Reflexões sobre o ensino de línguas e literatura, formação docente e material didático

eISBN: 978-65-87645-12-4

Autor/Organizadores: Kátia Cristina Cavalcante de Oliveira; Francisca Geane de Albuquerque; Adriana da Silva Araújo; Ana Gláucia Jerônimo de Santiago

APRESENTAÇÃO

A obra “Reflexões sobre o ensino de línguas e literatura, formação docente e material didático” traz discussões fundamentais em torno de três eixos que estão intimamente imbricados no complexo processo de educação linguística. A formação docente traz implicações para o ensino de línguas e para o manuseio e elaboração de materiais didáticos pelos professores. Esses recursos, por sua vez, são a ferramenta de trabalho do professor, orientando-o a determinado tipo de ensino e afetando sua prática de tal modo que pode estabelecer relações de aproximação e/ou distanciamento com sua formação docente, (re)construindo sua identidade profissional em um percurso contínuo. Já o ensino de línguas é o processo que põe em xeque o papel da formação inicial e continuada e os materiais didáticos, seja como instrumentos que devem ser seguidos, seja como instrumentos que podem ser adaptados, considerando as diferentes necessidades dos estudantes e do contexto de ensino.

Os capítulos presentes neste ebook são reflexões advindas das práticas docentes ou das pesquisas recentemente realizadas pelos autores, o que confere aos textos voz de autoridade para falar sobre nuances que envolvem as grandes áreas de estudo acima destacadas. Alguns desses capítulos são resultado das investigações realizadas no âmbito do projeto DINTER-CAPES, que se iniciou no segundo semestre de 2016, com o qual tive a satisfação de contribuir diretamente para sua viabilização no Programa de Pós-Graduação em Linguística (PROLING) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Outros capítulos são de autoria de professores e pesquisadores convidados que já vêm se debruçando sobre as referidas temáticas.

A nosso ver, as principais contribuições da obra repousam na socialização das discussões e resultados de pesquisa; no fortalecimento de investigações nos três eixos destacados; e no desvelamento das inúmeras facetas desse caleidoscópio que é o complexo processo de educação linguística.

O eixo de “Ensino de línguas e literatura” apresenta estudos que se debruçam sobre crenças a respeito de aprendizagem, escrita, orientações curriculares nacionais, propostas didáticas, letramento literário, dentre outros tópicos. O capítulo de Maria Edinete Tomás e Neudene Torres apresenta as principais problemáticas e desafios relacionados ao ensino da literatura no Ensino Médio, no período que se estende da década de 1970 à publicação da Base Nacional Comum Curricular. As autoras realizam uma revisão bibliográfica da crítica especializada e dos documentos oficiais para confirmarem a necessidade de uma formação de leitores embasada em uma perspectiva de “letramento literário” expandido, que considera diferentes práticas de letramento que estão presentes não apenas dentro da escola, mas também fora dela. Assim, a leitura do capítulo promove a reflexão sobre a visão de “objeto literário” assumida pela escola e sobre os procedimentos de ensino e aprendizagem desse “objeto de ensino”.

Em relação ao estudo das crenças, o capítulo de Ana Gláucia Santiago põe em contraposição as ideologias linguísticas do senso comum e dos linguistas sobre o português e as implicações de ambas para o ensino. Ao discutir sobre essas ideologias, a autora destaca, por um lado, o ideal de uma língua homogênea, e, por outro, a heterogeneidade das línguas. Essa discussão também traz à baila os atores responsáveis pelo fomento ou modificação da cultura da norma padrão ao mesmo tempo em que propõe que o ativismo linguístico em prol de uma oposição ao purismo na língua seja exercido pelos professores, linguistas, o que não significa uma visão técnica e ausente de ideologias.

Já o capítulo de Cristiane Vieira e Felipe Soares tem como objetivo discutir as crenças sobre a aprendizagem de língua inglesa de professores que atuam na rede pública de ensino. O trabalho confirma o que diz a revisão de literatura sobre a relação entre as crenças e as práticas docentes, bem como destaca o papel do contexto de ensino e as limitações advindas da carga horária do inglês, da inadequação dos materiais didáticos, da desmotivação dos alunos, dentre outros. Uma contribuição desse capítulo repousa no desvendamento dessas crenças e na reflexão por professores pré-serviço e serviço a respeito de suas próprias crenças, podendo promover a construção de um perfil docente crítico e reflexivo sobre sua prática.

