Outros olhares para a matemática: experiências na educação infantil

ISBN: 978-65-86101-75-1
eISBN: 978-65-86101-81-2

Autor/Organizadores: Priscila Domingues de Azevedo; Klinger Teodoro Ciríaco

PREFÁCIO

“Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo

E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo

Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva

E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva

Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel

Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu…”

(Vinicius de Moraes, Toquinho, Guido Morra e Maurizio Fabrizio)

E com cinco, seis… quinze mentes brilhantes se cria em 2010 o Grupo de Estudos e Pesquisas “Outros Olhares para a Matemática” – GEOOM –, guiado pela sensibilidade de Priscila. Constitui-se em um espaço de formação pautado no trabalho colaborativo, no qual o professor é considerado um produtor de conhecimento e, portanto, compartilha seus conhecimentos profissionais e socializa suas práticas diante do desafio de educar na infância.

Cada “pinguinho de tinta” que cai no papel gera narrativas produzidas por educadoras de infância que discursam sobre ações pedagógicas envoltas em jogos, brincadeiras e literatura infantil. E com elas se faz o castelo – a construção coletiva e colaborativa de crianças que estão aprendendo a ler o mundo em que vivem. Estão aprendendo a se comunicar e a interagir com um universo que as traz de volta de suas aventuras no mundo imaginário.

Essas professoras pesquisadoras e autoras descortinam suas salas de aula e evidenciam que as crianças vibram em dialogar com o conhecimento matemático que as auxilia a desvendar suas culturas e seus espaços físicos.

Práticas pedagógicas críticas na educação infantil são conscientes de um espaço educacional de respeito à infância e sem medo do desejo infantil das crianças de entender o mundo e a si mesmas. Requerem ações pautadas no conhecimento e nas intuições que a criança traz à escola. Na perspectiva freiriana, ensinar exige criticidade, pois, da mesma forma que me permito, como professor, superar a curiosidade ingênua, ao olhar-me criticamente, passo a pensar certo e transito para a curiosidade epistemológica.

Nesse percurso pela curiosidade epistemológica o GEOOM vem construindo sua história ao longo de uma década, ressaltando o valor da profissão docente.

Neste livro organizado por Priscila e Klinger, as educadoras Ana Carolina, Danitza Gabriella, Jussara, Karina, Karla, Lucimara, Maria Claudia, Sandra, Sandra Regina e Waldirene socializam práticas ímpares, demonstrando que o estudo teórico ocorrido no GEOOM lhes permite redimensionar suas práticas e exercer ousadia pedagógica atrelada à criatividade. Nas narrativas escritas por elas, identificamos a socialização de aprendizagens docentes e a diversidade de propostas pedagógicas e de temáticas envolvendo Matemática.

Inicialmente, Lucimara nos relata o trabalho que realizou com as crianças na exploração das formas geométricas. Por meio da leitura do livro As formas e as cores: quadrinhas dos filopatas, elas puderam descobrir que cada forma tem um nome específico e foram observando suas características. Desenvolveram sua criatividade, criando suas próprias obras de arte, percebendo que podiam brincar com formas, compondo-as e decompondo-as.

E, por falar em criar e brincar, Waldirene conta que a brincadeira de amarelinha é um momento especial para aprender contagem e reconhecer algarismos, além de desenvolver a visão espacial, a coordenação motora e a lateralidade. A exploração da representação pictórica da amarelinha como um registro coletivo das crianças amplia a compreensão sobre o espaço a ocupar durante o jogo e lhes permite interagir melhor com as regras.

Sandra opta por relatar sobre o trabalho com tempo e espaço, no qual convida as crianças a mergulhar por meio de brincadeiras que educam e as auxiliam a situar-se nos contextos em que vivem. A investigação sobre a brincadeira de pular corda permitiu às crianças aproximar-se das noções temporais e coordenar as ações motoras, percebendo a potencialidade de seus corpos físicos.

