Machado de Assis: confluências literárias

ISBN 978-85-7993-504-6

Autor/Organizadores: Jaison Luís Crestani; Aline Cristina de Oliveira

APRESENTAÇÃO

Os textos que compõem esta obra explicitam a proposta dos organizadores de reunir as mais diversas pesquisas à roda de uma temática nuclear: o escritor Machado de Assis e tudo quanto dele irrompeu em termos de apropriação e remodelação literária. São linhas que refletem a interpenetração de artistas os mais diversos na construção da singular obra machadiana. Em comum, todos os artigos apontam a produção do bruxo do Cosme Velho como uma inequívoca apropriação de obras e autores – de diferentes tempos e espaços – para uma remodelação tão profunda quanto original. A dialética originalidade x cópia, aliás, é o ponto de partida dessa que pretende ser uma obra de iniciação àqueles que desejam se dedicar aos estudos comparados, sejam eles em Machado de Assis ou em qualquer outro expoente literário. O pesquisador e organizador Jaison Luís Crestani abre a edição com o artigo “Confluências literárias”, um panorama do surgimento e disseminação da área dos estudos comparados, mas, ao contrário das teorias densas e indigestas, o autor presenteia os leitores com uma linguagem fluida, acessível e que perpassa, através de breves citações, os grandes nomes dessa linha de pesquisa. De forma diluída e didática, o autor extrai deles o essencial para ofertar ao leitor comum uma explanação que reflete a própria sistemática a que estão submetidas as confluências culturais, ou seja, o texto se alimenta de outros, numa atitude assumidamente antropofágica. Além disso, o artigo não fixa seu enfoque teórico somente nos especialistas da literatura comparada, antes, explicita como homens de letras, a exemplo do argentino Jorge Luis Borges e do próprio Machado de Assis, entendiam as conexões culturais. Em ambos, é possível constatar aquilo que o crítico uruguaio Angel Rama chama de transculturação narrativa, que é, na literatura, a percepção das transferências como um fenômeno intrínseco ao universo artístico. Crestani traduz questões essenciais para pesquisadores que desejam se aventurar no mundo do comparativismo literário e, tomando as palavras de Rama, em Cidade das Letras: “abandona as estreitas lentes do engomado e retórico legado oficial com que nos entulham as Academias”.

Depois de adentrar o leitor no universo teórico, Crestani passa o bastão à pesquisadora Ionara Satin, que introduz o fluxo de artigos desta edição por aproximar parte da obra machadiana com a do poeta Dante Alighieri, o qual, em comparação com as demais obras e autores que perfazem os objetos de pesquisa dos autores que aqui se lê, é aquele que mais se distancia temporalmente de Machado. Tal escolha dos organizadores se explica pela intenção de mostrar ao leitor que o autor estava tão ajustado com as conexões de seu tempo quanto com aquelas propiciadas por culturas consagradas, as quais ele manteve contato durante toda a sua trajetória literária. Ionara Satin apresenta, em “Machado e Dante: o poeta na crônica”, um cotejo hercúleo das crônicas machadianas produzidas durante toda a sua trajetória, em veículos os mais diversos. São quase 40 anos de produção em periódicos brasileiros, nos quais o autor estabelece, não raramente, conexões intertextuais com o poeta italiano.

Na sequência, Jaison Luís Crestani analisa a presença de Erasmo de Rotterdam na nova postura literária firmada por Machado de Assis no periódico O Cruzeiro. “Machado de Assis e a tradição da sátira menipeia” mostra como o periódico em questão foi importante para a transformação experimental iniciada pelo autor depois da repercussão negativa da crítica que fizera às propostas naturalistas do português Eça de Queirós e de ter assumido uma seção do jornal amparada nos paradigmas da sátira menipeia. Pressionado a se reinventar, o autor vai beber nas fontes consagradas da cultura por meio dos recursos da paródia.

