Educação em tempos de pandemia

ISBN: 978-65-87645-35-3

Autor/Organizadores: Vicente de Paula da Silva Martins

À GUISA DE APRESENTAÇÃO

Ao concluir a leitura de Discurso da Ética e a Ética do Discurso (2018), de Valdemir Miotello, já em sua segunda edição pela Pedro & João, senti-me altamente motivado para reler Marxismo e Filosofia da Linguagem (2009), de Mikhail Bakhtin, o que fiz de pronto. Devidamente grifado, o livro de Miotello, na verdade, transcrição de sua conferência em 2009, na Escola da Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais, traz entre suas pérolas reflexivas a de que “Só posso ser eu no jogo com o outro” (p.30) e “O outro fez surgir o eu dentro de mim” (p.44) que nos remetem ao pensamento bakhtiniano. Não há como pensarmos em princípio dialógico sem reconhecermos que é a alteridade que nos constitui como ser humano e sujeitos históricos de nossos discursos.

Por essa razão, nesta apresentação o outro entrará em cena. Por ordem, trouxe a reflexão, em tempos de pandemia, de Américo Saraiva, com mestrado e doutorado em Linguística pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e com estágio de pós-doutoramento em Semiótica na Université de Limoges, França, sob a supervisão de Jacques Fontanille, além de poeta, semioticista, músico e docente do Curso de Letras da UFC. Em seguida, uma reflexão que dialoga com o texto do professor Américo, feita por Vládia Borges, Ph.D. em Educação com área de concentração em Ensino de Inglês como Segunda Língua pela Universidade de Rhode Island (EUA), amiga muito querida e adorável professora, também da UFC. E, por último, o texto de Francisco Vicente de Paula Júnior, o Vicente Jr, doutor em Letras (Literatura e Cultura) pela UFPB (2011) e desenvolve pesquisas em Literatura Fantástica, Feminismo na Literatura, Assédio Moral, Bullying e Cultura Popular, professor fantástico, espirituoso, amigo e colega de trabalho do Curso de Letras da Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA, em Sobral, há mais de duas décadas. Os textos dos três docentes, originalmente publicados como postagens nas redes sociais, foram autorizados pelos mesmos para apresentarem este livro e com isso compartilharmos juntos o que pensamos sobre a educação escolar no contexto de pandemia da Covid-19.

“Há algum tempo, calava-me diante de argumentos a favor de aulas semi-presenciais, um meio que ensino a distância, ou quase. Diziam-me que, com o avanço da tecnologia, muito do que se fazia em sala presencialmente poderia ser substituído, com vantagem, por atividades on-line. Era o futuro. Vi-me na iminência de dar razão aos que denunciavam a obsolescência do estilo de aula tradicional. A pandemia chegou e nos confinou. No entanto, deu-me a entender que ter silenciado perante aqueles argumentos não foi boa opção pois nada é comparável a uma aula com corpo e alma presentes. Quando t(r)ocada com amor, aula é uma espécie de ritual sagrado, de dádiva adventícia na sua irrepetibilidade. Os vocacionados se preparam para ela desde dentro e para sempre. Curtem a espera, o encontro, o ler-se mutuamente a presença em muitos níveis. Gostam de partilhar o mesmo espaço físico, de vê-lo preenchido com a vida múltipla e variada em ação. Aula é um encontro sem igual que prepara conservando a nossa humanidade. Sou hoje defensor ferrenho desse encontro sagrado em que se celebram o saber sentir e o sentir saber.” (Américo Saraiva)

“Minha pergunta é: onde está a dicotomia? Assim como o “computador” não substituiu o professor, também o ensino remoto não substituirá o ensino presencial. São aliados! Neste momento o ensino presencial não parece viável para saúde pública. O ensino remoto se apresenta, então, como alternativa para que algum tipo de ensino e aprendizagem aconteça neste momento.

Uma questão surge: e o que acontece com aqueles que, por não terem acesso a computadores e/ou Internet de banda larga, ficam excluídos do ensino remoto? Nesse caso, não seria o caso de escolas e universidades proverem as ferramentas para que todos possam vivenciar a educação remota? Ainda, a educação remota pode ter maior ou menor qualidade dependendo também do nível de preparação dos professores para esse tipo de ensino. Por que escolas, universidades e professores, ao invés de ficarem discutindo se o calendário escolar seria ou não adiado e/ou cancelado, não buscaram aprender sobre como fazer a transposição de aulas presenciais para aulas virtuais?

A hora não é de discutirmos o que é o ideal para educação, mas de buscarmos o possível para que algum tipo de educação aconteça neste momento. Esta é uma posição lógica e objetiva, embora bastante controversa.” (Vladia Borges)

“Seu texto é um apanhado sintético das grandes discussões que permeiam esse contexto específico de pandemia. Conseguiu tocar nas competências do Estado, dos gestores, dos professores até dos alunos, mas aqueles que estes. É um texto importantíssimo que deve ser repassado a cântaros nos grupos da vida. Mas continuo exigindo uma sensibilidade maior na situação social do aluno e de alguns professores como os substitutos. As atividades remotas via plataformas custam caro em todos os sentidos. Se houver, como em alguns países, um acordo entre o Estado, os gestores, e as operadoras para o acesso ser gratuito …então não terei mais críticas.” (Vicente Jr)

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