O uso de conectores e articuladores de coesão na construção do texto à luz da semântica Argumentativa

ISBN: 978-65-87645-06-3

Autor/Organizadores: Roberta Vecchi Prates

PREFÁCIO

Ricardo Stavola Cavaliere

Uma das mais produtivas vertentes dos estudos sobre a linguagem humana no cenário hodierno situa-se no campo da semântica do texto, sucedânea da antiga semântica lexical e mesmo da semântica fraseológica, cujos domínios não ultrapassavam os limites do sistema linguístico. Com as novas teses sobre significado e sentido na arquitetura do texto, dispõe hoje o pesquisador de instrumentos mais seguros para investigar e descrever a tessitura textual em sua integralidade. Nesse mister, uma das conquistas que decerto nos proporcionam este novo olhar sobre as forças semânticas que interagem na produção textual resume-se exatamente em uma renovada concepção do próprio significado de texto, um dos desafios que ainda enfrentam os linguistas, cujo teor passa a levar em conta não só um componente linguístico, como também um componente extralinguístico de amplo espectro e decisivo para o atingimento bem-sucedido das intencionalidades semânticas.

Em face dessa nova ordem doutrinária, que amplia o conceito de texto e projeta um novo olhar para seus elementos constituintes, vêm-se multiplicando os estudos exploradores dessa profícua área de investigação, mormente na forma de teses e dissertações que se renovam a cada ano nos cursos de pós-graduação em linguística e áreas afins, de tal sorte que antigos itens lexicais, já identificados pela tradição gramatical no cenário canônico das classes de palavras, passam a ser reinterpretados quanto a seu papel na estrutura do texto, tanto no tocante à função sintática, quanto aos valores semânticos que encerram. Entre esses estudos, destaca-se O uso de conectores e articuladores de coesão na construção do texto à luz da semântica argumentativa, oferecido por Roberta Vecchi Prates, cujo escopo situa-se em uma atualizada avaliação do papel dos denominados conectores ou articuladores textuais na construção semântico-sintática do texto.

Inspirada por dois eixos paradigmáticos distintos, o da tradição descritiva com fulcro na gramática de base filológica e o cunhado pelas recentes teses da semântica argumentativa, Prates logra avançar com segurança pelos meandros da produção textual para projetar novas luzes sobre essa figura complexa dos articuladores ou conectores de oração, agora desdobrados em operadores de argumento, como quer a nova ordem de abordagem nos estudos semântico-textuais. Como adverte Prates, o falante, na produção do texto, trabalha com a expressão semântica dos conectores, valendo-se da multiplicidade de sentidos que esses itens de coesão expressam, cuja percepção escapou aos olhos da tradição gramatical não propriamente por inépcia ou incipiência, senão pelo próprio escopo de seu modelo teórico, limitado à seara do sistema linguístico. Com efeito, a avaliação escorreita que se deve fazer sobre a eficácia de um dado modelo de investigação linguística há de levar em conta o contexto intelectual em que foi formulada e, sobretudo, a idoneidade de seus resultados em face do seu propósito teleológico. Evidente que não se há de condenar os estudiosos da antiga ordem filológica por não terem avançado à seara dos componentes extralinguísticos do texto, já que esse não era seu propósito, por sinal sequer cogitavam dessa empreitada.

Na articulação orgânica de seu trabalho, Prates inicia com uma conceituação dos conectivos portugueses, perpassando conceitos que os antigos estudos oferecem nessa área, inclusive a distinção que se passou a atribuir entre conectivos propriamente ditos e conectores. Nesse intuito, seu olhar desviou-se para modelos de descrição do português que estão no percurso da gramaticografia brasileira, entre eles o da gramática racionalista e o da gramática científica do século XIX, a par da gramática de base filológica que predominou em boa parte do século XX. Nesse intuito, os itens lexicais que mais se ajustam ao papel de conectivo, a conjunção, a preposição e o pronome relativo, gozam de especial atenção, sobretudo porque serão tais termos os que justamente gozarão de uma renovada avaliação semântica no âmbito da linguística textual vigente no fim de século. Uma figura controversa da tradição filológica, as denominadas palavras denotativas, é igualmente objeto de referência, agora com especial atenção, já que, no apato da antiga ordem, constituem uma classe de exceção que sempre incomodou os mais afeitos à exação da descrição linguística.

Para chegar às conquistas que a semântica argumentativa obteve já em dias contemporâneos, Prates ocupa-se da visão conferida aos conectores no modelo estruturalista, que, como se sabe, cuida do fato linguístico em perspectiva formal, portanto à ilharga dos usos sociolinguísticos. No entanto, esse escopo limitado às fronteiras do sistema logra contribuir decisivamente para que se aprimore o próprio conceito de conector e sua introdução no ensino da língua vernácula, visto que não poucas são as gramáticas publicadas pelos meados do século XX que passam a incluir em suas páginas a noção ampliada de conector em face da noção mais restrita de conectivo. Nesse momento da produção linguística brasileira, evidentemente não poderia a Autora relegar a segundo plano a figura exponencial de Joaquim Mattoso Câmara Jr. (1904-1970), um dos linguistas que mais se debruçaram sobre o conceito de conectivo e de conector na construção do texto.

Em sua reta final, o estudo de Prates desemboca em renovado modelo de abordagem teórica desses itens lexicais, agora no âmbito da denominada semântica argumentativa, optando, nesse intuito, por seguir os passos já trilhados pelo eminente teórico francês Oswald Ducrot. Aqui, os princípios fundamentais do texto como unidade de comunicação esteiam-se no conceito de tese e argumento, aparato teorético que oferece nova e rica abordagem do papel dos conectores, agora metalinguisticamente renomeados como operadores de argumento ou operadores argumentativos. A principal conquista desse modelo revela-se na percepção de que os conectivos não são semanticamente vazios, conforme se supunha em modelos anteriores, e, do ponto de vista sistêmico, frequentemente exercem papéis que não estão propriamente no seio da gramática da língua, senão no terreno mais difuso do texto.

O trabalho de Prates, ademais, não descura de uma avalição detida acerca dos processos de criação lexical que, em plano diacrônico, favorecem a gramaticalização de itens lexicais, de que resulta o contínuo surgimento de conectores ou mesmo operadores de argumento no decurso da mudança linguística. Trata-se de processo resultante da percepção do falante quanto a inexistência na língua de itens lexicais que expressem valores semânticos específicos, de que resulta a necessária transferência de papéis, do léxico para a gramática. Nesse segmento, a Autora oferece vários exemplos de itens lexicais que sofreram o processo de gramaticalização em português, demonstrando que se trata de movimento contínuo e sempre determinado pelo falante em face das necessidades semântico-discursivas.

Em suma, O uso de conectores e articuladores de coesão na construção do texto à luz da semântica argumentativa resume-se em estudo que contribui expressivamente para o melhor entendimento da arquitetura do texto, em múltipla abordagem, revelando-se uma contribuição relevante para a melhor compreensão dos denominados conectores textuais e seu papel discursivo. Nesse aspecto, impõe-se como leitura indispensável para os que se dedicam aos estudos linguísticos, em especial os profissionais de educação que exercem o magistério de língua portuguesa, os quais nele terão apoio para melhor elaboração de aulas de redação ou produção textual, conforme se prefere hoje denominar. Em boa hora, pois, decidiu franqueá-lo ao público o Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem da Universidade Federal Fluminense, de tal sorte que um número maior de leitores interessados tenha acesso a seu conteúdo e dele se valha no desenvolvimento renovado da pesquisa na seara dos estudos linguísticos.

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