Crestani se propõe a analisar, nessa perspectiva, o conto “Elogio da vaidade” e suas confluências com a tradição da sátira menipeia, especialmente com as obras”Elogio da mosca” de Luciano de Samósata, e Elogio da loucura, de Erasmo de Rotterdam. Para Crestani, Machado de Assis, por meio da apropriação desse legado, suplantou a visão conformada de suas primeiras obras e instituiu uma nova elocução artística, pautada pela deliberada apropriação paródica de modelos literários anacrônicos, pela irreverência humorística e por uma visão de mundo paradoxal e desconcertante.

Com um salto secular, a autora Camila Regina Miranda apresenta, em seu “A Desdêmona machadiana e a perfídia de (Sant)Iago”, uma desconstrução da crítica tradicional acerca da personagem Capitu de Dom Casmurro, que fora, durante muito tempo, colocada no banco dos réus em função da performance ardilosa do narrador Bento Santiago. A crítica moderna, no entanto, observa a atitude do narrador em escrever suas memórias como uma tentativa de autoexpiação dos crimes cometidos à mulher e ao filho em função do ciúme doentio, lançando a impossibilidade de atestar a traição de Capitu. Assim, o romance machadiano guardaria semelhanças com Lady Macbeth, do inglês William Shakespeare, que também não consegue se livrar das manchas do crime estampadas em suas mãos, o que, na verdade, trata-se simplesmente do remorso e do peso da consciência, sentimentos que também estariam perturbando Bentinho. Outra clara intenção intertextual com o legado shakespeariano é a aproximação de Dom Casmurro com Otelo, haja vista que em ambos os enredos há um suposto adultério e os personagens de Machado aproximam-se, inexoravelmente, dos de Shakespeare. O artigo pretende, então, um duplo objetivo: reconstruir a imagem de Capitu à luz da crítica moderna e contemporânea, ao mesmo tempo em que anuncia uma intertextualidade legítima entre as personagens Capitu e Desdêmona, Bento Santiago e Otelo e José Dias e Iago.

Em seguida, o leitor encontra em “Humor e loucura em O alienista e Dom Quixote” não somente a conexão de duas obras, mas de duas temáticas consagradas na literatura ocidental. A autora Marilene Aparecida Nunes Pereira, em co-autoria com seus orientadores de Jaison Luís Crestani e Roberto Carlos Bianchi, analisa o tratamento oferecido por Machado de Assis e Miguel de Cervantes ao humor e à loucura em seus célebres O alienista e Dom Quixote de La Mancha, respectivamente. Aspectos estruturais e temáticos se ligam à observação das condições de produção do autor brasileiro do século XIX e do castelhano seiscentista, no intuito de revelar conexões existentes em obras afastadas no tempo e no espaço, mas que guardam uma expressiva identificação na maneira como abordam e desenvolvem a temática da loucura, utilizando-se desta para a construção do efeito humorístico presente nas duas. Para tanto, Pereira, Crestani e Bianchi se utilizam de conceitos teóricos e instrumentais metodológicos da Literatura Comparada, especialmente aqueles relacionados com a concepção moderna de intertextualidade e com a técnica da paródia.

Na esteira das teorias que conduzem as análises intertextuais e paródicas, a pesquisadora Greicy Pinto Bellin explora, em seu “Tudo o mais é ilusão e mentira”: Machado de assis e a paródia de “O corvo”, as relações entre Machado de Assis e o escritor norte-americano Edgar Allan Poe e atesta que a inexpressividade das relações machadianas com autores do norte da América não significa que tais relações não sejam muito importantes para a compreensão da obra do Bruxo. Bellin chama a atenção para o fato de que as conexões do autor com a cultura inglesa, embora ocorram em maior número graças ao apreço machadiano para com essa língua e cultura, não podem apagar o fato de que “O corvo”, de Poe, não foi apenas traduzido por Machado como também parodiado no conto “Ideias de canário” (1893). Para Bellin, a tradução e a paródia são elementos significativos de sua percepção da importância da obra de Poe e provam que a literatura norte-americana se manteve presente na concepção literária machadiana, bem como foi influente na formação e solidificação da visão crítica de Machado frente a teorias depreciativas no que tange o confrontamento literário de culturas distintas e pouco equânimes, fato este que coloca Machado na vanguarda das teorias modernas sobre transferências mútuas, ainda que desiguais. Desse modo, a autora analisa esta postura crítica através da comparação entre o poema de Poe e o conto de Machado, no intuito de identificar as aproximações que permitem considerar a ideia de paródia.

