Educação infantil na perspectiva histórico-cultural: concepções e práticas para o desenvolvimento integral da criança

ISBN: 978-65-87645-59-9
eISBN: 978-65-87645-90-2

Autor/Organizadores: Débora Cristina Sales da Cruz Vieira; Rhaisa Naiade Pael Farias; Simão de Miranda

Apresentação

Educação Infantil na Perspectiva Histórico-Cultural: Concepções e Práticas para o Desenvolvimento Integral da Criança. Este livro, coorganizado por mim e pelas professoras Débora Cristina Sales da Cruz Vieira e Rhaisa Naiade Pael Farias, também autoras, por várias razões é um marco na literatura de referência pedagógica brasileira voltada a quem atua na Educação Infantil. Primeiro, por ter se constituído a partir de um curso de Especialização em Educação Infantil à luz da Teoria Histórico-Cultural, que reuniu estudantes já profissionais na Educação Infantil com diferentes níveis de conhecimentos teórico-práticos, mas ansiosos e exigentes por experiências que arejassem seus fazeres na escola da infância. A motivação pela produção desta obra legitimou-se pela necessidade de oferecer, incialmente ao público participante do curso, produções originais, autorais e contextualizadas das disciplinas que compunham a referida Pós-Graduação, elaboradas pelo seu corpo docente. Entretanto, sabíamos de antemão que atenderia igualmente um vasto público interessado por esta perspectiva teórica na Educação Infantil e, assim como nós, tem dificuldade em se repertoriar com o conteúdo disponível no mercado livreiro.

Quando idealizei o curso de Especialização em Educação Infantil à luz da Teoria Histórico-Cultural, um desconforto apontou para uma demanda. Teríamos que empreender esforços intelectuais e, por que não, braçais, para reunir textos avulsos de autores diversos que atendessem às programações das disciplinas. O desafio se avolumava dada a originalidade da nossa proposta: articular a docência na Educação Infantil à Teoria Histórico-Cultural, nas suas dimensões teóricas, metodológicas e epistemológicas. Este ineditismo é outra razão que qualifica esta obra, ora ofertada aos profissionais na Educação Infantil, assim como a estudantes de graduação em Pedagogia e Psicologia, de pós-graduações em nível de lato e stricto senso no campo da Educação, Psicologia e Psicopedagogia.

Assim, esta obra cobre uma formação ampla e consistente para uma Educação Infantil em espaços de educação não doméstica, que considere as crianças e suas aprendizagens e desenvolvimento nas suas dimensões mais plurais. Sua terceira razão sustenta-se nas profundas implicações das autoras (e deste autor, docentes da Pós-Graduação) com a Teoria Histórico-Cultural, como pesquisadoras acadêmicas e, sobretudo, nas suas próprias práticas por também atuarem em diversos outros espaços com e na Educação Infantil.

Portanto, aqui está Educação Infantil na Perspectiva Histórico-Cultural: Concepções e Práticas para o Desenvolvimento Integral da Criança. São nove capítulos que discutem o que há de mais indispensável no contexto das aprendizagens e desenvolvimento da criança em instituições educativas.

O capítulo 1, Fundamentos da Educação Infantil: marcos legais, conceitos da Teoria Histórico-Cultural e práticas com a cultura, escrito pela professora Rhaisa Naiade Pael Farias, está organizado em três partes: a primeira dá ênfase à finalidade da Educação Infantil em promover o desenvolvimento integral da criança conforme a legislação vigente estabelece. A segunda aborda conceitos da Teoria Histórico-Cultural (THC) que fortalecem a necessidade de se trabalhar com as crianças em uma perspectiva de fomento integral de sua educação. A terceira parte trata de uma dimensão prática do cotidiano da instituição educativa, o trabalho com a cultura escrita. Essa etapa do texto evidencia as possibilidades de articulação entre os conceitos da THC e os documentos legais referentes à Educação Infantil. Por fim, considerações importantes que buscam sintetizar em quatro aspectos as reflexões decorrentes da relação teoria-prática abordada ao longo do texto.

O capítulo 2, Políticas de currículo para a Educação Infantil, da professora Maria Aparecida Camarano Martins, discute a constituição histórico-cultural dos marcos legais que impulsionaram a formulação de políticas educacionais voltadas à Educação Infantil. A perspectiva da abordagem é a da educação como um direito constitucional da criança sujeito de direitos, sob um novo prisma em relação aos processos formais de educação – o reconhecimento da Educação Infantil como espaço coletivo educacional comprometido com o desenvolvimento integral das crianças de 0 até 6 anos de idade. Desse reconhecimento, busca-se efetivar a constituição de uma política curricular para a Educação Infantil reveladora de um processo educativo decorrente das relações sociais que as crianças estabelecem com seus pares e com adultos no cotidiano dessas instituições. Tal processo demanda a aceitação dos saberes produzidos pelas crianças e de experiências vivenciadas por elas em diferentes contextos educativos e sociais. Nesse aspecto, os Campos de Experiências presentes listados na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) da Educação Infantil, fundados nas experiências das crianças em diferentes situações da vida cotidiana e de saberes constituídos de suas vivências, alinham-se à teoria histórico-cultural, provocando uma reflexão por parte do/a professor/a em relação a sua prática pedagógica. Essa organização curricular impulsiona a constituição de novos percursos que viabilizem uma maior aproximação com as experiências e saberes das crianças, com o objetivo de promover novas experiências educativas, outros avanços. Além disso, possibilita uma maior compreensão do que se depreende do cuidado e educação, das interações e brincadeira em contextos de Educação Infantil.

