Os Corumbas: dicionário de língua e cultura (culturemas)

ISBN: 978-65-87645-57-5

Autor/Organizadores: Vicente de Paula da Silva Martins

INTRODUÇÃO

Saussure, em seu Curso de Linguistica Geral, nos chama a atenção para o binômio língua-cultura: “o linguista deve também examinar as relações recíprocas entre a língua literária e a língua corrente; pois toda língua literária, produto da cultura, acaba por separar sua esfera de existência da esfera natural, a da língua falada” (2012 [1916], p. 54, ênfase adicionada).

De 2009 para cá, tenho procurado desenvolver pesquisas sobre língua e cultura no âmbito da literatura brasileira. A pesquisa mais recente, devidamente concluída, recebeu o título “Sapienciário Cultural: identificação, classificação e constituição de corpus de culturemas nos romances do nordeste brasileiro” (MARTINS, 2017), realizada no período de 2016-2017, em nível de estágio de pós-doc, no Programa de Pós-Graduação em Língua e Cultura da UFBA.

A supracitada pesquisa linguística contou com a supervisão da Profª Dra. Lívia Márcia Tiba Rádis Baptista (UFBA) e buscou identificar, classificar e constituir um corpus de culturemas em cinco romances do Nordeste Brasileiro: Capitães da areia, romance, de Jorge Amado (Edição de Rio de Janeiro: J. Olympio, 1937), representante da Bahia; Vidas Secas, Graciliano Ramos (Edição de Rio de Janeiro: José Olympio, 1938), representante de Alagoas; Dona Guidinha do Poço, de Oliveira Paiva (Edição de São Paulo: Saraiva, 1952), representante do Ceará; Menino do engenho, de José Lins do Rego (Edição de Rio de Janeiro: José Olympio, 1934), representante da Paraíba; e Os Corumbas, de Amando Fontes (Edição de Rio de Janeiro: José Olympio, 1933), representante de Sergipe.

O presente livro é, portanto, uma pequena amostra dos produtos da pesquisa linguística na UFBA. Refere-se, de modo específico, ao estudo sobre língua e cultura em Os Corumbas (1933), de Amando Fontes. Primeiramente, fiz a leitura e releitura do romance, em sua primeira edição. Em seguida, analisei e interpretei o livro a partir de unidades linguísticas, marcadas culturalmente, denominadas de culturemas, distribuídas em 30 âmbitos culturológicos, a saber: bioculturemas, humaniculturemas, Edificulturemas, taticulturemas, personiculturemas, mitoculturemas, familiculturemas, politiculturemas, amiculturemas, crediculturemas, etnoculturemas, criaculturemas, articulturemas, tabuculturemas, educulturemas, geoculturemas, portaculturemas, edificulturemas, antropoculturemas, alcuturemas, indumentocuturemas, liciculturemas, mobiculturemas, moedoculturemas, mediculturemas, verboculturemas, gramaticulturemas, reiculturemas, idioculturemas e humoculturemas (os neologismos foram criados para serviram de hiperônimos ao longo do processo de recolha dos culturemas).

Assim, ao fazer a recolha de culturemas, ao longo da releitura da obra de Amando Fontes, vi que a análise linguocutural do texto literário se constituiu pedagogicamente uma interessante estratégia de leitura compreensiva, tendo me motivado a reler a obra sem esforço sobre-humano. Quem sabe não venha a ser, no futuro, novo método didático-pedagógico a ser explorado pelos docentes de língua portuguesa na educação literária do Novo Normal na educação pós-pandemia de modo a favorecer ou a facilitar o processo de compreensão em leitura?

Graças ao estudo da obra a partir de referenciais culturais tive condições de me aproximar de outras disciplinas como história, geografia, sociologia, política e saber mais sobre o dialetismo, o regionalismo literário e o regionalismo linguístico. Com os culturemas, disciplinas como geografia e história passaram a ser vistas de forma interdisciplinar e me permitiram desvelar o contexto de época e o cenário local do romance, em Aracaju, capital sergipana. Para retratar o drama de uma família de sergipanos que decide migrar para a capital do seu Estado, Amando Fontes recorre a muitos culturemas. Entre os mais expressivos, estão, por exemplo, os relacionados ao ecossistema, como “sopé do morro”, no contexto que diz “Ao sopé do morro, uma mulher, mulata e gorda, de rosto e cabelos lustrosos, varria a calçada de uma venda. (p. 243); “taboleiros agrestes”, quando escreve “As velhas arvores, os arbustos rachiticos das caatingas, taboleiros agrestes, as vastas soltas sem cerca e sem limite, tudo, como que por encanto, se vestira de verde.” (p.8); “sol morrente”,como em “O sol morrente projectava grandes sombras sobre a toalha movimentada das aguas” ( p. 225).