Contemporâneo de Machado, Fiódor Dostoiévski é o objeto de comparação do pesquisador Filipe Marchioro Pfützenreuter, que busca estabelecer relações quanto à característica de refletir sobre a psique humana nos dois autores. Com seu “(Des)encontros especulares em O Espelho, de Machado de Assis, e Memórias do subterrâneo, de Fiódor Dostoiévski”, Pfützenreuter defende a teoria de que o tratamento temático dos autores é uma aproximação inequívoca entre eles, já que ambos revelam, em suas obras, o desejo de contemplar os conflitos psicológicos e o comportamento humano em sociedade. Levando em consideração a aproximação cronológica dos autores e também a afinidade temática, o artigo se propõe a analisar como o duplo – representado metaforicamente, no conto, pelo corpo de Jacobina e seu reflexo; e, no romance, pelo narrador-personagem e a prostituta Liza – é utilizado como recurso literário para promover discussões análogas em ambas as obras.

Seguindo a proposta cronologicamente pensada pelos organizadores, a autora Daniela Mantarro Callipo expõe sua pesquisa sobre a já consagrada conexão literária entre Machado de Assis e o francês Victor Hugo. O trabalho de Callipo é de grande fôlego, o que fica evidente em seu “A presença de Victor Hugo nas crônicas de Machado de Assis: viagem ao passado romântico”, no qual se constata a força motriz das transferências culturais entre Brasil e França durante o século XIX. Nas mais de seiscentas crônicas que perfazem os quase 40 anos de publicação desse gênero, o cronista fez citações francesas em duzentas delas. Nesse rol, o nome de Victor Hugo é mencionado 27 vezes. Desde muito cedo, Machado de Assis revela não somente conhecer bem o escritor francês, como também ter memorizado vários trechos de suas obras, trechos estes utilizados para ilustrar um pensamento em relação a algum fato comentado nas crônicas. A leitura das crônicas em que aparecem citações tiradas dos textos de Victor Hugo indica que a obra do escritor francês foi lida de forma constante e interessada. O artigo revela que, dentre o legado hugoano, merece destaque a poesia, principalmente as Orientales, cujos versos são lembrados durante toda a longa carreira jornalística de Machado de Assis.

A mesma força que se constata na relação Brasil-França nas crônicas machadianas também pode ser observada em sua célebre produção romanesca da chamada ‚segunda fase‛. A autora Lourdes Aparecida da Fonseca traz uma interessante reflexão sobre a representação alegórica do Brasil no romance Quincas Borba, de Machado de Assis, enfatizando a tendência brasileira de aspirar a uma europeização, desde o modo de pensar, até seus hábitos culturais e estilos de sociabilidade. “A presença francesa em Quincas Borba, de Machado de Assis” visa a apresentar um panorama das etapas do desenvolvimento histórico do país no século XIX e verificar como o protagonista da obra, em seu delírio napoleônico, espelha o próprio país, evidenciando, assim, os descompassos da aclimatação de ideias europeias, sobretudo as francesas, no Brasil. Fonseca chama a atenção para a criticidade machadiana ao retratar o comportamento da sociedade de seu tempo. Desse modo, pode-se entender a contextura de Quincas Borba como a representação das relações sociais: o ingênuo professor Rubião encontra a perversidade humana ao mudar-se para a corte. As demonstrações de afeto que recebe por parte do casal Palha só são verossímeis para sua credulidade provinciana. A generalização dessa ilusão indica, portanto, que a essência de uma sociedade é parasitária e desprovida de escrúpulos, acobertada sob máscaras de duvidosas barganhas financeiras e falsos elogios.

