Gêneros e sexualidades: em tempos de (re)existência

eISBN: 978-65-5869-005-4

Autor/Organizadores: Alexandre Sebastião Ferrari Soares; Andréa Cristina Martelli; Dantielli Assumpção Garcia

EM MEIO À PANDEMIA, DISCUSSÕES SOBRE GÊNEROS E SEXUALIDADES

Quando iniciamos a organização desta obra, não tínhamos ideia de como seriam nossas vidas no ano de 2020. Um período histórico em que o mundo se isola para enfrentar um vírus, o Coronavírus, e uma doença, a COVID-19. Atrações turísticas mundiais, campeonatos esportivos, praias, lojas, comércios, museus, escolas e universidades são fechados. Álcool em gel 70%, máscara, distanciamento físico e cuidados com a higiene das mãos tornaram-se comum em nosso cotidiano, aliás, para algumas pessoas, uma vez que a pandemia escancarou as desigualdades sociais, raciais, de gênero brasileiras.

Nossas vidas mudaram significativamente e fomos atravessados por sentimentos ambíguos oriundos da pandemia ocasionada pelo vírus. Nossos dias mesclados entre o medo da contaminação, o negacionismo da doença por grande parte da população, a ausência de políticas públicas de saúde e de orientações das autoridades sanitárias brasileiras, os desencontros entre os discursos do governo brasileiro com organismos internacionais como a Organização Mundial da Saúde – OMS e com as universidades públicas (federais e estaduais) que, apesar dos parcos recursos estão na linha de frente das pesquisas relacionadas à pandemia e a imensa saudade do contato físico com as pessoas que nos são caras. Sofrimento psíquico, medo, ansiedade, pânico, perdas se entrelaçam com a esperança de que a ciência produza uma vacina e, depois dela, quiçá nossa vida encontre o “novo normal”.

Nesse emaranhado de sensações e sentimentos, o desejo de resistir nos impeliu a organizar mais uma obra do Grupo de Estudo de Educação e Sexualidade – GEPEX. Resistência no sentido literal de “conservar-se firme, não sucumbir, de não ceder ao choque de outro corpo”; resistir diante de discursos fundamentados no senso comum, os quais se expressam em preconceitos, discriminações e violências. Nesse momento, pelo qual a sociedade brasileira atravessa, este livro torna-se um símbolo de resistência de pessoas que pesquisam as temáticas de gênero, sexualidade, diversidade sexual, violência sexual, de gênero.

O livro é dividido em duas partes. Na primeira, constam as discussões de Gêneros. No texto, “Dizeres darwinistas e platônicos em análise: um embate entre ciência, sujeitos e classes sociais”, as autoras Anna Deyse Rafaela Peinhopf e Dantielli Assumpção Garcia propuseram um gesto de análise de dizeres cientificistas, investigando relações entre a teoria darwinista e a tese platônica da Antiguidade. Esse estudo parte da Filosofia para chegar a outras áreas epistemológicas, investigando como os dizeres científicos entendem as classes sociais e contribuem, ou não, para a legitimação de uma divisão entre os sujeitos. Assim, investigaram se há outro discurso sendo mobilizado quando cientistas formulam suas hipóteses, mesmo que essa área epistemológica se veja como neutra e isenta de opiniões subjetivas. Para tanto, selecionaram duas sequências discursivas a partir de recortes dos livros A origem do homem e a seleção natural, de Charles Darwin (1871), e A República, de Platão (IV a.C).

Andressa Lopes Cardoso Tominaga, Aparecida Percilia Silva de Barros e Bárbara Anzolin, no texto “A violência sexual contra a mulher como produto e produtora das desigualdades de gênero”, realizam uma reflexão introdutória sobre a violência sexual contra a mulher e algumas possíveis consequências, a partir de revisão bibliográfica e documental. Partem de uma perspectiva que entende as relações sociais como construídas histórica e/ou culturalmente. Concluem o texto com questionamentos e consideram, ainda, a necessidade de mais estudos, reflexões e informações sobre a temática. Bem como discussão sobre o assunto nos diversos espaços sociais para profissionais da rede socioassistencial e em outros espaços, no intuito de contribuir para o acolhimento dessas mulheres, para desnaturalização da violência gênero.

Em “As marcas da violência sexual na vida de uma mulher”, Izana Stamm Brol e Andréa Cristina Martelli buscam compreender as consequências de um abuso sexual sofrido na adolescência na vida de uma mulher, por meio da História Oral. O abuso sexual compreendido como qualquer forma de contato sexual entre um/a adolescente com um adulto, violência que pode desencadear uma série de consequências negativas para a vida da vítima. