Pesquisas em análise do discurso, multimodalidade & ensino: debates teóricos e metodológicos. Volume 2

ISBN: 978-65-87645-20-9

Autor/Organizadores: Francisco Jeimes de Oliveira Paiva e Ana Maria Pereira Lima

Prefácio

Quando recebi honrosamente o convite para prefaciar este livro, o Brasil vivia um contexto de pandemia mundial, por conta do coronavírus SARS-COV-2, e já ocupava a triste marca de segundo colocado na lista de países com maior número de mortes no planeta por conta da COVID-19, doença causada pelo vírus. Paralelamente a esse evento catastrófico, se via, sobretudo na palma da mão dos sujeitos que constituem as sociedades, chegar textos diversos, constituído por diferentes semioses, atravessados pelos mais variados discursos: aplicativos como WhatsApp ou sites de redes sociais, como Instagram, Twitter ou Facebook, ajudavam a divulgar todo tipo de informação, sendo verídicas ou não, formando um verdadeiro bombardeio informacional e promovendo os mais diferentes comportamentos sociais. Termos como lives, memes, fake news, criticidade, feminismo e feminicídio, gordofobia, pessoas pretas, nunca foram tão cotidianos no boca-a-boca brasileiro de 2020.

É importante situar o contexto da escrita deste prefácio, pois foi nesse ambiente sócio-histórico-cultural que tive a confiança dos organizadores para ler, em primeira mão, os vinte textos que constituem este livro e que agora lhes chegam às mãos. Talvez não haja um momento tão propício para trazer a público uma obra que é atravessada pela interdisciplinaridade, ensaiada por documentos norteadores da educação brasileira, como a Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2017).

Aqui estão disponíveis textos cujo arcabouço teórico-metodológico repousa em diferentes análises textual-discursivas: dos baldrames bakhtinianos da concepção de linguagem e da própria natureza do sujeito, como o texto de Alves e Alves, no capítulo 1; passando pela constituição dos discursos e interdiscursos, debatidos por Foucault (1969) e pelos Estudos Críticos do Discurso (VAN DIJK, 2018; FAIRCLOUGH, 2001; 2003), e chegando a diferentes análises semióticas (BARROS; 2005; KRESS; VAN LEEUWEN, 2006; NLG, 1996). Em suma, trata-se de uma organização cuidadosa que tem como propósito, dentre outras coisas, mostrar que a linguagem, que também se caracteriza como espaço de luta pelo poder, se constitui de muitos modos semióticos, o que demanda formas diferentes de analisá-la.

Levanto aqui três grandes méritos da obra: primeiro, a clareza e objetividade das discussões aqui estabelecidas: com texto de fácil acesso, os autores potencializam uma leitura muito mais produtiva, facilitando a vida do leitor pouco familiarizado com conceitos acadêmicos nem sempre simples de serem apreendidos. Segundo o potencial pedagógico que atravessa a obra: muitos dos trabalhos aqui elencados voltam-se para o professor, apresentando-lhe saídas interessantes para o trabalho em sala de aula, fundamentados no que há de mais atual sobre as discussões das relações de poder pela linguagem e na leitura de textos multissemióticos. Por fim, a emergência de discutir cientificamente conceitos que, muitas vezes, são largamente espraiados pelo senso comum, sem quaisquer criticidades. Em tempos de negação da ciência, esse traço explicativo da obra é fulcral.

Por fim, este livro é recomendado para estudantes e professores de Ciências Humanas em geral, sobretudo os mais interessados nos fenômenos da linguagem, sua característica de constituição multimodal e multissemiótica e principalmente nas relações de poder que atravessam os textos. Eis aqui um interessante material de leitura que ajudará a compreender muitos dos fenômenos sociais que estão se desenrolando em tempos pandêmicos.

Vicente de Lima-Neto
Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA)
Agosto de 2020.

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