Educação estética: a arte como atividade educativa

ISBN: 978-65-990019-3-2

Autor/Organizadores: Patrícia Lima Martins Pederiva; Augusto Charan Alves Barbosa Gonçalves; Fabrício Santos Dias de Abreu

PREFÁCIO

Questões que envolvem a educação, as emoções e a arte – em especial, o teatro – têm instigado-me desde o início de minha trajetória como professora quando, então, enveredei pelos caminhos da pesquisa. Foi em busca de compreender tais questões que deparei-me com a obra de Lev Vigotski – há pouco mais de vinte anos!

Conheci o autor pelo avesso, por meio de temas, até então, inexplorados, pouco conhecidos ou não reconhecidos na interface entre Psicologia e Educação: emoções, imaginação, criação, arte, e estética. Paulatinamente, tais temas tomaram seu lugar de destaque nas elaborações e produções de estudiosos da perspectiva histórico-cultural e pesquisadores da área – entre os quais, me insiro.

A genuína preocupação com a educação e o vívido interesse pela arte marcaram a obra de Vigotski e sua produção em uma perspectiva históricocultural em Psicologia, fundamentada nos princípios do materialismo histórico-dialético e na filosofia espinosana. E, como tem sido defendido hoje, é justamente isso que dá a sua produção um caráter inovador e uma perspectiva revolucionária.

Nesse cenário, este livro se coloca como um passo importante na direção da repercussão das instigantes ideias e densas elaborações de Vigotski no necessário e vital movimento de (trans)formação das práticas educativas redimensionadas pela arte, pela estética.

O título nos provoca: Educação estética: a arte como atividade educativa. E nos convoca à reflexão… como podemos compreender a educação quando a arte assume o centro da atividade educativa?

A arte é o social em nós, a técnica social das emoções, sem a qual não há o novo – enuncia Vigotski. A arte e, como também aponta o livro, a educação – que a coloca no centro de sua ação – é trabalho com emoção e imaginação: base para a transformação do homem e do mundo, como escrevi em outros momentos e parcerias. Tem-se, aqui, qualquer coisa que fagulha, a centelha da criação de que também nos fala Vigotski. Está, portanto, no centro o trabalho com e pela afetividade, com e pela vivência no espaço educacional que o transcende.

Contra a instrumentalização da arte e da estética na escola se coloca a vivência; se impõe a abertura para o acontecimento, não o acontecimento contingente da virtualidade atualizada, mas aquele as forjado nas e pelas relações sociais e (trans)formado historicamente. É o que atravessa a produção nos capítulos da 1ª parte do livro intitulada: “ Fundamentos teórico-metodológicos para uma educação estética”, tratando de imaginação, processos criadores, desenvolvimento humano e personalidade, entre outros temas atuais e problemas relevantes. Deflagra-se a necessidade de abertura para o acontecimento estético no acontecimento pedagógico: a vida na escola!

Trata-se, então, da vivência alteritária dos conflitos das diferentes posições sociais, do choque de sistemas no drama da personalidade contraditoriamente constituída – também nos processos formativos que emanam dos processos educacionais! A vivência estética é, como enfatizam autoras e autores deste livro, trabalho psíquico ativo, dramático e intensivo que redimensiona as emoções ordinárias, os sentimentos cotidianos, as paixões comuns – uma elevação do psiquismo, da personalidade, como diria outro autor marxista, Lukács.

A educação estética traz em sua paleta criacional, as matizes, as tonalidades e as cores do que se tem nomeado como afetividade. Não se trata, contudo, de uma afetividade compreendida como afetuosidade, exaltação da relação afetiva entre professor e aluno, mera proclamação do afeto nas relações de ensino ou afetismos de inúmeras ordens. Ao contrário, esta se coloca no âmago do processo relacional que é a educação, todas as nuances da expressão sensível humana: afetos, sentimentos, emoções, paixões das mais diversas ordens, complexidades e possibilidades. Seria, assim, atividade humana sensível – em termos marxianos – por excelência?!

Ao mesmo tempo, as autoras e os autores também manifestam suas críticas com relação à desvalorização dessa experiência em nossa sociedade; e problematizam como o desmerecimento ou a mera proclamação da dimensão estética no acontecimento pedagógico tem afetado negativamente o trabalho docente! Um trabalho cada vez mais mecanizado e desprovido de autoria, de criação e vivência (est)ética.

Falar de educação estética na atual conjuntura – tendo em vista as reformas de ensino que a menosprezam – é potencialmente revolucionário e subversivo! É com esse olhar que tomo o compilado de capítulos que, desde a educação infantil, procuram pontuar a centralidade desses processos no desenvolvimento humano, na 2ª parte do livro: “Desenvolvimento Infantil e Educação Estética: focalizando processos criadores”. As discussões aqui suscitadas vão na contramão do que se tem propagado em tempos de assunção e legitimação de competências e habilidades socioemocionais como política pública; como se fosse possível mecanizar, avaliar e sistematizar os afetos, sem vivê-los (est)eticamente.

Estética e Educação se colocam neste livro não daquela maneira tradicionalmente harmoniosa ou meramente complementar em tentativas de encontrar ou criar o belo, de apaziguar mentes e controlar paixões. Há, aqui, uma ousadia que marca a colocação das questões, a reiteração dos argumentos vigotskianos e, sobretudo, a explicitação das práticas nas salas de aula em que a arte insurge, em contraste com a dura realidade que conhecemos em que professoras e professores – que assumem por princípio a tarefa da formação estética – não têm direito à sua vivência efetiva seja nas práticas sociais que lhes são, muitas vezes, inacessíveis, seja no acontecimento pedagógico com as crianças. As experiências destacadas nos capítulos da 3ª parte do livro: “Arte, Criação e Educação Estética” se impõem, nesse sentido, como fecundos exemplos de vivências pedagógicas com a arte, em especial, a música.

De uma maneira geral o livro sinaliza para a crítica à educação que coloca a estética a seu serviço, instrumentalizando-a e, concomitantemente, à banalização do trabalho docente – que culminam na tomada da arte e da educação, mais uma vez, como mera mercadoria. Nessa perspectiva, este pode se colocar ainda contra uma indigência radical: a falta de sentido de uma determinada formação educacional voltada para a formação do mercado, para gestão e controle da vida e do exército mirim de empreendedores, jovens reféns de um saber restrito a um instrumento útil para o futuro crescimento profissional.

Uma educação (da vivência) estética urge: clama o livro! Negá-la é correr o risco de praticar uma educação menor: que restringe, que limita, que tira do homem o humano – a criação, a emoção e a imaginação necessárias para a (trans)formação de si e do mundo.

Em tempos de reformismo e conformismo na Educação, em tempos de retrocessos bonapartistas, a estética insurgente na abordagem vigotskiana é implacável: educar na e pela estética é vivenciar, é criar e incitar a criação é, portanto, inconformar(se) sempre.

Profª Drª Lavinia Lopes Salomão Magiolino
Faculdade de Educação – Universidade Estadual de Campinas

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