Guia teórico para o estudo da fraseologia portuguesa

ISBN: 978-65-86101-99-7

Autor/Organizadores: Vicente de Paula da Silva Martins

A FRASEOLOGIA PORTUGUESA

Tenho o prazer e a honra de realizar o prefácio da obra Guia Teórico para o Estudo da Fraseologia Portuguesa para Vicente Martins, desde 1994, professor de Linguística, Fonética e Fonologia, Aquisição de Línguas e Língua Portuguesa na Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) em Sobral.

O presente trabalho, que revela alto grau de maturidade, é amplamente nutrido pelo conhecimento adquirido no período de doutorado (2010-2013) de seu autor, que culminou em uma brilhante tese de doutorado em pesquisa psicolinguística sobre os processos de compreensão de expressões idiomáticas por estudantes africanos lusófonos, tese dirigida por minha amiga e renomada fraseologista Rosemeire Selma Monteiro-Plantin, da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Este livro é uma amostra da vitalidade que a Fraseologia está adquirindo além da Europa, especificamente em português do Brasil. Os dois congressos internacionais de Fraseologia e Paremiologia realizados respectivamente em Brasília (2011) e Fortaleza (2013) atestam o enorme impulso que esta disciplina linguística está recebendo neste país, o que também explica a formação de uma Sociedade Brasileira de Fraseologia e Paremiologia em 2013. Com esses dados em mãos, podemos afirmar, sem medo de errar, que a Fraseologia do Português Brasileiro é um propulsor dentro do território ibero-americano e superou em muito a etapa de pesquisa em português europeu.

Tudo isso significa que a Fraseologia Portuguesa não é mais “o patinho feio” da Linguística, para usar uma metáfora de Rosemeire Selma Monteiro-Plantin.

A obra de Vicente de Paula da Silva Martins se destaca por vários aspectos dignos de menção detalhada. Em primeiro lugar, soube conciliar a tradição fraseológica europeia, especialmente a proveniente da Espanha, com correntes linguísticas estabelecidas como o estruturalismo e, em menor grau, com a linguística cognitiva, bem como com as teorias dos mais renomados pesquisadores da Fraseologia Brasileira. Desse modo, os critérios de definição estabelecidos para as fraseologias de “polilexicalidade”, “fixação”, “idimaticidade” e “convencionalização” são mostrados a partir de uma perspectiva conciliatória de várias correntes linguísticas e autores de diferentes procedências geográficas e tradições linguísticas. Tudo isso faz desta obra uma magnífica síntese do estado atual da questão dos estudos fraseológicos no Brasil, servindo como guia teórico para todos os leitores interessados em aprender sobre as peculiaridades das unidades fraseológicas do português brasileiro.

De forma muito especial, cabe destacar a contribuição do trabalho de Vicente de Paula da Silva Martins para o estudo da cultura fraseológica do português brasileiro. Nesse sentido, vale ressaltar que, no português do Brasil, entre 3.000 e 4.000 palavras de origem africana sobrevivem dentro da variedade oral, segundo dados do próprio autor. Esse fato coloca o português brasileiro em uma posição privilegiada para o estudo de culturemas, não apenas do ponto de vista intralinguístico, mas também contrastante em relação à variedade europeia de português. Por esse motivo, considero que o trabalho de Vicente de Paula da Silva Martins completa parte de uma lacuna de estudo muito importante que deve ser aprofundada dentro e fora do Brasil, uma vez que a análise do culturema pode ajudar a entender o valor da imagem e o significado da imagem, a opacidade no processo de compreensão das unidades fraseológicas por falantes não nativos.

Para concluir, e em consonância com o exposto, considero que esta obra representa um importante passo adiante na pesquisa fraseológica do português brasileiro, e não apenas por saber como sintetizar e implementar teorias desenvolvidas em outros idiomas, como o espanhol em português ou francês, mas também por abrir novos campos de estudo. Com isso, estou me referindo ao interessante campo dos culturemas baseados em palavras de origem africana no português do Brasil, estudos que, com a ajuda da Linguística Cognitiva, podem eventualmente produzir resultados interessantes. O valor deste trabalho se torna ainda mais evidente se considerarmos que sua metodologia de estudo também pode ser aplicada a outras variedades diatópicas da América Latina com um forte componente estrangeiro ou indígena em seus respectivos vocabulários, como ocorre em muitas das variedades de espanhol faladas na América Latina.

Carmen Mellado Blanco
Universidade de Santiago de Compostela (Espanha)

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