Coletivos juvenis na universidade e práticas formativas: política, educação, cultura e religião

eISBN: 978-65-86101-46-1

ISBN: 978-65-86101-45-4

Autor/Organizadores: Luís Antonio Groppo et al

PREFÁCIO

UMA PESQUISA SOBRE, PARA E COM JOVENS

Kimi Tomizaki
Professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo

A expansão e aprofundamento de pesquisas e reflexões sobre os processos formativos, de diferentes ordens, que constituem os comportamentos políticos de indivíduos e grupos, e mais especificamente os engajamentos políticos, vêm se impondo como uma tarefa intelectual e política a diversas áreas do conhecimento diante das inquietações contemporâneas sobre quais são as possibilidades e limites de se formar indivíduos aderentes aos valores democráticos. Inquietações que assumem outra tonalidade diante do inconteste crescimento de grupos organizados de extrema direita em todo o mundo, bem como do crescente número de eleitor@s que se identificam com suas propostas, levando-os a resultados positivos em eleições importantes. No interior dessas preocupações, no caso brasileiro, as tomadas de posição e atitudes políticas dos jovens têm um lugar de destaque visto que nos permitem analisar tanto o passado recente, marcado por uma breve experiência democrática pós-ditadura civil-militar, no qual tais jovens foram formados, quanto o futuro que nos aguarda, após um período de turbulência política que conduziu a extrema direita ao poder.

Neste sentido, estudos que se debruçam, de modo denso e detalhado, sobre a compreensão das práticas políticas dos jovens contribuem para o desvelamento da potencialidade criativa e radical da militância das novas gerações, sobretudo quando tais esforços são acompanhadas do exercício de constituição de novas “lentes” teóricas e metodológicas mais adequadas ou refinadas para a apreensão das múltiplas (e, por vezes, contraditórias) dimensões do engajamento político entre jovens.

Nesse contexto, o livro Coletivos Juvenis na Universidade e práticas formativas – política, educação, cultura e religião, resultado de um empreitada ousada e desafiadora em diferentes sentidos, representa uma enorme contribuição para o campo de estudos da Educação, da Juventude e da Militância Política, na medida em que permite aos leitor@s uma imersão sensível e qualificada na complexidade da dinâmica política e social de um microcosmo universitário e seus coletivos organizados, entendidos como espaços formativos fundamentais na experiência política e universitária de seus militantes.

Em primeiro lugar, é preciso destacar que se trata de um projeto constituído coletivamente e de uma pesquisa realizada por muit@s pesquisador@s com diferentes níveis de experiência, portanto, em fases diversas de suas trajetórias acadêmicas. Nenhuma experiência formativa de jovens pesquisador@a pode ser tão rica quanto a possibilidade de se debruçar concretamente sobre uma pesquisa, participar de suas diferentes etapas, vivenciar seus impasses e os momentos de dúvidas, bem como os debates e embates teóricos e metodológicos para fazer avançar o conhecimento científico. Em outro sentido, pesquisador@s mais velhos raramente têm também uma oportunidade concreta de aprender com os mais jovens, que nos beneficiam com novos modos de conceber os objetos e problemas de pesquisa, bem como nos apresentam novos temas e interrogações. Assim, esse livro não se trata somente da reunião dos resultados de uma importante pesquisa, mas constitui igualmente um excelente exemplo de experiência formativa para a pesquisa. No mesmo sentido, é preciso destacar ainda que a proposta de pesquisa surge em diálogo com um projeto de extensão universitária, permitindo um enriquecedor diálogo entre essas duas dimensões do trabalho acadêmico; cujo “encontro” não é exatamente comum, mas permite o aprimoramento da atuação da Universidade junto à sociedade e em diálogo com ela, reconhecendo que os projetos de extensão, muitas vezes pouco valorizados, podem constituir ricas oportunidades de reflexão que alimentam o desenvolvimento da pesquisa.

Assim, partindo de questões relevantes sobre as dimensões políticas e formativas dos coletivos universitários, a pesquisa que deu origem a esse livro lança mão de uma multiplicidade impressionante de instrumentos de coleta de dados, que permitiu o acesso a um amplo conjunto de informações sobre aspectos sutis e impactantes da vivência política de jovens militantes dos coletivos universitários. E, dessa forma, lançam luz sobre mecanismos de formação, adaptação e disputas políticas que conformam, objetiva e subjetivamente, as experiências de militância em sua capacidade de estabelecer novos “lugares” sociais (concretos e simbólicos) para esses jovens militantes.

Finalmente, o livro ainda nos apresenta um desafiador debate teórico, que tensiona, de modo pertinente e qualificado, as fronteiras da discussão sobre as dimensões formativas do engajamento político, lançando luz tanto sobre os processos de longa duração quanto para a significação dos momentos de “passagem à ação”, que marcam de modo inconteste a experiência militante. Como dito anteriormente, os estudos sobre as percepções, tomadas de posição, os comportamentos e o engajamento político dos jovens, em uma conjuntura histórica absolutamente nova, do ponto de vista da reorganização do campo político, exige não somente a constituição de outros problemas de pesquisa, a emergência de novos sujeitos, mas também a formação de novas lentes teóricas, capazes de capturar dimensões outras da experiência militante. E, neste sentido, a obra nos dá acesso a um instigante diálogo entre autores que oferecem ferramentas fundamentais e inovadoras para os estudos do engajamento político dos jovens, constituindo mais um dos excelentes motivos para nos dedicarmos a leitura dessa obra.

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