Pesquisas em análise do discurso, multimodalidade & ensino: debates teóricos e metodológicos. Volume 1.

ISBN: 978-65-87645-19-3

Autor/Organizadores: Francisco Jeimes de Oliveira Paiva e Ana Maria Pereira Lima

Prefácio

Carla Viana Coscarelli[1]

Quando professores e pesquisadores se reúnem, para trabalhar, é melhor prestarmos atenção neles porque muita coisa boa virá. Francisco Jeimes de Oliveira Paiva e Ana Maria Pereira Lima organizaram esse livro com o trabalho de muitos autores que têm se debruçado sobre questões atuais de extrema relevância e que nos levam a pensar as linguagens que mobilizamos no nosso falar e que recebemos das diversas mídias a que temos acesso atualmente.

Este livro reúne 20 trabalhos de doutores, mestrandos e graduandos da área de Letras, o que demonstra uma preocupação em incentivar e valorizar as produções dos alunos desde que entram para a universidade, mostrando que eles são capazes de desenvolver trabalhos de muita qualidade, maturidade e profundidade como os que aqui estão reunidos. São textos densos, mas escritos de forma clara e fluente, que nos mergulham numa leitura profunda e crítica de diversas circunstâncias de nossa vida cotidiana e nos chamam a todo tempo para uma postura mais engajada diante dos fatos que vivenciamos cotidianamente e nos convidam a tomar atitudes contra a desigualdade social, a fim de minimizar ou eliminar os diversos tipos de preconceito que ainda são tão frequentes, fortes e violentos em nossa sociedade.

Esses trabalhos têm em comum uma grande preocupação de trazer reflexões sobre os usos das linguagens articuladas em diversos textos, tomando Análise do Discurso como pilar do suporte teórico usado.

Além de nos ajudar a compreender melhor a Análise do Discurso bem como a Análise do Discurso Crítica, a base teórica usada nesses textos faz com que eles tragam uma análise atenta e crítica de diversos eventos e ajudam a desnaturalizar o nosso olhar para perceber como os elementos usados nos textos refletem pensamentos, ideologias e revelam preconceitos que precisam ser eliminados de nossa sociedade. Entre eles podemos citar o racismo, a misoginia, o preconceito contra LGBTs e pessoas com necessidades especiais, o discurso de ódio que busca, na verdade, perpetuar relações de desigualdade para a manutenção de poder daqueles que se julgam no direito de serem dominadores.

A linguagem é uma prática social que nada tem de neutra e que, frequentemente, reforça relações de poder que precisam ser desconstruídas. Vivemos uma sociedade eurocêntrica que valoriza o que é estrangeiro, se identificado com ele e, assim, procura se afastar de tudo o que ressalta sua identidade brasileira. Precisamos reforçar a necessidade de um olhar decolonial, ou seja, de um olhar crítico para nossa sociedade, para as relações sociais, econômicas, as políticas educacionais e de inclusão, para, a partir desse novo olhar, buscar formas de diminuir as diferenças e as injustiças que ainda são tão gritantes.

Nesse sentido, a proposta de uma pedagogia decolonial e de interculturalidade crítica requer a superação tanto de padrões epistemológicos hegemônicos no seio da intelectualidade brasileira quanto a afirmação de novos espaços de enunciação epistêmica nos movimentos sociais. (OLIVEIRA, CANDAU, 2010, p. 36)

Com esse viés teórico, os trabalhos apresentados nesse livro versam sobre diversos aspectos que merecem uma discussão profunda, um olhar atento e ações urgentes como a representatividade feminina na nossa política e as formas de obstrução desses caminhos impostos às mulheres, a identidade negra e LGBT e as formas de manifestação de preconceitos e de restrições impostas a esses grupos.

Vários gêneros textuais são alvo da análise cuidadosa dos autores que participam desse livro, charges, vídeo resenhas, infográficos digitais, anúncios publicitários, publicações em redes sociais em seus diversos formatos e linguagens. Eles são discutidos sob um viés crítico, em que se abordam tanto as questões relacionadas à multimodalidade, ou seja, às múltiplas linguagens de que eles são compostos, mas também quanto às questões ideológicas, culturais, sociais políticas e educacionais envolvidas neles.

Aliando teoria e prática, esses artigos nos ajudam a encontrar formas de trazer para a escola as análises de textos e as formas de abordagens desses temas que precisam fazer parte da nossa educação, uma vez que requerem uma postura comprometida e ativa diante dos acontecimentos do nosso cotidiano. Esses artigos trazem uma forte contribuição para as práticas educacionais, auxiliando alunos e professores a revelar os discursos e ideologias implícitas nos textos do nosso cotidiano e a adotarem uma postura crítica e ativa em relação a eles. Dessa forma, as atividades propostas visam encontrar formas de romper com o círculo vicioso de práticas individualistas, excludentes, preconceituosas e violentas que, infelizmente, ainda compõe nossa história, para substituí-las por práticas participativas, colaborativas e engajadas, que podem ser transformadoras por se apoiarem numa visão inclusiva, acolhedora, diversa, empoderadora e decolonial das práticas escolares e das nossas práticas sociais.

Referências bibliográficas
OLIVEIRA, Luiz Fernandes de; CANDAU, Vera Maria Ferrão. Pedagogia decolonial e educação antirracista e intercultural no Brasil. Educ. rev., Belo Horizonte, v. 26, n. 1, p. 15-40, abril, 2010. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-46982010000100002&lng=en&nrm=iso. Acessado em 21/09/2020.

1- Professora Titular da Universidade Federal de Minas Gerais, onde participa do Núcleo de Pesquisa Lingtec, do Ceale e coordena o Projeto de Extensão Redigir. Tem graduação em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (1988), mestrado em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1993), doutorado em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1999), pós-doutorado em Ciências Cognitivas pela University of California San Diego (2005) e pós-doutorado em Educação pela University of Rhode Island.

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