Estudos linguísticos: abordagens e análises interdisciplinares

ISBN: 978-65-87645-24-7
eISBN: 978-65-87645-25-4

Autor/Organizadores: Pedro Henrique Witchs; Mayara de Oliveira Nogueira; Lucyenne Matos da Costa Vieira-Machado; Cláudia Jotto Kawachi-Furlan

APRESENTAÇÃO

No contexto atual do Brasil, as o Humanas e Sociais, de um modo ainda mais marcado, têm enfrentado uma série de desafios, dada a falsa priorização das áreas tecnológicas ou aplicadas, a ausência de políticas de fomento e a crescente onda de desvalorização da ciência no país. Neste cenário em que são evidenciadas crises institucionais e políticas, pesquisadores e centros de pesquisa de todo país se movimentam na construção de estratégias de resistência e reexistência. É, pois, nesta conjuntura de tantos desafios e neste movimento transgressivo, que conquistas são alcançadas na Pós-Graduação – desafios e conquistas que foram largamente discutidos ao longo do V Congresso Nacional de Estudos Linguísticos (CONEL).

O CONEL é um evento promovido bianualmente, desde 2011, pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal do Espírito Santo (PPGEL/Ufes). A sua quinta edição, realizada em dezembro de 2019, reuniu cerca de 500 pesquisadores, estudantes de Graduação e de Pós-Graduação e professores da Educação Básica de diversas regiões do Brasil, interessados em discutir questões pertinentes às diversas áreas da Linguística.

Este livro reúne algumas das discussões que permearam o V CONEL, apresentadas em mesas-redondas e simpósios temáticos do evento. Deste modo, esperamos ampliar o debate promovido pelo Congresso, possibilitando uma abertura de diálogo em diversos campos dos Estudos Linguísticos. O livro é composto por dez capítulos distribuídos em três partes – Abordagens discursivas; Cognição e linguagem; e Linguística Aplicada e políticas linguísticas – as quais abrangem as concentrações temáticas presentes nas três linhas de pesquisa do PPGEL/Ufes: Estudos Analítico-descritivos da Linguagem; Estudos sobre Texto e Discurso; e Linguística Aplicada.

A primeira parte, Abordagens discursivas, se inicia com o capítulo Refletindo sobre a leitura e a escrita em uma perspectiva discursiva, de Adriana Recla. Nele, ao refletir sobre a leitura e a escrita como práticas sociais que propiciam o contato com diferentes gêneros, a autora toma como base a abordagem enunciativo-discursiva da Análise do Discurso para ampliar as discussões sobre as competências leitora e escritora. Apresenta ainda as contribuições que a Análise do Discurso pode oferecer às metodologias de ensino e de aprendizagem da língua portuguesa. No segundo capítulo, O discurso paratópico de Haydée Nicolussi: literatura e política, Júlia Almeida discute o processo de politização que permeia a produção literária da escritora modernista capixaba Haydée Nicolussi entre as décadas de 1930 e 1940. Recorrendo a pesquisas historiográficas e aos conceitos de subjetivação política, de Rancière, e de paratopia, de Maingueneau, a autora analisa ainda os efeitos paratópicos assumidos nos textos selecionados. No terceiro capítulo, Os gêneros de tiras e o humor como elemento de sua estrutura composicional, Alex Simões expõe a configuração dos gêneros de tiras a partir de sua Estrutura Potencial. Considerando a relevância dos gêneros dos quadrinhos para as práticas sociais e pedagógicas na sociedade, o autor evidencia como o humor se torna um elemento constituinte de alguns desses gêneros.

A segunda parte do livro, Cognição e linguagem, é composta por dois capítulos. No primeiro, A construção do significado na Linguística Cognitiva, Flávia Machado argumenta que a Linguística Cognitiva visualiza a linguagem como análise perspectivada pelo conhecimento, pelas conexões linguísticas e culturais e pela experiência humana. A autora discorre sobre fenômenos descritos pela Linguística Cognitiva na relação com a construção do conceito de significado. Em Reflexões sobre as relações da Pragmática e da Linguística Cognitiva com o processo de ensino de línguas, Aurélia Lyrio, tomando por base a proposta apresentada em seu Simpósio no V Conel, intitulado Estudos Pragmáticos e Cognitivos da Interação Cotidiana, discute a contextualização dos aspectos pragmáticos e sociopragmáticos decisivos em interações e suas relações com o ensino e aprendizagem de língua materna e estrangeira. A autora promove um salutar encontro da pragmática com a linguística cognitiva, descrevendo aspectos relevantes e fundamentais da comunicação cotidiana no âmbito social e acadêmico.