O capítulo de Rafael Bastos e Samuel Lima dá voz aos estudantes a partir de narrativas com a finalidade de discutir a aprendizagem de inglês em tempos de isolamento social. A pesquisa revela os aspectos positivos e negativos do ensino remoto e suas implicações na aprendizagem dos alunos. Esse trabalho lança luzes sobre os obstáculos que precisam ser enfrentados no âmbito da tecnologia e da formação de professores, bem como apresenta os benefícios propiciados pelo ensino remoto no processo de aprendizagem de línguas. O estudo põe em evidência o fato de que a pandemia da covid-19 promoveu maior estreitamento entre tecnologia e educação.

Explorando esse viés tecnológico, o capítulo de Josehyres Neves, Karyne Silveira e Magnólia Cruz analisa a utilização de uma sequência didática para a produção escrita em língua inglesa do gênero “perfil” na rede social facebook, por alunos de uma turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA), no contexto do Estágio Supervisionado. O trabalho apresenta as potencialidades do uso das redes sociais para o ensino e aprendizagem de inglês, demonstrando que uma das vantagens são os usos que o professor pode fazer delas para tornar sua aula mais produtiva e envolver os alunos nas tarefas propostas.

Seguindo essa esteira, Franciclé Bento e Rozania Moraes relatam uma experiência de escrita colaborativa de diferentes gêneros textuais com alunos de um curso livre de inglês em uma plataforma wiki PBworks, enfocando a etapa da escrita propriamente dita e o processo de colaboração. Esse capítulo nos permite retomar um questionamento que não é novo, mas sempre necessário: para quem escrevemos na escola? Para que escrevemos? Ao mesmo tempo, o texto nos permite vislumbrar novas práticas de escrita, no ensino de inglês, que incluem os diferentes modos de escrever na modernidade recente.

A ortografia é abordada no capítulo de João Paulo Lima, que apresenta uma proposta de atividade lúdica para uma aluna de alfabetização no enfrentamento de desvios ortográficos resultantes da interferência da fala na escrita. O relato realizado pelo autor ratifica a tese de que o ensino da ortografia não pode ser materializado apenas como uma questão de memorização, mas como uma oportunidade de o professor explorar as regularidades da língua. As análises realizadas por Lima comprovam como a criança é capaz de realizar inferências morfossintáticas e fonéticas sobre a língua portuguesa, bem como mostram as vantagens de explorar a ortografia, tomando como princípio a reflexão.

A partir da ótica da Gramática Gerativa, Candice Glenday descreve uma proposta metodológica que visa a ensinar a estrutura argumental da língua inglesa. O capítulo apresenta uma contribuição do Gerativismo para o ensino de línguas adicionais, ilustrando como essa corrente linguística pode ser materializada na prática docente. A nosso ver, essa proposição destaca uma aprendizagem consciente da estrutura da língua a partir da exploração dos conhecimentos prévios dos aprendentes em sua língua 1, o que pode promover efeitos positivos na produção escrita dos alunos.

E por fim, no eixo de “Ensino de línguas”, o capítulo de Marciana Sousa e Antonio Lailton Duarte investiga os gêneros da ordem do argumentar na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ensino Médio e suas implicações para o ensino de língua portuguesa. Os autores apresentam uma visão panorâmica desses gêneros em diferentes campos de atuação descritos pela BNCC à luz da Teoria da Argumentação do Discurso. Uma contribuição desse trabalho está em fomentar as discussões sobre uma orientação curricular recente que necessita ser amplamente debatida, garantindo aos professores em formação inicial e continuada diferentes visões desse documento prescritivo.

No eixo “Material didático”, essa ferramenta de ensino e aprendizagem é analisada a partir de diferentes perspectivas: Política Linguística, Letramento Visual e Oralidade e Escrita. No campo da Política Linguística, o capítulo de Kátia Oliveira investiga como os Manuais do Professor de Língua Portuguesa elaborados no período de 1970 a 2012 abordam algumas dicotomias (ex.: certo/errado; adequado/inadequado, dentre outras) e quais suas implicações na promoção da padronização desta língua. Esta pesquisa traz importantes contribuições: em termos teóricos, amplia o leque de possibilidades sobre o que pode ser considerado um mecanismo de política linguística; e, em termos pragmáticos, desvela para o professor as ideologias linguísticas presentes nesses materiais que visam a orientar a sua prática pedagógica.

