreendemos que consciência não basta para superar a necropolítica apropriada por singularidades, em encontros perversos promovidos por lideranças que encarnam os desejos, afetos e pensamentos de tais paixões tristes. Como compreender a psicologia das massas em tempos de coronavírus?

A sociedade mercadológica duela com potência de vida em um país, onde a desigualdade social se acirra e se aprofunda de maneira intensa. Nos contextos mais miseráveis desse país não se tem as condições mínimas para defender-se de um vírus altamente agressivo e super negligenciado pela maior autoridade do país. A luta pela sobrevivência nas periferias e localidades pobres desse país trava a luta contra duas mortes, a do vírus e da fome. Como enfrentar o contexto perverso de inclusão perversa que estamos vivendo nesse país? Em meio a tantas incertezas, nos perguntamos: em um futuro breve, como poderemos nos movimentar? Não temos como prever de que forma seremos amanhã, mas, podemos dizer que já não seremos os mesmos.

Não há dúvida, e Eliane Pereira e Bader Sawaia bem o sabem e nos ensinam, que os bons encontros aumentam nossa potência de ação e produzem lugares com calor. Inventaremos formas seguras, afetivas e posicionadas criticamente, para produzirmos nossas pequenas multidões, nossos encontros coletivos, nossas práticas grupais, composições revolucionárias do viver. Penso que já estamos inventando. Continuaremos a lutar contra a desigualdade social e suas mazelas, contra a morte anunciada de determinados segmentos sociais e lutar contra, sempre que se impuser, o sofrimento ético-político, o qual é inteiramente relativo ao momento histórico-político em que é vivido, ainda que sentido singularmente e compartilhado em grupos.

Contra as paixões tristes, propomos ao lado das autoras, encontros potentes que promovam a alegria como sentimento revolucionário e o encontro com o outro como promotor da saúde, do cuidado e do afeto. É a capacidade de nos tornarmos outro que nos desloca do lugar e nos lança na direção daquilo que não somos, que entrelaça a espécie humana na direção da solidariedade e do sentimento de pertencer a uma outra humanidade, capaz de ultrapassar o ódio como base e colocar a alteridade em seu lugar.

As práticas grupais são potência e abertura para uma outra humanidade possível. Elas são a possibilidade de experienciar os encontros e por meio deles sermos o que ainda não somos, de ultrapassarmos nosso ponto do desenvolvimento e alçar outros patamares. As práticas grupais nos lançam a outros possíveis, a outros porvires e a outras ficções, aumentando as chances e os caminhos para a invenção dessa humanidade urgente e necessária para um futuro quase breve.

Que este livro seja uma mediação para esse impulso a outros mundos e outros devires!

Profa. Dra. Kátia Maheirie
Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSC

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