Gabriella elege inserir as crianças em investigações, de forma a problematizar e a buscar soluções, como reais protagonistas em seu processo de aprendizagem pautado em explorações do mundo real e também do universo imaginário e lúdico. O trabalho com representação gráfica como registro de informações coletadas permitiu achegar os alunos às ideias estatísticas.

Em sua narrativa, Danitza, imersa em uma turma de berçário, ousa desenvolver jogo e brincadeira para despertar o conhecimento matemático e promover noções de espaço e forma. Com crianças na faixa etária de 11 meses a 1 ano e 4 meses, ela vivencia a aventura de jogos de quebra-cabeça com duas peças grandes, com foto de cada bebê da turma. Que maravilha!

A diversidade de tamanhos, pequeno, médio e grande exige comparações. Então, Jussara, em sua explanação, utiliza uma história infantil. Para contá-la faz relação entre o tom da voz e o tamanho dos personagens. E cada etapa dessa contação de história envolve as crianças em indagações que lhes trazem aproximações ímpares ao conhecimento matemático.

E o contar histórias para desvendar o mundo real e imaginário continua, com Ana Carolina historiando que provocou a curiosidade de crianças de 5 anos, por meio da caixa de histórias, com Meu dente caiu!, levando-as a registrar e organizar dados.

E o amor entra em pauta na descrição de Karina, ao trabalhar com uma história de dois coelhos, que são pai e filho. Um diálogo que permitiu aos alunos discutir ideias matemáticas envolvendo medidas e conhecer instrumentos de medidas, além de aprenderem sobre a representação gráfica de diferentes tamanhos.

Maria Claudia encaminhou 15 crianças ao trabalho sobre os Sete patinhos na lagoa, para desenvolver o processo de contagem e a representação gráfica, mas esse estudo tornou-se especial, pois contou com a dramatização da história.

E lá vêm Karla e Waldirene, que revelam um trabalho fantástico com 15 crianças de idades entre 1 e 2 anos, que conheceram O grande rabanete, uma história infantil que, contada com múltiplos recursos, possibilitou aos pequenos desenvolver as noções de sequência, memória e registros, em riscos e rabiscos repletos de significados.

Sandra, no desenvolvimento do projeto “A diversidade nos une”, despertou a curiosidade das crianças pelo tamanho de árvores, e elas quiseram saber o que era um tronco gigante. Isso remeteu à busca do uso de instrumentos de medidas, convencionais ou não, mas que me permitissem conhecer tamanhos.

Todos os relatos expressam a sensibilidade e o comprometimento das educadoras, que não querem que as crianças apenas aprendam – elas buscam o desenvolvimento social, cognitivo e emocional de pequenos/grandes seres humanos. Elas os inserem em um espaço formativo que, centrado na problematização, na interação e na cooperação, conduz a construção coletiva do conhecimento e propicia, por meio do respeito à infância, uma educação como prática da liberdade, recomendada pelo nosso querido Paulo Freire. Pautada no diálogo, na comunicação, numa relação que possibilita o desenvolvimento de uma consciência crítica sobre si, sobre o outro e sobre o mundo no qual vive, permite que esse sujeito que aprende o faça de forma compromissada e possa estar no mundo e mover-se guiado pelo respeito humano, pela ética, pela justiça social, pela equidade e pela solidariedade.

Nosso planeta Terra enfrenta atualmente uma pandemia. Um vírus com rápida transmissão percorre todas as nações e redimensiona a vida humana, reinventa o convívio social e faz as pessoas ansiosas por voltar ao que consideram normalidade. Entretanto, creio que nosso Globo nunca mais será o mesmo e exigirá, de nossas crianças, ideais e valores distintos dos nossos, para construir uma “nova casa”.

Celi Espasandin Lopes[1]

Maio de 2020

  1. Professora Titular do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática da Universidade Cruzeiro do Sul e Professora Titular do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Cidade de São Paulo.

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