Seguidamente, mas agora numa tríade Brasil-Portugal-França, a pesquisadora Aline Cristina de Oliveira intenta apresentar mais uma reflexão acerca da área dos estudos comparados, alicerçando seu artigo tanto na explanação sobre a teoria das transferências culturais, sabidamente contemporânea, quanto no processo responsável pela efetivação dessas conexões entre culturas. Assim, a autora contempla, enquanto corpus de sua análise, um dos muitos periódicos nos quais Machado de Assis colaborou em sua longa carreira. A publicação O Futuro (1862-1863) foi um dos primeiros laboratórios de escrita literária do autor, onde ele firmou seu nome na seção da crônica aos 23 anos de idade. A partir da leitura desses textos, Oliveira revela um jovem jornalista que, apesar da tenra idade, já reflete sobre os mais variados assuntos com a criticidade sensata de quem conhecia o contexto de produção a que estava submetido. Segundo a autora, como O Futuro era um periódico de intenção manifestadamente bilateral, de permanência dos laços luso-brasileiros, Machado via-se impelido a publicar sobre a cultura portuguesa. No entanto, embora o periódico ostentasse verdadeiro repúdio ao influxo francês, o cronista não se absteve de mencionar, em diversas ocasiões, sua opinião acerca desse arquétipo de civilização oitocentista, promovendo, desse modo, um trânsito plurilateral de culturas.

Na sequência, guardando ainda a ideia de presença lusitana em Machado de Assis, o artigo “Adultério e representação feminina em O primo Basílio e Dom Casmurro”, da autora Tamaíza Andressa dos Santos Rocha, é uma análise da temática do adultério nos romances em questão. Desse modo, a proposta foi abordar a construção das personagens e a performance dos narradores quanto ao adultério, seja ele concreto, no caso da personagem Luísa, ou suposto, como se infere em Capitu. Segundo Rocha, as obras possuem semelhanças quanto à retratação da sociedade oitocentista, ao papel da mulher e ao posicionamento em relação a traição feminina, além de serem, ambas, pertencentes ao movimento literário que privilegiava os conflitos domésticos em detrimento das idealizações românticas.

Finalmente, contemplando o século XX, no qual o legado machadiano se firmou como objeto de pesquisa mundial, encontram-se as conexões entre os mais reconhecidos autores do Brasil e de Portugal. Fechando esta edição, o pesquisador Jacob dos Santos Biziak apresenta o seu “Enunciações, discursos e pensamentos errantes – uma perspectiva comparativa entre Machado de Assis e José Saramago”, que privilegia uma análise dialógica dos estudos comparados e linguísticos, este último amparado na Análise do Discurso, de Pêcheux, bem como nas ideias de Derrida. Nessa perspectiva, o autor busca colocar em contato dois autores de língua portuguesa, oriundos de condições de produção diferentes, as quais, no entanto, aproximam-se por expressarem momentos de ruptura profunda dentro e entre as formações discursivas dominantes. Dessa forma, tanto Machado de Assis quanto Saramago trazem, em suas obras, representações da realidade veementemente pautadas pela revisão severa de verdades e valores outrora tidos como essências estáveis. Dessa maneira, Biziak faz uma comparação entre as duas obras a partir da enunciação construída nos romances de ambos os autores e que parecem as caracterizar enquanto traço de estilo. A partir disso, o autor coloca em interlocução estes dois autores, não de forma a buscar influências entre ambos, mas a deslocá-los de contextos de análise já realizados.

Aline Cristina de Oliveira

Palmas, março de 2018.

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