Navegando nos mares da proficiência em português como língua não materna

eISBN: 978-65-86101-64-5

Autor/Organizadores: Mauricio Souza Neto

Prefácio

Palavras preliminares

Escrever o prefácio de um livro é conceder a alguém o mérito de conhecer uma obra em sua versão primeira, antes de ser lançada ao mundo. E foi com muito júbilo que aceitei o convite. Parte da minha satisfação vem do privilégio de ter participado deste projeto que é resultado de uma pesquisa em nível de mestrado defendida pelo autor com sucesso. Fico feliz com a distinção que o autor me confere e sinto-me honrada em poder participar desse singular momento de produção e de socialização de um texto que é a realização de um sonho.

O papel do prefaciador é introduzir a obra para o futuro leitor e mergulhar no conteúdo para poder estabelecer um diálogo entre o autor e o público alvo e convencê-lo de que vale a pena ler a obra.

Reflexões

Antes de iniciar a apresentação do livro gostaria de trazer algumas reflexões a respeito do conceito de proficiência e do exame de proficiência. O conceito de proficiência tem sido debatido por vários autores dentre os quais, Stern (1983); Taylor (1988); Scaramucci (1995; 2000; 2004), Teixeira da Silva (2000, por citar alguns. Para Stern (1983, p.346) a proficiência é um construto acessível somente por meio de inferências a partir do comportamento linguístico de um indivíduo e destaca quatro características da proficiência, a saber: a) domínio intuitivo das formas da língua; 2) domínio intuitivo dos significados linguísticos, cognitivos, afetivos e socioculturais da língua; 3) capacidade de uso da língua com ênfase na comunicação, e não na estrutura; e 4) criatividade no uso da língua. Taylor (1988) faz uma distinção entre proficiência e competência e afirma que a proficiência é a “prática” da competência, porque esta última é vista como estática e a primeira como dinâmica, pois admite níveis. Segundo Scaramucci (2000, 14), a proficiência só deve ser definida a partir do contexto específico de ensino-aprendizagem vivenciado pelos alunos e dentro do qual ocorrem as possíveis interações. Teixeira da Silva (2000, p. 55), por sua vez afirma que “a proficiência envolve não apenas conhecimento estático, seja de língua, de uso da língua ou de conhecimentos das normas socioculturais, como também uma competência comunicativa, ou seja, a capacidade de saber usar a língua, usando essas ultrapassando barreiras impostas pela própria situação de comunicação”.

Por outro lado, não devemos esquecer que há outros termos como desempenho, habilidade e competência que estão ligados ao conceito de proficiência e que, portanto podem ser confundidos com o de proficiência. ORTIZ (2015, p. 253) define a competência como

[…] capacidade de articular, relacionar e mobilizar saberes, conhecimentos e teorias (formais e informais). Ela está baseada em crenças e valores que nos fazem tomar decisões e assumir determinadas atitudes perante situações-problema, situações essas muitas vezes desafiadoras. A articulação e mobilização dos saberes e conhecimentos se efetiva a partir das necessidades da vida diária que nos levam a desenvolver um conjunto de habilidades mediante uma ação cognitiva, afetiva e social, portanto ela é dinâmica, se desenvolve e cresce com a experiência, a prática (práxis) profissional e a reflexão. É um diálogo constante entre a teoria e a prática dentro de contextos reais de ação. Exige responsabilidade, habilidades e estratégias, determinação e confiança em si mesmo para poder alcançar o(s) objetivo(s) previsto(s)

Isso que dizer que a competência apresenta um conjunto de habilidades que se manifestam, desenvolvem e levam à mobilização de conhecimentos e saberes para alcançar determinados objetivos. Acreditamos que a competência não é estática, ela é dinâmica, ao contrario do que Taylor (1988) considera. Concordamos com Scaramucci (2000) quando assevera que a proficiência é relacionada a variáveis tais como: características do aprendiz, condições de aprendizagem e contexto específico de ensino – aprendizagem, vivenciado pelos alunos e dentro do qual ocorrem as possíveis interações. A autora ainda enfatiza que os objetivos e padrões que definem a proficiência podem ser usados como critérios para avaliar o desempenho de um indivíduo ou de um grupo de indivíduos.