O capítulo 3, Apontamentos teóricos sobre Educação, cuidado e desenvolvimento de crianças na Teoria Histórico-Cultural, da professora Débora Cristina Sales da Cruz Vieira, apresenta apontamentos teóricos importantes sobre educação, cuidado e desenvolvimento de crianças na Teoria Histórico-Cultural. O texto está organizado em quatro tópicos: a) aprendizagem e desenvolvimento na Teoria Histórico-Cultural, que apresenta conceitos primordiais para uma aproximação teórica com a perspectiva; b) periodização do desenvolvimento infantil, que apresenta a organização de estágios do desenvolvimento partindo da atividade principal como norteadora do desenvolvimento humano; c) a institucionalização na infância, que apresenta a perspectiva da instrução na Educação Infantil de orientação dialética e de caráter humanizador; d) a brincadeira de faz de conta como atividade principal na infância. A reflexão deste texto também contribui com a difusão da obra de Vigotski e colaboradores, entre professoras e professores da Educação Infantil. Os conceitos do autor são entendidos aqui como um campo específico da Pedagogia, uma das ciências da Educação, concebendo-se que as ciências são constituídas de perspectivas e abordagens teóricas sobre determinado campo epistemológico.

O capítulo 4, Apropriação de conceitos matemáticos e científicos na Educação Infantil, escrito pela professora Maria Auristela Barbosa Alves de Miranda, é um alerta para a necessidade metodológica de utilizar uma lupa sobre aspectos costumeiramente deixados de lado na primeira etapa da Educação Básica. Com frequência discute-se sobre aspectos linguísticos e de apropriação da língua materna; sobre alfabetizar ou não nessa etapa; até onde ir, e como fazê-lo, na apresentação do sistema linguístico, na apropriação da leitura e da escrita, mas pouco nos atemos às ciências e aos saberes matemáticos. Todavia, à luz da Teoria Histórico-Cultural, a criança é um sujeito não fragmentado, não divisível, e ao mesmo tempo em que desenvolve a emoção, os afetos, aspectos cognitivos, motores, atencionais e volitivos também são mobilizados. Assim como, de acordo com a Base Nacional Comum Curricular – BNCC (BRASIL, 2017), as crianças na escola da infância se apropriam da cultura humana a partir de campos de experiências, que são inter-relacionados. Dessa forma, o capítulo discute em específico a apropriação de conceitos matemáticos e científicos, que estão direta e claramente relacionados ao campo de experiências Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações, embora também se façam muito presentes no campo Traços, sons, cores e formas, assim como em O eu, o outro e o nós. Destaca que ainda identificamos esses saberes nos demais campos: Escuta, fala, pensamento e imaginação e Corpo, gestos e movimentos. Portanto, busca essas relações no sentido de não fragmentar o ser humano, nem o patrimônio cultural da humanidade, nem as experiências na escola da infância.

O capítulo 5, Planejamento, didática e avaliação na Educação Infantil na perspectiva da Teoria Histórico-Cultural, produzido pela professora Maria do Socorro Martins Lima, discute contribuições da Teoria Histórico-Cultural para o planejamento, a didática e a avaliação na Educação Infantil. O texto passa primeiramente, pela explicação dos aspectos teóricos que envolvem estes processos, explorando conceitos, etapas, funções e modalidades. Em seguida, apresenta as ideias centrais desenvolvidas na Teoria Histórico-Cultural, como o processo de desenvolvimento, o papel do meio, a relação aprendizagem e desenvolvimento e o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal, analisando sua contribuição para a Educação Infantil. Procura destacar orientações das Diretrizes Curriculares Nacionais, da Base Nacional Comum Curricular e do Currículo em Movimento para a Educação Infantil no Distrito Federal, no que diz respeito as suas especificidades e recomendações a serem observadas no planejamento, didática e, em especial na avaliação, alertando para a superação da concepção de seleção, classificação ou promoção, no segmento da Educação Infantil. Por fim, faz considerações importantes acerca de como pensar, organizar e desenvolver o planejamento, a didática e avaliação na Educação Infantil, com amparo nesta proposta teórica.

