Autoria e plágio em debate

ISBN: 978-65-86101-95-9
eISBN: 978-65-87645-03-2

Autor/Organizadores: Ananias Agostinho da Silva

APRESENTAÇÃO

Era fevereiro de 2019 quando começamos uma disciplina chamada de Tópicos Especiais I – Escrita acadêmica: gêneros, autoria e normatização no curso de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ensino (POSENSINO) – resultante de uma associação ampla entre três instituições de ensino superior do Rio Grande do Norte, a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), a Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN). A intenção da disciplina era tratar sobre conceitos de autoria a partir de algumas abordagens e autores e relacionar a discussão com a noção de plágio, focalizando, principalmente, a sua dimensão danosa, além de discutir sobre aspectos relativos à configuração da escrita de textos acadêmicos.

Num primeiro momento, os alunos ficaram muito engajados com a discussão, porque, como se sabe, na universidade, ninguém quer cometer plágio e todos querem demarcar a autoria em seus textos. Mas o encantamento foi abalado pela seriedade do tema: “desse jeito, é impossível escrever!”, “ninguém é autor, se for assim”, “se não sou o autor dos meus textos, quem é, então?”, “posso cometer autoplágio?”, “mas o texto é meu, eu que escrevi, professor, isso é impossível!”. Essas dúvidas ou reclamações, até, surgiram de maneira emblemática quando começamos a dialogar com Bakhtin, Foucault e Barthes. Mas se a leitura desses autores suscitou incertezas (são eles, pois, autores?), por outro lado, a confluência das discussões despontou a importância relevada que recobria o tema em discussão, sobretudo para a universidade.

Como resultado, portanto, dessas discussões travadas na arena de sala de aula, diversos trabalhos foram desenvolvidos a fim de analisar e compreender questões esses fenômenos da autoria e do plágio. Textos de diversas modalidades e produzidos em circunstâncias variadas foram objetos de análises. A compilação desses trabalhos encontra-se neste breve livro, que apresenta oito capítulos escritos pelos participantes daquela disciplina, mobilizados por um espírito de engajamento, de dúvida, de incerteza e de curiosidade. São capítulos que, a partir de variadas perspectivas teóricas, refletem sobre os desdobramentos de certas práticas de escrita na sociedade, visando entender as nuances da autoria e os conflitos com a questão do plágio. Por isso, o título: Autoria e plágio em debate.

No primeiro capítulo, Ananias Agostinho da Silva reflete sobre a autoria em textos argumentativos produzidos por alunos concluintes do Ensino Médio de uma escola pública do Rio Grande do Norte. Para tanto, o autor analisa os indícios de autoria que afloram da argumentação construída pelos alunos e comentários de correção de professores de língua portuguesa sobre os textos os quais realizou a análise. A ideia do autor é observar como professores avaliam o critério de autoria nos textos produzidos pelos alunos em fase de conclusão do Ensino Médio.

No segundo capítulo, Alison Sullivan de Sousa Alves, Danilo Augusto de Menezes e Rubens Oliveira Dantas refletem sobre o problema do plágio nas feiras de ciências realizadas em escolas da Educação Básica, com destaque para o papel do professor na orientação das pesquisas. Os autores concluem que há, nesse espaço, de fato, uma preocupação por parte dos professores em torno da questão do plágio, os quais têm buscado coibir tais práticas no processo de produção das pesquisas de seus alunos. A instrução, neste caso, se mostra como prática eficaz no tratamento da questão, seja para evitar práticas danosas ou mesmo contribuir com o ensino e a aprendizagem num movimento de (re)construção do saber.

