Educação e ciências humanas: Reflexões entre desconfianças, a utilidade do inútil e a potência dos saberes. Vol. 1

ISBN: 978-65-87645-42-1

Autor/Organizadores: Éderson Luís Silveira; Wilder Kleber Fernandes de Santana

INTRODUÇÃO: NOTAS SOBRE EMPATIA, CRITICIDADE E POTÊNCIA DOS SABERES INÚTEIS

Éderson Luís Silveira (UFSC)
Wilder Kléber Fernandes de Santana (UFPB)

Quem tem medo de entrar em terras estranhas, de sair de suas fronteiras disciplinares e disciplinadas também um dia morrerá, e poderá ser de repetição e de tédio. Melhor se ariscar a morrer voando do que preferir morrer aterrado e enterrado em seus lugares de segurança (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2011, p. 13).

Já dizia uma vez Foucault que o saber é feito para cortar. Na educação não é diferente. É preciso operar cortes, cisões, cirurgias epistemológicas, aprofundamentos, leituras… Quando se fala de educação, isso não restringe o discurso daquele que enuncia ao universo escolar. Dentro e fora da escola há inúmeras formas de tornar férteis discussões e práticas que fomentem o exercício da criticidade e da emancipação intelectual dos que por ali passam, permanecem ou dali desertam. Por isso que educação não é só o que acontece entre uma lousa e uma carteira de colégio. Não é à toa que o mesmo filósofo francês também mencionou que todo sistema de educação mantém ou modifica a apropriação dos discursos, politicamente, com saberes e poderes aí presentes. No âmbito dessa manutenção de discursos também pode ser situado o exercício daqueles que falam sobre a educação.

Mas nem só de manutenções se vive e, por isso, esta introdução parte da necessidade de operar modificações no discurso educacional. Seríamos ingênuos se deixássemos de lado o lugar no qual a formação de professores ocorre: a universidade (atentando para o fato de que a formação não se encerra ali, mas se estende por toda a vida, mediante a necessidade de exercitar um olhar sobre a prática docente, cotidianamente). A educação não pode ser reduzida a fórmulas ou réplicas de experimentos bem-sucedidos em laboratório. O universo das práticas não pode ser medido por pipetas. Disso bem sabemos. Ela decorre de uma série de transformações que não cessam de se inscrever no decorrer da história da humanidade. Falar sobre educação, com responsabilidade, é também vivenciá-la.

No âmbito da formação de professores é preciso voltar-se, também, para a academia, essa selva de egos inflados, brigas de núcleos e falta de empatia onde pode também haver espaço para frutificar a paciência, o respeito pela diferença e a escutatória. Escutatória mesmo, pois de cursos de oratória já estamos fartos já faz algum tempo. Falta quem esteja disposto a ouvir, falta quem não transforme seu entorno numa somatização de competições e ranços desenfreados. Falta vontade de se colocar no lugar do outro. Falta vergonha na cara.

O escritor e doutor em Filosofia Jeferson Assumção chegou a criticar aquilo que ele chamou, na escola, de máquina de destruir leitores, pois ler é uma aventura de liberdade, que é boicotada se for reduzida a um aglomerado de formulações pré-estabelecidas, que mais afastam do que aproximam os jovens da leitura. Isso vale para os adultos também.

Certa vez, Paulo Freire ironizou que, em determinadas circunstâncias, o sonho do oprimido pode ser se tornar o opressor. Aprender qualquer assunto que seja é uma atividade que deveria se dar no âmbito da partilha não violenta, no sentido de se colocar no lugar do outro como alguém que é diferente de nós mesmos. Enquanto não for considerado que mais da metade da população (104 milhões de pessoas) vive com 413 reais por mês, uma a cada quatro pessoas não tem acesso à internet (mais precisamente 46 milhões de pessoas) e for negligenciado o fato de que há lugares em que a informação não chega e que a forma como se dá a circulação de informações num contexto tão desigual é singular, sobrarão lacrações e a empatia vai estar em falta. Outro fator importante: mais da metade da população brasileira não concluiu o Ensino Médio e somente 21 % dos brasileiros e brasileiras entre 25 e 34 anos tem ensino superior. Como é que se pode equiparar a necessidade de partilha com a ignorância sobre as condições financeiras do outro, sobre os modos desiguais de circulação de informações num contexto tão desigual?

