Que mais deseja o corpo de alcançar? Escritos sobre filosofia e linguagem na contemporaneidade

ISBN 978-85-7993-525-1

Autor/Organizadores: Jacob dos Santos Biziak; Carla Rodrigues

Apresentação

Transforma-se o amador na coisa amada,

Por virtude do muito imaginar;

Não tenho logo mais que desejar,

Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,

Que mais deseja o corpo de alcançar?

Em si somente pode descansar,

Pois consigo tal alma está ligada.

Mas esta linda e pura semidéia,

Que, como o acidente em seu sujeito,

Assim como a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia;

O vivo e puro amor de que sou feito,

Como a matéria simples busca a forma.

(Luís de Camões)

A contemporaneidade, portanto, é uma singular relação com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias; mais precisamente, essa é a relação com o tempo que a este adere através de uma dissociação e um anacronismo. Aqueles que coincidem muito plenamente com a época, que em todos os aspectos a esta aderem perfeitamente, não são contemporâneos porque, exatamente por isso, não conseguem vê-la, não podem manter fixo o olhar sobre ela

(Giorgio Agambem)[1]

O soneto acima há muito circula em espaços distintos de forma a lhe afetar as significações. Neste presente livro, que você tem em mãos, tal soneto, primeiramente, ajuda a dar nome à coletânea. Como toda nomeação é um ato político, já que demarca posicionamento dentro do espaço híbrido e de disputas por poder que é o da linguagem, pensamos com o texto de Camões de forma a imaginar as possibilidades de contato entre filosofia e linguagem no contemporâneo, seja como espaço para colheita de corpus, seja como corpos que somos também afetados por tal cronotopo. Ou seja, pensar e ser contemporâneo acabam se peformativizando como acontecimentos na e da linguagem, cujas percepções só se podem ser permitidas metalinguisticamente: nos interrogamos o que é possível acontecer, tendo em vista o que é possível, talvez, ser nesse espaço-tempo. Assim, o que se entende como próprio ao contemporâneo só é legítimo porque o sujeito que reflete isso só o faz a partir de um olhar, de uma (in?)compreensão do que, como e de onde vive. Especialmente, enunciar sobre o ”nosso tempo” permite, concomitantemente, nos interrogarmos o que permite que um sujeito diga sobre o espaço-tempo que ocupa e que efeitos isso gera.

Ao falar do contemporâneo e seus alcances ou faltas de sentido, o que o corpo pode querer? Acaba que o sujeito que fala se converte naquilo que ele mesmo diz: não há separação, exterioridade total e claramente dissociável. Em outros termos, “transforma-se o amador na coisa amada”; com isso, temos, em nós, o contemporâneo porque somos capazes de falar dele, somos afetados por seus efeitos. Se a fala constitui o corpo, se o corpo diz e escreve, o rastro enunciativo é uma dimensão corpórea, há algo do desejo que satura e se faz letra. Por isso, interagindo com os enunciados deixados de Camões, pensamos que ele, em certos usos e posições sociais de fala, nunca foi tão contemporâneo.

Assim, o que propusemos ao conjunto de pesquisadores aqui reunidos foi incomodar seus corpos desejantes sobre o ”nosso tempo” de maneira a fazer ”aquilo que está no pensamento como ideia” saturar como escrita capaz de impulsionar desejos de (O)outros. O que será encontrado a seguir são textos que abarcam a filosofia e a linguagem em interações com questões que acreditamos e fazemos funcionar, performativizar, como do contemporâneo. A pergunta que nos fica, incomodando com prazer intenso e imenso, é: após a leitura, o que mais nosso precário corpo contemporâneo pode querer?