Entendemos que o exame de proficiência é um instrumento de avaliação com fins específicos que permite mostrar a capacidade do candidato no uso da língua, em domínios específicos, em determinadas situações de comunicação que inclui também questões culturais. Engloba situações reais de uso da língua, com atividades de negociação e interpretação de significados. Um exame de proficiência pode estar composto de vários testes. Mas estes últimos se restringem à avaliação de uma habilidade específica.

Sobre a obra em si

Todo barco sempre procura uma bússola para achar um porto seguro depois de navegar pelos mares tempestivos. Acredito que foi essa a ideia do autor quando escolheu o título do livro Navegando nos mares de proficiência em português como língua não materna. Quando utilizo a metáfora mares tempestivos me refiro ao tema central da obra, que tem como foco principal os exames de proficiência em língua portuguesa, o CELPE – BRAS e o CAPLE e o conceito de proficiência, dois construtos polêmicos, do ponto de vista da sua definição. Sem contar que é um dos primeiros (se não o primeiro) trabalhos dessa natureza que temos notícia.

Ao embarcar nesse navio, o autor pretendia descobrir qual ou quais a(s) concepção(ões) de língua e linguagem estão presentes em dois exames de Proficiência em Língua Portuguesa, o Celpe-Bras (Brasil) e as provas do Centro de Avaliação de Português como Língua Estrangeira, doravante CAPLE (Portugal); Como essas concepções impactam no entendimento do conceito de proficiência; Quais as competências e as habilidades requeridas e esperadas de um candidato que se propõe a fazer esses exames; Como esses exames nivelam os seus candidatos; O que essa divisão significa e a quem ela interessa; e qual o papel dos exames internacionais nas políticas entre Portugal e Brasil.

A obra está dividida em cinco capítulos que o autor, fazendo uso da sua criatividade, assim denomina: traçando rotas; incursões metodológicas; exames de proficiência em língua portuguesa: uma dança entre políticas; entre o além e o aquém-mar: a proficiência nos exames internacionais de língua portuguesa e; portos de chegada, respectivamente. As denominações dadas aos capítulos estão em sintonia com a metáfora utilizada no titulo da obra. A organização do conteúdo apresenta uma determinada sequência que permite que o leitor tenha ao seu alcance os conceitos e definições que o ajudem a compreender o porquê dos questionamentos que o autor se propõe desvendar para chegar às respostas que são os portos de chegada que menciona.

A obra transcende as nossas expectativas, pois o autor tenta desnaturalizar posições cristalizadas, mostrando que o conhecimento é inacabado e que em cada viagem, em cada navegação fazemos novas descobertas, que é possível mergulhar e navegar por mares calmos ou no meio de tempestades, mas a bússola nos levará a algum porto seguro, temporariamente, para logo continuar a nossa viagem.

Encerramos este prefácio fazendo um merecido agradecimento ao autor por ter escolhido meu nome para avalizar a execução desse minucioso trabalho de pesquisa. Parabenizo pelos resultados alcançados, faço meus votos para que continue trazendo novas luzes para área.

Que fique o convite, então, ao leitor, para que se deleite com a leitura deste livro tendo em consideração a riqueza específica de cada contribuição. Com certeza ele poderá ser consultado por professores, alunos e público de áreas afins que estejam interessados no tema da proficiência.

Bibliografia

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STERN, Hans Heinrich. Models of Second Language Learning and the Concept of Proficiency. In: Fundamental Concepts of Language Teaching. Oxford: Oxford University Press, 1983.

Profa. Dra. Maria Luisa Ortiz Alvarez
Professor Associado IV
Departamento de Línguas e Tradução
Instituto de Letras
Universidade de Brasília

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