A docência (que) conta: narrativas de isolamento social

ISBN: 978-65-86101-80-5
eISBN: 978-65-5869-007-8

Autor/Organizadores: Luiza Alves de Oliveira; Juaciara Barrozo Gomes; Adriana Alves Fernandes Costa

A HISTÓRIA DESSE LIVRO

A história desse livro se fez em um contexto pandêmico e de grave crise política. Um momento que muitos de nós não cogitávamos viver em nossas histórias de vida. O caos se instaura e vivemos uma distopia que (re)desenha a realidade solitária de uma sociedade egocêntrica, consumista e que se viu ameaçada por vírus letal e altamente contagioso. Para evitar milhares de mortes, precisamos ficar em casa. E, nessa condição, as formas de existências no mundo tiveram de se refazer num movimento de tensão, atenção, amorosidade e esvaziamentos. Parece que as palavras nos faltam, que as narrativas se silenciam diante do desconhecido terror. Mas, não! As narrativas estão em nós, estão encarnadas em nossa composição humana. Como professoras e professores, tecemos muitas histórias. Como mães, pais, filhos, filhas, amigos, amigas, irmãos, irmãs e em tantos outros papéis sociais, reinventamo-nos em nossas relações, nos constituímos de e por histórias. Em tempos de isolamento, elas ainda estão presentes. Impossível não estarem, somos histórias. Então, encontramo-nos através e por elas também.

Assim, o que esse livro nos traz? Traz as reações, atitudes, sentimentos, formas de ser e viver, revelando-nos para o outro e para nós mesmos. Interessa-nos trazer um pouco de cada um enquanto pessoa, enquanto profissional, enquanto sujeito que, através da sua individualidade, denuncia o contexto social. Ao convidarmos nossos colegas professores para escreverem as suas narrativas, tínhamos também a intenção de provocar, nesses sujeitos narradores, a reflexão sobre o sentido do nosso fazer responsivo em tempos de incertezas. Até mesmo a arte da capa do livro foi criada por um dos professores-autores do presente livro, pois o queríamos tecido e pensado coletivamente.

Por isso, cada autor escreveu genuinamente o seu texto. Ora acenando, muitas vezes, os sentidos mais profundos do pensar sobre esse momento tão intenso, ora denunciando anseios, reflexões, dúvidas e até possibilidades de rupturas de vínculos com as instituições em que lecionam. Encontramos inclusive posicionamentos contrários à expansão desenfreada, precarizada e mercantilizada do ser e fazer docente de modo mais prevalecente nesse cenário pandêmico. Contudo, os escritos convergiram em espelhar singularidades, uma vez que não tiveram contato com as narrativas de seus colegas e refletem, desse modo, aglomerados que se interligam por abundantes e quiçá infinitos canais de relações e afastamentos, todos cogitados, ou não, pelos leitores desejosos de histórias. Daí, foi dificultoso pensar em um critério para dispor os textos, já que são tantos os sentidos, gêneros e histórias que contam. A opção foi colocar os autores em ordem alfabética, como memória das classes e das chamadas escolares que convocam nossa presença necessária a dizer de/em nós.

Também foi nosso desejo, contudo, encontrarmo-nos pelas histórias e por meio delas, já que fisicamente não podemos. Lidamos, todos os dias, com inquietantes incertezas e tudo isso nos impeliu chamar colegas que, de alguma maneira, têm a narrativa como fonte de entendimento de produção de vida. Não foi por acaso que o título do livro remete às palavras que contam de Bruna Molisani, cuja pesquisa de doutoramento nos presenteou com a potencialidade de contar, narrar, enumerar, valer à pena. Ela também é autora nessa obra que pretende nomear a tantos de nós.

O livro é um dos nossos registros, uma reação a esse momento. Aqui, estão polifonias, mônadas, estranhamentos, risos, caretas, afetos, cheiros e reinvenções. São as nossas palavras carregadas de tudo que há em nós. Aqui, está inscrito o nosso manifesto amoroso e de desejo por dias mais calorosos de alegrias e igualdade. Nesse lugar, não há espaço para o ódio, uma vez que estamos nós com narrativas que não são apenas nossas, mas de todos que almejam encontros potentes por um mundo mais justo.

Luiza Alves de Oliveira
Adriana Alves Fernandes Costa
Juaciara Barrozo Gomes
22 de abril de 2020.

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