Do cárcere à invenção: gêneros sexuais na contemporaneidade

ISBN: 978-85-7993-394-3

Autor/Organizadores: Dantielli Assumpção Garcia; Jacob dos Santos Biziak; Lucília Maria Abrahão e Sousa

Introdução

A aproximação de dois termos, aparentemente contrários, no título desta coletânea de trabalhos aponta para uma hiância que se pretende vislumbrar a respeito dos possíveis “problemas de gênero” (tal expressão, no Brasil, ganhou fama com a recepção da obra da filósofa Judith Butler, naquilo que se convencionou chamar, por parte da crítica, de terceira onda feminista). Dessa forma, a multiplicidade de sentidos e de abordagens deslocarem, constantemente, olhares a respeito da discussão sobre os gêneros sexuais na contemporaneidade, notadamente a brasileira. Ao mesmo tempo em que observamos avanços, retrocessos persistem; ao mesmo tempo que definições são necessárias para teóricos e militantes, elas podem causar novos confrontos. Com isso, oscilados entre a sensação de invenção e de cárcere em uma temática que, na verdade, se espraia para a mais fundamental constituição humana, uma vez que toca em identidades, representações da realidade e maneiras de se colocar diante do olhar que vem do outro.

Pensando os gêneros sexuais em suas rupturas e alianças, textualizados por meio de tropeços e resistências de significação, surgiu a ideia de uma coletânea que buscasse explorar a multiplicidade de formas de abordagem da questão. Isso significou, em nossa busca, partilhar do sensível (para falarmos com Rancière) com pesquisadores de origens e fundamentos epistemológicos diversos. Com isso, acreditamos incentivar reflexões que precisam ser vivas e até contraditórias, em alguns momentos, para que assumam uma prática viva de pensamento sobre sujeitos cujos corpos falam, alguns pela via do silenciamento.

Críticos literários, analistas do discurso, filósofos, psicanalistas, enfim, vários são os olhares que, aqui, interpelam os gêneros sexuais e seus possíveis funcionamentos dentro de uma sociedade – aqui, chamada contemporânea – que ao mesmo tempo em que parece reconhecer individualidades salutares, parece fazer isso para absorção de novos sujeitos que possam pertencer ao ciclo do consumo e do lucro. Entre a tolerância e a aceitação, a alteridade e o mesmo, o cárcere e a liberdade, possibilidades de o pensamento se inscrever e se fazer significar precisam ganhar espaço justamente para reconhecer a precariedade dos sujeitos falantes e seus corpos, donos de vidas vivíveis porque são contingentes e possuem direito à polissemia de suas próprias vidas, sem que isso implique em perdas identitárias.

Dessa forma, este livro, constituído a muitas mãos de autores-parceiros, tenta produzir em conjunto, através da variedade de abordagens, um possível mosaico de dizeres no qual as especificidades de cada um compõem o tecido em que vidas possíveis são bordadas. Com isso, ler contemporaneamente os gêneros sexuais, aqui, assume um caráter do múltiplo que ganha legibilidade já que pode ser rarefeito em partes menores: em outras palavras, a busca de uma visão ampla que, para se fazer, não pode se esquecer da mais individual, em um enlace entre ser um e ser outro.