Entre os “bioculturemas”, destaco “immenso algodoal”, em “O céu, recamando de nuvens brancas, agrupadas em frócos, lembrava um immenso algodoal que tivesse desabrochado por inteiro.” (p.11); “apicuns amarellentos”, em “Deixando para traz os apicuns amarellentos, caminhavam todo agora pelo apertado aterro, feito de lama e cinza, que liga S. Antonio ao Bairro Industrial.” (p.34); “trançado de palmas verdes de imbury”, em “No terceiro da frente, limpo e areado, um arco triumphal, trançado das palmas verdes de imbury, marcava o ponto de passagem do cortejo.” (p.9)

O esforço realista de Amando Fontes em Os Corumbas produziu passagens encantadoras como “magote de novilhas brancas”, em “Um magote de novilhas brancas, amalhando na estrada, levantou-se, preguiçoso, e foi se afastando de manso, ao badalar monotonodos chocalhos. De espaço a espaço, um tiro perdido de roqueira fazia estremecer os arredores…” (p.14); “largas esteiras de piri” em “Sobre largas esteiras de piri servira-se a refeição. Uns, sentados, outros, de cócoras, comiam e palravam a um tempo só. Alguns, mais folguentos, excediam-se nas bebidas.” (p.10), para citar apenas alguns exemplos no âmbito ecológico.

Em “humaniculturemas”, foco em culturemas relacionados às doenças, cito, por exemplo, “acceso de sezões”, em “No decorrer desse tempo tiveram mais tres filhos: duas meninas e um varão. Mas este , que era o segundo homem que lhes vinha, morreu, pequenino ainda, de um acceso de sezões.” (p.17); “accesso de tosse”, em “Encheu-se de vergonha. Quiz replicar, talvez defender a mãe injuriada assim de publico. Mas nem podia falar, assaltada por um accesso de tosse que ás vezes a suffocava.” (p.36); “gripe insidiosa” em “Vida que não se modificava era a de Bella. Uma semana melhor; outra peior. Quando não a assaltava o rheumatismo, uma gripe insidiosa perseguia-a.” (p. 90); “hemoptyses”, em “Bella morria lentamente. Já não se levantava, prostrada pela fraqueza mais extrema. As suas hemoptyses, agora, se repetiam com frequência. E eram sempre abundantes. Vomitos tão fartos que a sufocavam, muitas vezes.” (p.170); e mais outros tantos exemplos com “começo de hydropisia”, “ouvidos mouco(s)”, “prostrada pela fraqueza mais extrema”, “puxado”, “rheumatismo” e “rictus de dôr” e “tuberculosa”

Os culturemas religiosos, a que denominamos de “religiculturemas” são outro âmbito culturológico de grande expressividade em Os Corumbas, como “ “Nossa Senhora do Soccorro”, “Procissão do Bom Jesus No Aracajú”, entre outros.

Para situar o leitor no contexto nascedoudo das grandes indústrias em Sergipe, o autor traz culturemas relacionados às ocupações dos operários fabris como “ajudante da secção dos teares da “sergipana”, “ajudante de torneiro nas officinas da estrada de ferro”, “auxiliar do machinista do eugenho”, “botadeira de canna na moenda, “contra-mestre de secção”, como em “– Foi Misael, o contra-mestre da minha secção… Miseravel! Elle não gosta de mim, porque não sou como as outras, que lhe dão confiança… Safado! Uma vez me deu uma palmada nas cadeiras. Mas eu desgracei logo com elle. Gritei-lhe no focinho: “Atrevido! Moleque! Vá bater na tua mãe, peste!” (p. 40), entre outros.

Se me ocupasse unicamente de recontar a obra através dos culturemas relacionados ao espaço geográfico, os nomes de ruas dariam uma ideia bem ilustrativa e cultural do enredo como em “Rua do Siriry” (posteriormente, título de novo romance), em “Da casa onde residia por conta de Fontoura mudou-se para a Rua do Siriry, principal centro de prostituição no Aracajú.” (p. 218); Rua S.João e “Sala de Dansa” da Rua do Rosario”, na seguinte passagem “E, emquanto aguardava o regresso do seu navio, andou passeando pela cidade. Cantou com grande sucesso numa “sala de dansa” da rua do Rosario. Gostou da terra e resolveu ficar.” (p. 63). Ao longo do processo de recolha de culturemas, recorremos, para a definição dos verbetes, ao Grande Dicionário Houaiss em sua versão eletrônica (https://houaiss.uol.com.br), atualizada em 2020, ora diretamente transcritas e aspeadas ora parafraseadas, mas em qualquer caso a partir do supracitado dicionário. Entre as fontes bibliográficas de datação em Houaiss, observei a ausência do romance Os Corumbas, o que me levou a sugerir novos verbetes. A safra de recolhas em Os Corumbas foi fértil. Os novos verbetes e as novas abonações enviados à equipe de Instituto Antonio Houaiss (IAH) são os contextualizados em Os Corumbas. O IAH, sob o comando do filólogo e lexicógrafo Mauro de Salles Villar, não apenas acolheu prontamente as sugestões de abonações para o Houaiss como se tornou um amigo incentivador para minhas novas incursões no campo da lexicografia literária. Foram aproveitadas 42 itens das abonações, entre as quais destacaria: castanho-loiro, dedilhador(ô), desbordante, desfitar, doidejar, encegueirar, engomação, entreparar, enxerimento, estremeço(ê), fanfar, foliento, fox(cs), inapetente, indenização, loroteiro, malcriação, mulher-feita, recém-nato, tricoline, vagabundar, vosmecê. As outras 19 datações que completam o número de 42 são de acepções dentro de verbetes. Recuperar essas utilizações para nós seria bem mais custoso em matéria de tempo, razão por que não seguem aqui.

Vicente de Paula da Silva Martins – UVA
Fortaleza/Sobral – CE
Ano I da Pandemia Covid-19

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