Capitães da Areia: dicionário de língua e cultura

ISBN: 978-65-87645-37-7

Autor/Organizadores: Vicente de Paula da Silva Martins

PREFÁCIO

CULTUREMAS NA VIDA E NA ARTE

Vicente de Paula da Silva Martins é um pesquisador inquieto, arrojado, atento aos movimentos da linguagem em uso e profundo conhecedor da língua. Seus interesses vão da obra literária ao PIBID, da sala de aula aos estudos do estatuto da educação nas Constituições brasileiras, passando por culturemas, fraseologia, lexicografia etc.

Para que o leitor tenha uma ideia dessa amplitude, apresento alguns títulos de trabalhos que Vicente publicou de 2019 até o momento, individualmente e em parceria:

-Estudos do léxico: aportes teóricos para pesquisa terminológica e fraseológica (em coautoria com Arlon Francisco Carvalho Martins)
-Atividades de estágio em língua portuguesa: relatos de experiências dos residentes de Letras no Programa de Residência Pedagógica (PRP)
-PIBID e iniciação à docência em língua portuguesa: do piso da academia ao chão da escola
-Aquisição da linguagem na sala de aula: relato de pesquisa extraclasse, glossário de termos e propostas de atividade
-As constituições e a educação brasileira (1824 a 1988); Covid 19: a gramática do inimigo
-Guia teórico para o estudo da fraseologia portuguesa
-Sombras de Reis Barbudos: dicionário de culturemas fraseológicos & religiosos (em coautoria com Márton Tamás Gémes; Gislaine Costa Cerqueira; e Bianca Carvalho Lino.

E como Vicente trabalha? Em um livro recente, Covid 19: a gramática do inimigo, por exemplo, o autor traça um panorama de reações sociais à pandemia da Covid-19 a partir do estudo, que um desavisado poderia considerar prosaico, de palavras e expressões. Vicente mostra que o estudo de termos como “E daí?” ou da preposição “ante”, da perspectiva terminológica, lexicográfica e mesmo da classificação gramatical, de um ponto de vista culturológico, pode não apenas revelar a atitude de usuários da língua como demonstrar que um pesquisador pode ao mesmo tempo não ser “neutro” do ponto de vista ético e ser cientificamente rigoroso. Não é porque assume uma dada posição que deixa de ser cientista.

Neste dicionário de culturemas, Capitães da Areia – Dicionário de Língua e Cultura, Vicente de Paula da Silva Martins se concentra na leitura da obra Capitães da Areia, de Jorge Amado, para demonstrar de que maneira é possível pôr em diálogo, de um ponto de vista linguoculturológico (objeto de outro trabalho seu: Martins, 2017) a memória, a história, a literatura e a narrativa, aproximando assim o discurso da história e o discurso literário.

O autor descreve minuciosamente os procedimentos metodológicos para essa leitura culturológica, que envolve rigorosas etapas de levantamento e organização do material, bem como um trabalho interpretativo em que são mobilizados saberes sobre o mundo presentes transfiguradamente na obra examinada, demonstrando o pesquisador, por vezes uma erudição e uma capacidade de exposição clara e didática que enriquece sobremaneira a leitura da obra.

Transcrevo aqui, a título de exemplo, o verbete Caatinga, a fim de mostrar ao leitor a interessante maneira de construir um verbete em termos culturológicos. Observe-se a descrição e sua exemplificação na obra, no contexto em que aparece, não isoladamente:

CAATINGA
Ao longo da obra, o narrador faz referência à vegetação típica do Nordeste brasileiro, em que predominam plantas xerófilas, como árvores e arbustos que caem durante a estação seca, frequentemente armados de espinhos, e também cactáceas, bromeliáceas e ervas anuais: “O tiroteio foi grande, Lampeão só poude mesmo abrir para a caatinga que é sua casa. Um dos homens do grupo ficou estirado com um balaço no peito. Cortaram a cabeça dele que fora enviada para a Bahia em triunfo. Vinha a fotografia no jornal. A boca aberta, os olhos furados, um homem segurando pela carapinha rala. Tinham cortado o pescoço a facão. Dora comentou: — Coitado dele. Que judiaria! (AMADO, 1937, p.238). Há quatorze ocorrências na obra.

Outro interessante exemplo (que me lembra da infância na Bahia, depois de uns anos no Rio de Janeiro) é:

PENSAR NA MORTE DA BEZERRA
Trata-se de uma fraseologia cujo sentido idiomático é o de “estar distraído ou absorto consigo próprio; estar pensativo, não estar atento ao que se passa em torno”: — Tá pensando na morte da bezerra, seu mano?” (AMADO, 1997, p. 113). Há apenas uma ocorrência.

Essa metodologia e os verbetes gerados me fizeram refletir que, assim como pessoas de outras regiões do Brasil fariam uma leitura mais expressiva da obra de Jorge Amado estudada, um tradutor do português para alguma língua estrangeira teria em um dicionário como esse um rico repositório a que recorrer para descobrir soluções tradutórias. Porque este Dicionário não é um mero registro de culturemas, e sim uma detalhada exploração das possibilidades expressivas dos culturemas contidos na obra. Como se sabe, os tradutores traduzem discursos e, assim, quanto mais souberem acerca dos usos discursivos de palavras e expressões, tanto mais serão capazes de decidir que palavras usar para traduzir sentidos de uma língua em outra língua nos discursos de que se ocupam.

Para um estudioso que segue os parâmetros da Análise Dialógica do Discurso, como é o meu caso, poderia ser um paradoxo falar de “palavras culturais”, uma vez que, de sua perspectiva, todas as palavras são culturais ou ao menos todos os usos das palavras ocorrem no âmbito da cultura. Contudo, cabe-me admitir que algumas palavras são mais culturais do que outras (e não faço aqui trocadilho com a célebre expressão orwelliana, infelizmente tão atual), no sentido de que remetem mais claramente (e por vezes de maneira hermética) ao contexto cultural, e mesmo ecológico em que são usadas e de que advêm.

Caatinga, por exemplo, só existe em um dado ecossistema, razão pela qual é, como termo da língua, intraduzível, uma vez que não existe uma caatinga inglesa ou francesa. Mas, como tenho dito, a tradução envolve palavras, mas incide não sobre elas e sim sobre seu uso por falantes concretos em enunciados concretos. Assim, julgo relevante a ideia de trabalhar com culturemas, ou seja, termos que assinalam, ou demarcam, mais explicitamente do que outros, sua imersão em uma dada cultura.

Recomendo, pois, a leitura atenta deste livro, não só como referência, mas como livro que se pode ler por deleite, pois há nos verbetes todo o encanto de uma paixão pelas palavras. Ademais, julgo que os interessados em trabalhar da perspectiva culturológica têm muito a ganhar com a minuciosa e precisa descrição metodológica com que o autor nos brinda. Na verdade, todo estudioso da linguagem, seja qual for a perspectiva, se beneficiaria da leitura deste Dicionário. Porque, insisto, ele não é apenas um dicionário, mas um repositório da relação vida-cultura-literatura estudada culturologicamente.

Encerro declarando que é um privilégio prefaciar Capitães da Areia – Dicionário de Língua e Cultura, de Vicente de Paula da Silva Martins. Nele vi que os culturemas estão presentes tanto na arte como na vida e que seu levantamento pode integrar arte e vida.

Adail Sobral – FURG
Pelotas / Rio Grande
Ano I da Pandemia Covid-19

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