Na terceira e última parte, Linguística Aplicada e políticas linguísticas, são apresentados cinco capítulos. No primeiro, Análise da Conversa e Análise da Narrativa: reflexões sobre as abordagens e sobre as práticas de entendimento da vida social, Mayara Nogueira e Roberto Perobelli traçam um percurso teórico-metodológico sobre os estudos de fala-em-interação, voltando seus olhares para os campos da Análise da Narrativa e da Análise da Conversa. Considerando que se trata de uma abordagem ainda restrita a alguns centros de pesquisa no país, os pesquisadores fazem uma apresentação das pesquisas divulgadas durante o V CONEL e dos diálogos estabelecidos nesse encontro de pesquisadores. No capítulo Práticas pedagógicas no ensino-aprendizagem de língua inglesa para crianças de 4 e 5 anos: diversidade e diferenças, Gabriela Pires e Cláudia Kawachi-Furlan apresentam e discutem possibilidades de práticas pedagógicas com foco na diversidade e na diferença em aulas de inglês para crianças. A partir de entrevistas com professoras e coordenadora de uma escola de Educação Infantil, as autoras elaboraram planos de aula para intervenções nessa instituição. Após a aplicação das propostas pedagógicas, elas observam que, com base nas especificidades e necessidades do contexto, é possível promover práticas pedagógicas que ultrapassam o ensino do léxico e que focam na formação completa e crítica da criança.

Em Políticas para as línguas brasileiras: inventariando e promovendo o hunrückish, Rosângela Morello e Edenize Ponzo Peres traçam um panorama das recentes políticas linguísticas que têm levado à promoção do estatuto e ao (re)conhecimento das línguas brasileiras como patrimônio cultural imaterial. As autoras minam o mito monolinguismo brasileiro, ao exporem o cenário de diversidade linguística do país e, em especial, do Espírito Santo, ao evidenciarem as ações executadas pelo município de Marechal Floriano para a promoção das línguas de imigração ali faladas. No penúltimo capítulo, Aspectos históricos das políticas de línguas de sinais, Pedro Witchs e Lucyenne Vieira-Machado observam o percurso histórico da institucionalização das línguas de sinais e as posições que elas ocupam desde o século XVIII, sob a perspectiva do governamento linguístico. De acordo com os autores, a inclusão das línguas de sinais nas sociedades contemporâneas é condição básica para a melhoria da qualidade de vida das pessoas surdas e para a consolidação de cidadania em sua plenitude, possibilitando que o Direito à Educação (além de outros direitos fundamentais) seja efetivado.

Por fim, em Reflexões teórico-práticas sobre a formação do intérprete de língua de sinais na Educação Básica, Vanessa Martins tem como foco a formação profissional inicial do intérprete de língua de sinais que atua na Educação Básica. O trabalho de interpelação teórico-prática apresenta modos de fomentar um maior engajamento dos estudantes de graduação em disciplinas de sua grade curricular, bem como em atividades de pesquisas e de extensão – articulação essa que, segundo a autora, tanto incentiva a pesquisa quanto promove o campo empírico como lugar de apreensão de saberes.

Os temas abordados nos dez capítulos que compõem este livro são exemplos dos atuais debates travados nas diversas áreas dos Estudos Linguísticos e também na sociedade brasileira. Dessa forma, esperamos que a sua leitura possa subsidiar novas interlocuções no campo da Linguística e para além dele.

Vitória, junho de 2020.
Pedro Henrique Witchs
Mayara de Oliveira Nogueira
Lucyenne Matos da Costa Vieira-Machado
Cláudia Jotto Kawachi-Furlan
Edenize Ponzo Peres

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