Em continuidade, o terceiro capítulo destaca as percepções de discentes de um curso de licenciatura em matemática sobre a autoria e o plágio. Andréa Morais de Menezes, Augusto Cesar Tavares da silva, Rubson Gomes Martins Ramos, Marcelo Bezerra de Morais e Márcia Maria Alves de Assis buscam responder como se dá o tratamento das questões de autoria e plágio na universidade, sobretudo num curso de ciências exatas. Como resultado deste trabalho, os autores pretendem alertar graduandos em fase de produção de trabalho de conclusão do curso da enorme necessidade de respeitar tanto às regras associadas ao fazer científico, assim como também da importância de atentar-se para perceber pontos relevantes do conhecimento humano como, por exemplo, a ética.

O quarto capítulo, de autoria de Dulcilene Leite de Amorim Morais, Risalva Ferreira Nunes de Medeiros, Maria Isabel Fernandes Costa, Silene Oliveira de Souza Patrício e Paulo Augusto Tamanini, tem como foco a análise do conhecimento, do entendimento e de atitudes realizadas por discentes da Educação Profissionalizante sobre o tema plágio. Esse trabalho destaca-se por tratar de uma modalidade de ensino focalizada muito mais no aspecto técnico do que na formação humanística, mas ambas são atravessadas pela ética como elemento condutor de uma formação integral do ser humano, e, por isso, a necessidade de se evidenciar e fortalecer ações direcionadas para essa temática em diversos públicos escolares.

No quinto capítulo, Valdenízia da Conceição Bezerra e Vicente de Lima-Neto discutem sobre a relevância do trabalho com propostas de produção de documentários no Ensino Fundamental. Os autores destacam o caráter complexo do trabalho com esse gênero audiovisual e a sua potencialidade para o trabalho com recursos tecnológicos e também linguísticos. Por isso, observam, também, como a questão da autoria pode ser trabalhada em propostas com esse gênero, tendo em vista que a produção desse gênero exige critérios como originalidade. É interessante notar que a autoria não compreende uma necessidade exclusiva dos textos escritos na escola em gêneros canônicos, como a redação, por exemplo, mas deve ser constitutiva de todo gênero.

Da tela para as cordas: o sexto capítulo problematiza acerca do plágio e a autoria na literatura de cordel, especialmente na obra do poeta Leandro Gomes de Barros. José Renato Pereira Brasil, Maria Luiza Soares Lopes e Marielly Pereira Alves de Sousa focam a relevância da obra de Leandro Gomes de Barros como um ícone da literatura de cordel da sua época, sendo o cordelista que mais produziu e publicou folhetos e, por isso, as controvérsias envolvendo seu nome e a autoria de seus folhetos. Ao final, os autores mencionam que a problemática atravessa a obra do autor de várias formas, seja porque há inspiração em folhetos europeus ou porque sofreu plágio inúmeras vezes, sendo algumas de suas obras até hoje registradas e atribuídas a outros autores.

O sétimo capítulo possui um caráter avaliativo. Ele trata sobre o plágio a partir das percepções dos alunos cursistas da disciplina ofertada no curso de mestrado citado no início desta introdução. Sabrina da Silva Neves, Maria das Dores Messias de Sousa, Francisco Vieira da Silva e Marcelo Nunes Coelho observam como a disciplina influenciou na formação dos cursistas, atentando para possíveis nas concepções depois dos contatos com a disciplina no decorrer do semestre letivo. Finalmente, no último capítulo do livro, Alysson Leonez de Araújo, Aristeu Antônio Oliveira de Carvalho, Jaelyca Caroline Ferreira de Souza, Lindjanne Mannuelle Maria da Conceição Araújo de Melo e Josélia Carvalho de Araújo analisam o plágio na concepção de alunos do 8º ano escolar do Ensino Fundamental. Os autores refletem acerca das origens da “cultura do plágio” no Ensino Fundamental, frequentemente naturalizadas na prática da “cola” em avaliações e trabalhos escolares. Assim, trata-se de uma importante reflexão que pode apresentar contribuições significativas para a prática de atividades de pesquisa e, com efeito, de produção de textos na escola.

Por tudo isso, convidamos para a leitura deste livro.

Ananias Agostinho da Silva
Angicos, RN
Junho de 2020

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