Afetados pelas respostas que recebemos, optamos por dividir o material recebido em três grandes partes. Na primeira parte, interagem as ideias de filosofia, linguagem e literatura. Os dois primeiros artigos são da autoria de Jacob dos Santos Biziak. Em Butler, Derrida e Pêcheux: a (im)possibilidade de (des)construção de um horizonte hermenêutico para ler (com) Saramago, o autor entende que a literatura contemporânea encontrada em Saramago parece empreender movimentos semelhantes aos que encontramos em Derrida e Butler, de forma que as obras sejam lidas em processo dialógico, iluminando fissuras ainda não percebidas, mas não para lhes oferecer correção, e, sim, entendendo-as, também, como integrantes do processo de leitura das mais diversas ficções, inclusive as do ”eu”. Já em Enunciação, memória e gêneros sexuais: hibridismos de análise e de construção diegética em História do cerco de Lisboa, de José Saramago, Biziak propõe, a partir da crítica da presença da enunciação dentro da ficção romanesca, pretendemos, enfim, pensar como a relação com a memória, com o interdiscurso, ajuda a ler a construção dos gêneros sexuais, a partir deste diálogo proposto com a literatura contemporânea: no caso, o romance História do cerco de Lisboa (2003), de José Saramago. Jaison Luis Crestani, em A apropriação do diálogo luciânico em “Filosofia de um par de botas”, de Machados de Assis, pretende demonstrar como Machado de Assis, por meio da filiação a esse legado, suplantou a visão conformada de suas primeiras obras e instituiu uma nova elocução artística, pautada pela deliberada apropriação paródica de modelos literários anacrônicos, pela irreverência humorística e por uma visão de mundo paradoxal e desconcertante. Com A composição do heterodiscurso nas narrativas de ficção: a expressão de certo tipo rural na literatura brasileira, Kátia Cilene Silva Santos Conceição apresenta uma discussão sobre o processo de apropriação dos conceitos das formas composicionais de inserção e organização do heterodiscurso e a elaboração literária das estratégias discursivas em obras literárias que tratam da representação da figura do homem rural brasileiro, escritas no final do século XIX e início do século XX. Fernando de Moraes Gebra, no capítulo Alfredo Guisado e a “sombra incerta” nos interstícios dos duplos, a partir da obra do mencionado poeta lusitano, apresentam algumas questões, principalmente acerca do desdobramento de personalidade, relacionado a uma problemática existencial, uma vez que o sujeito se duplica a partir de um mecanismo de ilusão para assegurar a sua existência. Guilherme Cadaval, no texto Blanchot Derrida Cortázar… uma conversa, propõe que o que nomeia filosofia e literatura apontaria para o espaço entre que é sem nome e sem lugar. Com isso, Derrida talvez se aproxime disto que Blanchot chama ”o incessante e o intermin{vel”: aproxima-se estranhamente, impondo-lhe um termo que se suporia nada terminar, nada estabelecer, apenas como se prestando testemunho da infinidade de uma tarefa. Ao fim da parte 01, Filipe Marchioro Pfützenreuter (Teologia da prosperidade e evangelhos canônicos: o discurso que se constrói na ausência do leitor), analisando a Bíblia exclusivamente como obra literária à luz dos Estudos Comparados entre Teologia e Literatura, propõe-se a confrontar os princípios da Teologia da Prosperidade com os ensinamentos e atitudes do cristo bíblico, personagem que supostamente seria o seu paradigma de fé, com o intuito de averiguar se os evangelhos canônicos dão conta de fundamentar tal teologia.

Na segunda parte, sobre as possíveis dialogias entre linguagem e filosofia, Nathan Menezes Amarante Teixeira, com Literatura, filosofia e as ambigüidades do existir em Simone de Beauvoir, caracteriza propriamente como Simone de Beauvoir concebe a escrita literária, qual o lugar que estas considerações ocupam no quadro geral de seu pensamento, assim como em que medida tais considerações apontariam para um fazer filosófico mais afinado a essa ambiguidade vivida concretamente, tal como a própria filosofia de Beauvoir. Isabela Pinho, por meio do A linguagem e a morte: algumas considerações a partir de Giorgio Agamben, lembra, de início, que o que a obra de Agamben vem mostrar é que, se o humano é constitutivamente marcado por uma fratura entre a linguagem que o define como tal e a língua na qual ele se expressa e se comunica, ele é constitutivamente marcado por uma negatividade. Há, portanto, uma relação entre fala e falta, pois ao falar, o humano está permanentemente em falta, em débito, com aquilo que o define e o constitui enquanto tal: ser o vivente que possui linguagem. Victor Galdino Alves de Souza, com O que pode a linguagem da filosofia? Jogos de linguagem e espectros de Wittgenstein, nos faz pensar que Sempre houve (na história da filosofia) quem defendesse que as pessoas ‚comuns‛ estivessem usando a linguagem de modo equivocado (por falta de uma apreensão filosófica qualquer sobre o que há por trás de nossa linguagem ou experiência cotidiana), ou que a própria linguagem das pessoas ”comuns” seria fundamentalmente insuficiente (por‖não‖poder dizer o que deveria dizer). Essa normatividade e hierarquização de linguagens coloca em jogo uma série de questões sobre o papel da filosofia: Ela deve se ocupar de esclarecer o uso que fazemos da linguagem? Há algo a ser explicado? Caso haja, esse algo está oculto e depende de filósofos para se manifestar? O uso ordinário da linguagem nos engana ou ilude de algum modo fundamental? Aqui entra em cena o próprio Wittgenstein, como um outro de si mesmo‛. Carla Rodrigues, em As tarefas do filósofo, convoca o pensar sobre a linguagem a partir da associação entre Benjamin – para quem ela não é nem origem do mundo, nem meio ou instrumento através do qual se pode falar sobre o mundo, mas é possibilidade de nomear e criar mundo – e Derrida – o qual retoma o impasse benjaminiano para problematizar o ideal de original, origem, originário, e pensar que estar na linguagem é estar apartado da possibilidade de origem. Finalizando esta parte 02, Rafael Haddock-Lobo, no intenso Que “corpo” é esse de Preciado? (Ou que corpos depreciados sãoe sses?), aceita o desafio que se apresenta não apenas na complexidade das referências que ganham corpo na teoria contrassexual, sobretudo quando nos preocupamos em tratar do problema da materialidade dos corpos. Derrida, Foucault, Butler, Wittig, Haraway, Despentes, Deleuze, Artaud, e outras e outros, se encontram nessa encarnação de retalhos que é o Manifesto contrassexual.