Para tanto, o livro se divide em três partes: Gêneros sexuais e Linguagem; Gêneros sexuais, filosofia e psicanálise; Gêneros sexuais e Arte. Na primeira sessão, iniciamos com o texto “Corpos contraditores e o inapreensível do sexo, do gênero e da sexualidade”, em que Aline Fernandes de Azevedo Bocchi questiona, por meio da análise de documentários e grafites, proposições logicamente estabilizadas na sociedade que ditam e organizam sentidos para o sexo, o gênero e a sexualidade. Em suas análises, a autora ressalta como os corpos contraditores, “num gesto de insubordinação ao cistema e sua injunção à normatização, afrontam o mundo semanticamente e sexualmente normal, constituindo-se em um lugar no qual a resistência se faz possível”. No texto “O corpo cantante e a voz no feminino”, Pedro de Souza analisa o documentário No Land’s Song, no qual o autor observa como a história de mulheres iranianas impedidas, em virtude de situações políticas, de cantar indicia o lugar emergente da voz e da subjetividade feminina.Como Souza ressalta, “O pressuposto, dado na ordem do discurso islâmico, é que a voz feminina quando ressoa em solo, levam aos homens ao prazer sexual, e que é considerado falha na religião islâmica”. Desse modo, ao discursiviza acerca da voz feminina no Irã, o documentário, pontua o autor, por meio de um gesto provocativo, atualiza uma memória sobre a voz feminina e torna possível o acontecimento discursivo que produz a resistência.

Em “Liberdade de gênero: linguagem, memória e códigos culturais a partir do trabalho da cartunista Laerte”, Rodrigo Daniel Sanches, Gustavo Grandini Bastos e Dantielli Assumpção Garcia discutem questões referentes à gênero na contemporaneidade, tendo como enfoque a cartunista Laerte Coutinho. Os autores buscam analisar como a cartunista problematiza questões relacionadas à noção de gênero no trabalho que vem realizando desde 2010. A partir de 2014, Laerte solicitou em uma entrevista ao Jornal Folha de S. Paulo, onde publica suas ilustrações, para ser chamado de “a cartunista”. Sanches, Bastos e Garcia investigam nos relatos e entrevistas de Laerte alguns aspectos da sua militância política, com foco na defesa das liberdades de sexo e gênero, estabelecendo relações entre aspectos socioculturais e a dimensão individual que constituem o sujeito transgênero. Jacob dos Santos Biziak, no texto “Angústia e gêneros sexuais: pelo por vir”, traçando uma discussão teórica em torno das noções de gênero sexuais e angústia, analisa um trecho do conto “Amor”, de Clarice Lispector, e aponta como os gêneros sexuais “atuariam como mimesis de intervalos e movimentos entre o que vemos e o que nos olha, nos quais, pela operação de corte inevitável da linguagem, se perdem objetos para se ganhar a impossibilidade do por vir”. Dantielli Assumpção Garcia e Lucília Maria Abrahão e Sousa, em “A cultura funk, a mulher e o feminismo: uma resistência artística?”, analisando produções artísticas do coletivo PaguFunk e a censura que tentou impedir a circulação deste, dedicam-se à interpelação da mulher na cultura funk não como voz subalterna, mas como de resistência contra a voz outra, em geral masculina, que, por sua vez, busca o silenciamento daquela. Nessa prática discursiva analisada, a contradição alia-se à reivindicação: “O funk, visto pela PaguFunk como uma cultura popular das favelas e periferias, funciona como mais um lugar no qual dizer sobre a mulher que luta, que não aceita abusos, violência, submissão é possível”.

