Covid-19: a gramática do inimigo

ISBN: 978-65-87645-00-1

Autor/Organizadores: Vicente de Paula da Silva Martins

À GUISA DE APRESENTAÇÃO

Covid-19, parasita intracelular, um inimigo invisível. Doença causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, o vírus nos obriga a lutar sem armas. Sentimo-nos encurralados diante de um vírus causador de infecção respiratória e da pandemia em curso, que impiedosamente ceifa vidas e faz estragos imprevisíveis no sistema de saúde e mercado financeiro mundial.

Em meio à pandemia, descobri que, para abrandar a sensação de reclusão ou isolamento social, escrever textos para discussão ao longo dos dias, mesmo sem destinatários específicos, foi uma “forma de não deixar a chama da existência apagar”, como diria meu amigo José Paulo Morteira da Fonseca (RJ), escritor, poeta, ensaísta, teatrólogo, pintor e crítico de arte, com quem troquei, via postal, intensa correspondência nos anos 80, ainda estudante do Curso de Letras na Universidade Estadual do Ceará (UECE), em Fortaleza. Após ler seu Elegia Diurna (1947) e Poesias (1949), passei a classificá-lo como um dos poetas da Geração de 45, enquadramento neoparnasiano que ele me dizia não concordar inteiramente comigo.

Bem longe dos anos dos 80, trocar ideias e opiniões com poetas e escritores, por correspondência postal, tornou-se algo raro atualmente. Por isso, tenho recorrido às mídias sociais, líquidas e instantâneas, para construir novos vínculos na área educacional, especialmente a de Letras. Após o Decreto Legislativo nº 6/ 2020, que reconheceu a ocorrência do estado de calamidade pública, e sem poder dar continuidade às minhas aulas presenciais na Universidade Vale do Acaraú (UVA), em Sobral, senti-me estimulado a voltar escrever e a divulgar no facebook e em sites com publicações sem custo, textos com temas variados na área de atuação profissional.

Os primeiros textos, a que denominei “textos para discussão”, receberam boas críticas ou, ao menos, as reações foram positivas quanto às temáticas abordadas por mim, em linguagem bem informal e simples. Citaria aqui, os comentários de Margarita Correia, docente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que considerou os textos como “ Bom material para aulas de lexicologia” e os do linguista e tradutor, meu amigo, Adail Sobral, docente Universidade Federal do Rio Grande (FURG), que, ao se referir a um dos meus textos sobre o deboche bolsonariano, reagiu assim “ Deboche absolutamente espontâneo que revela o perfil do enunciador, insensível e sem qualquer empatia ou sentido do cargo.”

Não reuniria esta coletânea de textos para discussão sem a leitura compartilhada de muitos colegas da área e alunos de graduação (Letras, Pedagogia, Sociologia etc). Assim, não posso deixar de agradecer, publicamente, de maneira muita carinhosa e fraterna, ao meu amigo Valdemir Miotello, editor e linguista, docente aposentado do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), enfim, um “camarada” com uma firme e saudável disposição para cultivar as coisas do espírito. Miotello, depois que se aposentou, parece-me que aumentou seu volume de trabalho e não aceita, nessa condição de aposentado, depor as luvas e continua profissionalmente atuando de forma muito ativa no meio acadêmico, com especial dedicação aos estudos bakhtinianos e líder do Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso – GEGe/UFSCar. Sou muito grato às palavras edificantes e encorajadoras de Miotello, praticamente diárias, através do whatsApp, durante esse período de pandemia e não posso também deixar de mencionar seus sedutores (e bem-humorados) estímulos para continuar a escrever como estratégia de sobrevivência nesse “novo normal”, marcado com tantas incertezas e inquietações humanas.

Ao todo são seis textos que trago à baila. Estão dispostos, por ordem cronológica. O primeiro deles é sobre “Covid-19, um inimigo declarado ou um velho conhecido?”, em que me debruço um pouco sobre o termo médico ou acrônimo à luz da terminologia, lexicografia e classificação gramatical. O segundo texto refere-se a umas das respostas do presidente Jair Bolsonaro aos repórteres que cobrem o Palácio do Planalto sob o título “A fraseologia do deboche. E daí?”. O terceiro texto resultou de uma atenciosa leitura que fiz da Folha de São Paulo e constatar o uso frequente da preposição “ante”. Assim, fiz uma coleta das principais ocorrências com a referida preposição durante este período de pandemia e acabei gerando um texto com rico exemplário da preposição “ante”. No quarto texto, voltei minha atenção ao calão palaciano e escrevi sobre “Palavras de baixo calão em meio à Pandemia do coronavírus”.

No mesmo ritmo de exploração de classes fechadas da língua portuguesa, surpreendeu-me que o pronome relativo “cujo”, na escrita, sobretudo em jornais de grande circulação nacional, é muito frequente nas matérias jornalísticas, especialmente em artigos de opinião. Assim, intitulei o texto sobre o relativo de “Um estudo acerca do pronome “cujo” e suas flexões no contexto de pandemia do novo coronavírus”.

O último texto denominei de “Os “coprologismos” da reunião ministerial: “porra” e seus correlatos”. Como linguista, sei que os palavrões fazem parte dos universais das comunidades linguísticas e como já bem escreveu Hélio Schwartsman (Folha de São Paulo, em 8/05/2020), “Não há idioma que não conte com um arsenal de palavras-tabu”; mas, no fundo, busquei e busco uma resposta para esta questão relacionada aos tabuísmos: afinal, por que brasileiros, governantes ou não, xingam tanto?

Vicente de Paula da Silva Martins
Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA),
em Sobral

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