Encerrando este volume, a parte 03, fazendo interagir linguagem, filosofia e discurso, Mônica Graciela Zoppi-Fontana, com Selfies e efeitos de evidência: eu político ou avatar militante?, ocupa-se de certas modalidades de enunciação presentes nas redes sociais que se caracterizam por (in)corporar constitutivamente uma representação imagética do locutor: vamos tratar de diversos funcionamentos do selfie, como dispositivo de enunciação na rede e, principalmente, em relação ao exercício de uma prática militante de reivindicação de direitos. Cristiane Pereira Dias, em Corpo, cidade e resistência na dança dos sentidos, da perspectiva discursiva de espaço, pensado através do discurso, propõe-se olhar para o corpo da e na cidade em movimento de interdição, regido pelos modos de administração do corpo no espaço. Pretendo olhar para a cidade em seu fluxo contido, estancado. Olhar para a cidade, naquilo que consiste à regência do seu movimento por formas de enquadramento “coreografadas”. Roberta Poltronieri e Soraya Maria Romano Pacífico, por meio de Festas de aniversário na infância: Sentidos em movimento nas formulações escritas de crianças do ensino fundamental I, apresentam artigo analisa e discute, com base na Análise de Discurso pecheuxtiana, recortes de textos que apresentam o relato pessoal sobre a festa de aniversário produzidos por crianças que cursam o 5° ano do Ensino Fundamental em uma escola pública no interior do Estado de São Paulo. Fernanda Luzia Lunkes, Arte e(m) espaço(s): questões e perspectivas discursivas, afirma que “Este texto, em grande medida, busca apontar para alguns gestos de leitura possíveis ao longo do empreendimento nessa frente de trabalho que, conforme se verá, produziu diferentes demandas e propostas, bem como impôs alguns limites. Trazer à cena analítica um projeto em execução, que busca circular em diferentes espaços (da escola e de saúde), o que envolve diferentes instituições, diferentes sujeitos e diferentes conjunturas políticas, implica também compreender que algumas questões demorem ou jamais encontrem respostas. Trata-se de um silêncio nebuloso, por vezes bastante incômodo, com o qual o analista também precisa lidar em um projeto desse porte”. As autoras Maria Beatriz Ribeiro Prandi, Dantielli Assumpção Garcia e Lucília Maria Abrahão e Sousa, no capítulo As mulheres do/no sertanejo e sua voz: efeitos de dizer ou de silenciar?, nos provocam a pensar, da perspectiva teórica da Análise de Discurso francesa, mobilizando as noções de posição-sujeito (PÊCHEUX, 1997) e voz (SOUZA, 2013; DOLAR, 2014), como a mulher ocupa diferentes posições (cantora/compositora) na música sertaneja e passa a se significar no cenário sertanejo a partir dessas posições. Ao final da parte 03, Lucília Maria Abrahão e Sousa, Solange Puntel Mostafa e Dantielli Assumpção Garcia, no artigo L’événement chez Michel Pêcheux et Gilles Deleuze: contributions au champ de l’information, articulam Pêcheux e Deleuze para realizar uma análise da exposição sobre Jorge Amado no Museu da Língua Portuguesa e incentivar o debate teórico entre os dois teóricos citados.

Enfim, a consistência dos trabalhos aqui reunidos provocam nossos corpos a desejar que o leitor que este volume venha a encontrar sinta-se “com a alma transformada”, pronto a pensar e fazer efeitos de contemporaneidade.

Boa leitura!

Jacob dos Santos Biziak

Carla Rodrigues

(organizadores)

Maio de 2018

1- AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Trad.: Vinicius Nicastro Honesko. Chapecó, SC: Argos, 2009.

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