O capítulo 6, Naturalização da brincadeira: uma visão equivocada do brincar como algo natural, de autoria da professora Andréia Pereira de Araújo Martinez, alerta para o equívoco de caracterizar a infância, enquanto etapa da vida humana, como algo natural. Entendendo assim, as crianças e suas brincadeiras são naturalizadas. O texto transita em meio a discussões teóricas que divergem desse pensamento, tendo por base a Teoria Histórico-Cultural, lançando problematizações e um olhar reflexivo para tal debate, preconizando que a existência humana extrapola as determinações naturais, pois é engendrada pelas relações sociais e culturais, historicamente constituídas. Realiza um esforço para diferenciar brincadeira, brinquedo e jogo, e evidencia o papel da brincadeira para a percepção das representações sociais pelas crianças. Além disso, traz à discussão o conteúdo dos documentos curriculares nacionais acerca da brincadeira e de sua importância para o desenvolvimento das crianças.

O capítulo 7, Educação infantil inclusiva: pelo direito à diversidade, novamente da professora Maria Auristela Barbosa Alves de Miranda, discute os marcos históricos e legais da Educação Especial e sua constituição como inclusiva, sua transversalidade em todos os níveis, etapas e modalidades da educação brasileira. Traz à baila o pensamento de Vigotski a respeito da Educação Especial com uma ótica inclusiva. Vale lembrar que, embora o autor tenha falecido prematuramente, aos 38 anos de idade, no ano de 1934, é vastíssima sua produção nesse campo, sendo considerado um de seus fundadores na Rússia. Discute também o desenvolvimento infantil, buscando abarcar sua diversidade e a importância da escola da infância como garantidora do direito à educação para a emancipação e desenvolvimento integral de todas as crianças. Assevera que a história, de acordo com a Teoria Histórico-Cultural, é uma totalidade que se constitui dialeticamente, ou seja, em constante movimento, entre contradições e mediações de signos e instrumentos, nas relações entre os seres humanos. Tanto é assim que na entrada da segunda década do século XXI ainda deparamos com experiências de segregação, integração e inclusão no que diz respeito a práticas educativas em instituições não domésticas. Esperamos, com as presentes discussões, fomentar um repensar e reorientar de ações pedagógicas no sentido de construirmos, de fato, uma escola da infância inclusiva, na qual as experiências sejam colaborativas e emancipadoras; uma escola da infância onde a diversidade não seja um problema, mas antes uma riqueza.

O capítulo 8, O Corpo e o movimento no contexto da Educação Infantil na Perspectiva da Teoria Histórico-Cultural: reflexões necessárias, da professora Ivete Mangueira de Souza Oliveira, proporciona reflexões sobre o corpo e o movimento das crianças no âmbito da Educação Infantil na perspectiva da Teoria Histórico-Cultural, evidenciando sua importância para o desenvolvimento da criança nessa primeira etapa da educação básica. Também destaca aspectos da prática pedagógica do professor como organizador do ambiente educativo. Levanta questões fulcrais norteadoras das discussões propostas: Qual o espaço e a atenção destinada ao corpo da criança, especificamente, a sua potencialidade no cotidiano da Educação Infantil? Qual importância do corpo e movimento como experiência para o desenvolvimento das crianças? Como o corpo e suas linguagens podem ocupar os espaços da escola da infância? Como a prática pedagógica pode se constituir em relação ao corpo e movimento das crianças considerando as especificidades da Educação Infantil?

O capítulo 9, Literatura, aprendizagens e desenvolvimento na Educação Infantil à luz da Teoria Histórico-Cultural, escrito por mim, propõe articulações entre literatura, aprendizagens e desenvolvimento na Educação Infantil sob o prisma da Teoria Histórico-Cultural. Inicia com uma retrospectiva histórica da origem da literatura na antiguidade clássica, localizando suas origens e desenvolvimento no Egito e nos estudos de Aristóteles sobre narrativas e formas literárias que impactaram este tema em todo o mundo ocidental. Discute os conceitos técnicos e teóricos para a literatura infantil, passando pelas controvérsias acerca do seu utilitarismo. Explora suas possibilidades com vistas ao incremento das aprendizagens e desenvolvimento na Educação Infantil, à luz da Base Nacional Comum Curricular e sob o prisma da Teoria Histórico-Cultural. Para isso, discute, antes, o que são aprendizagens e desenvolvimento nesta perspectiva. Em seguida, indaga como estas tramas podem se concretizar na Educação Infantil, oferecendo sugestões de vivências inspiradoras para professores e professoras alimentarem seus planejamentos com o amparo nesta proposta teórica. Ao final, construímos e recomendamos um guia para avaliação e seleção de literatura para a Educação Infantil.

Desejamos, eu e as colegas coorganizadoras e autoras, professoras Débora e Rhaisa, que você faça bom proveito deste trabalho concebido com muito zelo, respeito, dedicação e, sobretudo, esperanças de que contribua com as revisões dos seus saberes e práticas pedagógicas na sua atuação na Educação Infantil. É necessário registrar especiais agradecimentos ao Instituto Saber, no Distrito Federal, que acolheu e apostou na proposta desafiadora do curso, que hoje se transforma em livro.

E você, prezada professora e prezado professor, receba o abraço carinhoso deste seu companheiro, arquiteto de sonhos e engenheiro de utopias.

Professor Dr. Simão de Miranda

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