O que podem as licenciaturas em tempos de crise? (im)possíveis respostas do Instituto Federal do Paraná, campus Palmas

ISBN 978-65-86101-37-9

Autor/Organizadores: Jacob dos Santos Biziak; Daiane Padula Paz

PREFÁCIO

Agradeço a gentileza do Professor Jacob dos Santos Biziak e da Professora Daiane Padula Paz, ao me convidar para redigir o prefácio dessa obra que tanto me inspira, me faz relembrar e acreditar no papel social dos Institutos Federais diante ao desafio de promover um ensino de qualidade integrado com as demandas da sociedade e do setor produtivo de modo que possa contribuir para o crescimento socioeconômico local, regional e nacional. O convite me dá ensejo em destacar que o livro, além de explicitar as possibilidades formativas dos licenciados em diferentes áreas, apresenta uma concepção de ensino e aprendizagem (que pode ser conferida em cada artigo ao desnudar várias linhas de investigações, resultados de pesquisas e de produções) alicerçada na responsabilidade de formar professores comprometidos com uma formação crítica, reflexiva e humanizada a qual possibilite que – por meio de suas práxis educativas e visões de mundo – possamos deparar com profissionais de posicionamentos e intervenções politizadas e conscientes perante a realidade social.

O eixo norteador dos artigos deixa claro que o trabalho realizado pelos cursos de licenciaturas tem como função principal promover a humanização dos alunos em suas máximas potencialidades, amparando o processo formativo em estudos apoiados num consolidado referencial que sustente a prática pedagógica, visando à potencialização do desenvolvimento humano, formação crítica e participação social. Destaca também, que paralelo ao zelo com o processo formativo desses licenciados – ao garantir uma formação alicerçada em uma teoria que dê base científica para analisar, refletir, responder e atuar diante aos desafios da sociedade contemporânea e do seu cenário de grande desigualdade e crises econômicas – há uma nítida e consistente preocupação do Instituto Federal do Paraná/ IFPR (Câmpus Palmas) com o arranjo local e com propostas que possam intervir no desenvolvimento econômico da cidade já que, em relação ao Paraná, Palmas é socialmente uma das cidades com IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) mais baixo do Estado.

A gênese da organização da obra trata-se de apresentar pesquisas subsidiadas em conceitos essenciais à compreensão do desenvolvimento do sujeito de modo que os licenciados possam interferir no cenário educacional promovendo o máximo desenvolvimento humano na escola e, ao mesmo tempo, vinculando sua atuação com o papel social, missão e valores do instituto federal que é promover a educação profissional e tecnológica, pública, de qualidade, socialmente referenciada, por meio do ensino, pesquisa e extensão, visando à formação de cidadãos críticos, autônomos e empreendedores, comprometidos com a sustentabilidade (PDI-IFPR, p.18).

Guiando-se pelo envolvimento de formar indivíduos críticos e que sejam capazes de produzir conhecimentos a partir de uma prática pautada com sua própria realidade, a proposta educacional evidenciada nos textos demonstram um claro alinhamento com a Pedagogia Histórico Crítica que é tributária da concepção dialética e entende a educação como o ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens. (SAVIANI,2008)

A concepção de educação e formação dos licenciados no IFPR- Palmas é entendida como mediação no seio da prática social global. A prática social se põe, portanto, como o ponto de partida e o ponto de chegada da prática educativa. Daí podemos equiparar o processo formativo desenvolvido na instituição com a PHC (Pedagogia Histórico- Crítica) que decorre um método pedagógico que parte da prática social onde professor e aluno se encontram igualmente inseridos, ocupando, porém, posições distintas, condição para que travem uma relação fecunda na compreensão e encaminhamento da solução dos problemas postos pela prática social, cabendo aos momentos intermediários do método identificar as questões suscitadas pela prática social (problematização), dispor os instrumentos teóricos e práticos para a sua compreensão e solução (instrumentação) e viabilizar sua incorporação como elementos integrantes da própria vida dos alunos (catarse). (SAVIANI, 2008, p. 185).

Por se tratar de uma obra engajada com a formação dos alunos e com a inserção crítica e intencional dos mesmos na prática social, nota-se ao longo dos textos o entendimento de formação humana vincula-se a um ser de natureza social, histórico e cultural, o que significa dizer que suas qualidades humanas (habilidades, aptidões, capacidades) – vão sendo desenvolvidas e lapidadas à medida que pensam e atuam sobre a realidade.