Na segunda parte, o trabalho de Carla Rodrigues, “Como a marca masculina poderia ser anterior à diferença sexual?”, retoma reflexões, especialmente, de Simone de Beauvoir, Derrida e Butler, para pensar de que maneira a constituição da diferença pode agir sobre as vidas que são reconhecidas como dignas de superar a precariedade. Além disso, pensa sobre de que maneira o luto social é construído para naturalizar existências. Ruth Brandão, em “A garota dinamarquesa – um corpo escrito, um corpo falante”, inspirada pelo filme que conta a história de Lili, sujeito que passa por uma experiência transexual, retoma elementos da teoria lacaniana para pensar a divisão dos corpos através da linguagem e como isso contribui para a constituição de diferenças, de forma que a singularidade dos sujeitos sofra o risco de, em alguns casos, ser lida como anormalidade. Partindo de uma discussão sobre “ficção científica”, em “Políticas do Corpo”, Christian Ingo Lenz Dunker lança os seguintes questionamentos: “E se os gêneros fossem ficções?”, “(…) e se os gêneros fossem performances de semblantes, efeitos de verdade de uma determinada estrutura de ficção?”. O autor, trazendo uma análise de Exxtrañas Amazonas, do grupo colombiano Mapa Teatro, salienta que uma outra estratégia de localização de experiências produtivas de indeterminação é pelo grupo inventada “uma espécie de super-identificação (over-identification) como antídoto potencial para o empobrecimento de nossa capacidade de imaginação sexual, amorosa e política”. Em “Sexo, Gênero e Desejo”, Joel Birman traça uma discussão em torno das relações existentes entre as categorias de sexo, gênero e desejo. O psicanalista propõe-se a refletir acerca de uma genealogia dessas relações que estabeleceram no Ocidente desde o final do século XVIII, além de salientar a crítica, desde os anos 1950 e 1960, a essa problematização. Em decorrência da revolução sexual, a questão da sexualidade não se restringe somente aos registros teóricos e clínicos, mas incide também no campo da militância: “Portanto, a problemática em questão incide não apenas nos registros ético, social e político que lhe permeiam”. Essa revolução sexual, pontua Birman, realizou-se em três diferentes tempos: 1º No movimento feminista; 2º No movimento homossexual e 3º Na questão transexual.

Na última sessão, enfim, Jaison Luis Crestani, em “Machado de Assis e a representação do feminino na imprensa periódica do século XIX”, retoma três narrativas de Machado de Assis para analisar três possíveis momentos de representação do feminino na obra do escritor. Isso é feito por meio da interessante relação entre texto e público leitor, uma vez que trata-se de contos publicados originalmente em periódicos, alguns deles dedicados especialmente ao que se entendia como “leitoras”, uma recepção relacionada, portanto, a certas proposições sobre o feminino. Juliana Santini e Betina Matarazzo, em “Memórias de um corpo”, analisam, especialmente, um conto de Ronaldo Correia de Brito para pensar, em parceria com a psicanálise, uma narrativa que desloca relações entre masculino e feminino, passado e presente, tradição e novidade, ajudando a refletir sobre as (im)possibilidades dos limites sobre os corpos e as realidades. Filipe Marchioro Pfüntzenreuter, em “A Feminíssima Trindade: as projeções de Eva, Virgem Maria e Maria Madalena sobre o imaginário cristão na consolidação do patriarcalismo ocidental”, na esteira da Teopoética, retoma partes da Bíblia enquanto constructo literário para analisar como o arquétipo de três personagens bíblicas femininas – Eva, Maria e Maria Madalena – contribuiu para a ascensão do patriarcalismo ocidental por meio da propagação do Cristianismo. Karen Gabriele Poltronieri e Lucília Maria Abrahão e Sousa, no texto “Notas deles, sobre elas”, analisam como Dom Casmurro, no romance machadiano, a partir da personagem Capitu, diz sobre como era a mulher do século XIX, contrastando com os escrito poéticos de Zack Magiezi, inscritos nas mídias digitais que fazem falar como é ser mulher no século XXI. As autoras explicitam que “nascida da literatura e dos jogos poéticos, a mulher é falada como aquela que se constrói em um outro tempo e de uma outra maneira, subvertendo e fazendo furo na homogeneidade do discurso único”.

Por meio desta curta introdução, pretendemos chamar a atenção para a dimensão de por vir com que o leitor está prestes a se deparar. Queremos sustentar que, pela leitura dos textos reunidos, o universo a se descortinar só tende a aumentar e se problematizar, uma vez que o contato com um pensamento que se imagina, inicialmente, como outro pode – e muito! – revelar rupturas e alianças que existem no mesmo. Por meio desse movimento entre dizeres e memória, quem ganha são sempre os sujeitos, interpelados em seu infinito deslocamento entre cárcere e invenção. É preciso aprender a ser mais vivo com isso!

Os organizadores

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