Leituras sobre a sexualidade em filmes: reflexões sobre estigmas. Volume 6

ISBN: 978-65-86101-73-7
eISBN: 978-65-86101-74-4

Autor/Organizadores: Ana Cláudia Bortolozzi; Leilane Raquel Spadotto de Carvalho

APRESENTAÇÃO

Ana Cláudia Bortolozzi

Este é o sexto volume da Coleção Sexualidade & Mídias em que, mais uma vez, reunimos discussões, reflexões, provocações, comentários, pensamentos e críticas sobre a sexualidade humana, a partir da produção midiática de maneira geral, sobretudo, em filmes, séries e seriados.

Entendendo a sexualidade humana como um fenômeno social e cultural, construído na história, suas manifestações e expressões diversas têm a ver com representações julgadas ao longo do tempo, a partir de padrões definidores de normalidade. Mesmo sabendo que tais padrões são flexíveis e mutáveis e nada têm de “natural”, a sociedade insiste na ideia de que há uma “normalidade” natural e de que quaisquer diferenças diante desses padrões são condições desvantajosas, tornando-se marcas, isto é, “estigmas”, tal qual nomeou Goffman[1].

O Volume 6, “Leituras sobre a Sexualidade em Filmes: reflexões sobre estigmas” traz onze capítulos, e o que há em comum neles é a ideia de que as condições estigmatizantes  as pessoas, tais como: doenças, deficiências, orientações sexuais, desejos, práticas, valores, etc., acabam por serem “marcas” exibidas e julgadas socialmente e, como tais, podem influenciar o modo como vivemos nossas sexualidades.

No Capítulo 1, Happy feet: normalidades e diferenças no polo sul da Warner Bros., o autor Gelberton Vieira Rodrigues, nos apresenta o conceito de normalidade, a partir de uma leitura foucaultiana, com um filme de animação infantil de uma comunidade de pinguins em que um deles se difere dos demais em comportamentos.

Marcela Pastana, no Capítulo 2, Eu vou rifar meu coração: sofrimentos amorosos a partir da música brega, lembra que o romantismo amoroso é uma das marcas da cultura ocidental e o chamado “amor brega”, parte da música nordestina brasileira. É um capítulo instigante que coloca o “estigma” naquele que não tem um relacionamento amoroso “perfeito”, isto é, correspondido.

No Capítulo 3, Já estou com saudades: identidade, sexualidade, câncer e sentido de vida, Maristela Rodrigues Freitas Martin discorre sobre as várias condições debilitantes que o adoecimento e o tratamento de um câncer, sobretudo para a mulher, incidem sobre a imagem corporal, a identidade e o silenciamento que há sobre a relação disso com a sexualidade, por parte de familiares e profissionais envolvidos.

O Capítulo 4, The good doctor: autismo, relações afetivas e sexuais, das autoras Karla Cristina Vicentini de Araujo, Maria Fernanda Celli de Oliveira e Luci Regina Muzzeti, discute o autismo a partir de uma série popular pelo reconhecimento profissional do personagem.

Entretanto, as autoras destacam as especificidades da condição do transtorno do espectro autista visíveis nas cenas de relacionamentos amorosos e afetivos da narrativa.

No Capítulo5, Filme 37 segundos: vivência da sexualidade em uma jovem com eficiência física, os autores Ana Cláudia Bortolozzi, Ana Carla Vieira Ottoni e Breno Luiz Ottoni analisam uma jovem com deficiência física buscando ser independente da mãe para viver sua sexualidade e sua vida adulta; a personagem lida com os preconceitos e dificuldades, mas mostra toda sua resiliência.

Na mesma direção, no Capítulo 6, Você nem imagina: a sexualidade na adolescência da pessoa superdotada, as autoras Verônica Lima dos Reis e Vera Lucia Messias Fialho Capellini, ressaltam os aspectos de uma garota com altas habilidades/superdotação (AH/SD) e discutem as implicações para a sexualidade, que tem sido temas de pesquisas recentes.

É no Capítulo 7, A vida em preto e branco: mudanças paradigmáticas em educação sexual na busca da emancipação, das autoras Patrícia de Oliveira e Silva Pereira Mendes, Raquel da Veiga Pacheco e Sonia Maria Martins de Melo que a educação sexual é apresentada como um modelo que repetimos acriticamente, que reproduzimos como “verdade absoluta”, vivendo em “preto e branco”, com medo das novas ideias e das novas cores do mundo.

Raquel Baptista Spaziani, no Capítulo 8, Eu não sou a tua princesa: a objetificação sexual dos corpos femininos infantis, trata de uma temática bastante séria, que é a erotização dos corpos de meninas pequenas por parte de adultos, denunciando um padrão perverso da “cultura do estupro” na vida dessas.

Da infância para a adolescência, vemos no Capítulo 9, Sex Education: sexualidades, corporeidades e subjetividades na adolescência, das autoras Natália Cristina Luciano e Tamires Giorgetti Costa, temas como masturbação, infecções, vínculos amorosos, orientação sexual, rivalidade feminina e sororidade, repressão e educação sexual.

Manoel Antônio dos Santos e Carolina de Souza, no Capítulo 10, Terapia de conversão / reorientação sexual a partir do filme Boy Erased: uma verdade anulada, focalizam o tema polêmico da “terapia de conversão”, chamando a atenção para a violência por trás dessa prática e esclarecendo que não há um reconhecimento por parte do Conselho Federal e Psicologia no Brasil, além de ser uma ação preconceituosa e discriminatória.

E finalmente, Fernando Silva Teixeira-Filho, no Capítulo 11, Shortbus e a queerização interseccional das políticas identitárias, mergulha em signos e significados para nos desvelar como o “sexo (e sua prática) e os gêneros são deslocados do modo cis-heteronormativo que sustenta o dispositivo da sexualidade, oferecendo alternativas para as expressões dos mesmos”.

Assim, os “estigmas” – as marcas impostas pelos padrões sociais definidores de normalidade, aparecem em todos os casos. O estigma não é em si mesmo bom ou ruim, ele existe como uma “diferença”, porque existe o modelo “normal”. Na verdade, em todas as sociedades existem os modelos de “normalidade” explícitos e implícitos em tudo que fazemos e sentimos e é isso que restringe nossa liberdade de existirmos.

Quais modelos aqui reconhecemos? Quais reproduzimos? Quais nos distanciamos? Quais condições estigmatizantes já tínhamos refletido sobre? Como lidar para minimizar tais condições e garantirmos o direito à diversidade, à liberdade e à existência? Boa reflexão e boa leitura a todos e todas!

  1.  GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

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