Ainda dentro da Política Linguística em diálogo com os estudos da Escrita, o capítulo de Benigna Neta, Maria Erotildes Silva e Mônica Serafim investiga as orientações curriculares oficiais e os livros didáticos com a finalidade de discutir as crenças sobre o ensino de produção escrita materializadas nesses materiais. A partir desse estudo é possível desvelar as mudanças nas crenças que perpassam os documentos oficiais e como estas são reverberadas nos manuais didáticos no percurso histórico da década de 1970, 1990 e 2019.

Sob a ótica dos estudos do Letramento Visual, o capítulo de Leopoldina Freitas e Ana Maria Lima analisa uma imagem em um livro didático de língua inglesa, trazendo a lume as potencialidades que a exploração de um texto visual pode promover para o desenvolvimento das habilidades dos alunos de ler e interpretar imagens. As autoras mostram que no livro didático analisado a imagem não se constitui apenas um acessório, mas tem um papel específico na medida em que os autores exploram seus sentidos a partir de questões de interpretação textual. Por outro lado, destacam o papel do professor como agente ativo na mobilização dessas habilidades nos estudantes. Esse estudo apresenta luzes sobre o tratamento didático do letramento visual em sala de aula, apontando para a necessidade de formação de leitores críticos em textos não verbais.

E, por fim, o capítulo de Leiliane Noronha e Elaine Forte-Ferreira analisa a presença ou não de uma progressão na abordagem do ensino da oralidade em livros didáticos do Ensino Fundamental e Médio. Os resultados descrevem uma ausência de diferenciação nas atividades propostas para os alunos, fazendo-se necessária uma revisão da abordagem da oralidade nesses materiais didáticos. Esse trabalho fomenta as investigações sobre o ensino da oralidade ao mesmo tempo em que descreve para o professor lacunas que precisam ser preenchidas no trabalho com esse eixo de ensino e aprendizagem.

No eixo “Formação docente”, o capítulo de Adriana Araújo e Francisca Geane Albuquerque explora a imagem que um professor em formação faz de si a partir da análise de um diário reflexivo produzido durante a sua atuação no Projeto Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID). Essa pesquisa ratifica o uso do diário reflexivo como um instrumento pedagógico relevante para o professor em formação inicial à medida que pode promover o autoconhecimento e a autocrítica e, ao mesmo tempo, leva o aluno/professor a refletir sobre suas práticas, possibilitando (re)ssignificá-las.

E, por fim, o capítulo de Philipe Araújo e Filipe Leite investiga as representações da temática “economia” em um texto/discurso (Plano de Estratégias do Ensino Médio) elaborado pela Secretaria de Estado da Educação, da Ciência e da Tecnologia da Paraíba (SEECT-PB) e em textos/discursos produzidos por professores na plataforma Google Sala de Aula, em época de isolamento social. Esse capítulo põe em xeque as diferentes representações da temática presentes tanto no trabalho prescrito pela SEECT-PB quanto no trabalho realizado pelos docentes, confirmando a potencialidade do aparato teórico do Interacionismo Sociodiscurso (ISD) no desvelamento das representações de diferentes temas em textos/discursos.

Para fins de organização retórica, dividimos os capítulos em eixos, contudo o leitor pode criar o percurso que desejar considerando seus interesses pessoais e/ou profissionais. Nesse sentido, essa obra é dedicada a todos aqueles que estão diretamente envolvidos com ensino de línguas e literatura, material didático e formação docente, bem como a todos interessados nesses tópicos, pois a leitura dos capítulos permite visualizar as problemáticas e desafios vivenciados por professores e alunos/professores, exibindo “fotografias” de diferentes perspectivas teóricas e práticas da sala de aula presencial ou remota. Eis o ebook para ser degustado em cursos de formação inicial e continuada de professores, em grupos de estudos, em reuniões pedagógicas, enfim, em diferentes domínios sociais nos quais as temáticas possam promover debates, reflexões, autocríticas…

João Pessoa, 10 de julho de 2020.
Socorro Cláudia Tavares de Sousa
Professora do Departamento de Linguística e Língua Portuguesa (DLPL) e do Programa de Pós-Graduação em Linguística (PROLING) da Universidade Federal da Paraíba.
Líder do Núcleo de Política e Educação Linguística (NEPEL)

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