Em sintonia com os pressupostos de Leontiev (1978), as aptidões psíquicas que se formam no ser humano resultam de sua atividade de apropriação da cultura e da interação do indivíduo em seu meio social. Assim, os conhecimentos socialmente construídos permanecem nos objetos da cultura fazendo parte do nosso processo de humanização que refletirá em instrumentos, na moral, na ética, na ciência, nos costumes, nos objetos e nas ações. Com base nesse apontamento, a instituição escolar é concebida como lugar de desenvolvimento do aluno que visa à formação do conhecimento científico, superando o conhecimento cotidiano.

Pautado nesse entendimento, os textos vão apresentando possibilidades de atrelar uma proposta educativa crítica com a formação do cidadão trabalhador, ético, crítico, autônomo, reflexivo, consciente de seu papel social e histórico. As licenciaturas em suas diferentes áreas , além de manter a ciência, cultura e formação histórica e social como eixo central do processo formativo, projetam seus esforços na construção de sujeitos que se posicionem como agentes políticos que compreendem sua realidade sendo capazes pensarem e atuarem em prol das transformações políticas, econômicas, culturais e sociais necessárias para a construção de uma sociedade mais democrática, inclusiva e menos desigual; como o caso do município onde se encontra a instituição referida na obra.

Os textos que compõem o livro destacam de forma clara e objetiva que a função da escola e do processo educativo é mediar a apropriação da cultura por meio de uma relação de colaboração e não de autoridade, mas ressaltando a importância do protagonismo do professor enquanto provedor elementos culturais e do conhecimento científico mais elaborado; aquele que desafiará o pensamento e a consciência do aluno proporcionando situações de desenvolvimento. (VYGOTSKI, 1988, p. 114)

A obra carrega consigo também a preocupação em promover atividades educativas humanizadoras, que possibilitem ao sujeito a apropriação e o desenvolvimento das qualidades humanas em suas máximas possibilidades. Desta forma, os textos ao explicitar suas pesquisas e resultados demonstram total rigor e preocupação nos processos de planejamento das atividades, discussões sobre as tomadas de decisões, escolhas, levantamento de hipóteses e reflexões que possibilitam ao grupo de alunos, professores, comunidade e demais envolvidos na construção do conhecimento científico e nas possiblidades de transposição dos mesmos em produtos e ações que possam contribuir diretamente com o arranjo produtivo local e suas demais demandas. (LEONTIEV, 1988.)

Tendo em vista a compreensão do papel da educação escolar e do trabalho educativo desenvolvido no Instituto Federal do Paraná (IFPR) campus Palmas, nota-se que a PHC se materializa ao explicitar a concepção de professor como aquele que estabelece uma relação consciente com o significado de sua atividade e com o seu papel social. Outro elemento da Pedagogia Histórico Crítica presente no livro, é o compromisso histórico de preparar as novas gerações à demanda tanto no que se refere à formação do educando como indivíduo singular, em ações produção e reprodução da própria sociedade. Assim, a categoria de trabalho educativo, concebido como “o ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens” (SAVIANI, 2003, p. 13) sintetiza e apresentada a riqueza e complexidade que envolve essa atividade de formação docente na instituição.

Por fim, é necessário ressaltar que o leitor encontrará nessa obra resultados de pesquisas e trabalhos realizados nos cursos de licenciatura que procuram fortalecer a missão social dos Institutos Federais e construir uma identidade de profissionais da educação que compreendam os fenômenos humanos e sociais em sua totalidade. Fazendo com que os problemas que se apresentam em seu município e região se façam parte das práticas educativas que devem ser investigadas, analisadas e compreendidas à luz da perspectiva histórica e crítica. (SAVIANI, 2002)

Profa. Dra. Michele Cristine da Cruz Costa

Doutora em Educação pela UNICAMP (sob orientação de Dermeval Saviani) – Professora do Instituto Federal de São Paulo, Câmpus Sertãozinho

REFERÊNCIAS

ARCE, Alessandra. “Compre o kit neoliberal para a educação infantil e ganhe grátis os dez passos para se tornar um professor reflexivo”. In: Educação & Sociedade. Campinas, ano XXII, n. 74, p. 251-283, abril/2001.

DUARTE, Newton. Vigotski e o “aprender a aprender”: crítica às apropriações neoliberais e pós-modernas da teoria vigotskiana. Campinas: Autores Associados, 2001.

LEONTIEV, Alexis. O homem e a cultura. O Desenvolvimento do Psiquismo. Ed. Horizonte Universitário, 1978.

LEONTIEV, A. N. Uma Contribuição para a Teoria do Desenvolvimento da Psique Infantil. In: VYGOTSKY, L.S. e outros. Linguagem, Desenvolvimento e Aprendizagem. S.P: Ícone/Edusp, 1988.

SAVIANI, Dermeval. Pedagogia Histórico-Crítica: primeiras aproximações. 10 ed., Campinas, SP: Autores associados, 2008

Deixe uma resposta