Esta obra, que leitores e leitoras têm ao alcance, de circulação gratuita, busca mostrar que as Ciências Humanas e a Educação constituem um campo tão heterogêneo quanto pode ser diversificada a formação daqueles que se debruçam em pesquisas de tais campos. Trata-se de uma obra que não se inscreve sob a égide mercadológica de distribuição excludente na qual livros são colocados em segundo plano porque não estão ao alcance dos leitores que não tiveram acesso às informações e formações dos que dela participaram.

Nosso sonho, enquanto organizadores, é que este livro chegue ao maior número de pessoas possíveis, que seja um livro que continue a vontade de tornar livre o pensamento, mesmo que se contrarie conteúdos que podem vir a ser encontrados aqui. O novo não está no que é dito, mas no acontecimento de sua volta (FOUCAULT, 1996, p. 26). A utopia serve para que não cessemos de caminhar e a atenção à alteridade não pode fenecer sob o peso dos mantos majestosos de egos acadêmicos utilizados por aqueles que se acostumaram a apontar os dedos em riste para os demais para afirmar que o saber dos outros é insuficiente.

Educação é empatia, não é exibicionismo, não é deslealdade, não é puxar tapetes, é colocar-se no bojo dos saberes inúteis porque, como bem desconfiou o italiano Nuccio Ordine, todos os saberes que não são vendáveis são inúteis. Somos inúteis porque, como a flor, florescemos em meio ao caos, porque a emancipação intelectual não pode passar longe da vontade de acolher aquilo que é diferente. Inteligência é isso. Não é elevar-se sobre os demais, é aproximar-se dos que pensam diferente (quando esses estão dispostos a ouvir ou até mesmo, chegar de mansinho quando não estiverem, nem todo mundo que pensa diferente é fascista!). Não é preciso concordar com quem pensa diferente, mas o benefício da dúvida e da desconfiança, esses não devem nos desacompanhar.

O escritor francês André Gide afirmou certa vez que é necessário crer nos que buscam a verdade e desconfiar dos que a encontraram. Ninguém é dono ou herdeiro direto ou indireto de determinado autor, embora muitos ajam como se fossem os únicos autorizados para falar de determinados assuntos. A descoberta parte justamente da desconfiança de que o que sabemos nunca será suficiente, mas, para isso, é necessário humildade, coisa que bem poucos têm. Este livro não pretende ser um livro-verdade, mas um livro-ferramenta, que possibilite o encontro e o respeito com outros saberes possíveis e, em meio ao caos em que vivemos, busca mostrar que ainda há os que persistem, os que resistem e que, sob o prisma da inutilidade, é justamente o inútil que nos torna férteis, que mostra que há potência nos saberes de ontem e de hoje que buscam acolher a diferença. Assim, este texto “se inscreve no âmbito de escritos que visam promover o exercício da criticidade e da empatia” (SILVEIRA & SANTANA, 2020, p. 99). Para isso existimos, para criar redes colaborativas de pertencimento, de problematizações que não diminuam o outro, exatamente no lugar onde estamos neste momento em que estamos lendo esta mensagem, que é um bilhete dentro de uma garrafa solitária jogada ao mar por meio de uma vontade incessante de “não trocar o sonho de mudar o mundo pela pasta de couro em cima do muro” (PINHEIRO-MACHADO, 2015, s. p.).

Referências
ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. Prefácio – Dissonância e anacronia. In: SALOMON, Marlon (org.). História, verdade e tempo. Chapecó: Argos, 2011, p. 07-16.
ASSUMSÃO, Jéferson. Máquina de destruir leitores. Porto Alegre: Sulina, 2000.
FOUCAULT, M. A Ordem do Discurso. Tradução Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Loyola, 1996.
ORDINE, Nuccio. A utilidade do inútil: um manifesto. Tradução Luiz Carlos Bombassaro. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.
PINHEIRO-MACHADO, Rosana. Precisamos falar sobre a vaidade na vida acadêmica. Carta Capital, fevereiro de 2016, s. p. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/precisamos-falar-sobre-a-vaidade-na-vida-academica/ Acesso em 11 ago. 2020.
SILVEIRA, Éderson Luís; SANTANA, Wilder Kléber Fernandes de. O impacto da ausência e a presença perniciosa: covid-19 e a necessidade de reeducação humana para sobrevivência do meio ambiente. Acta ambiental catarinense, v. 17, p. 99-110, 2020.

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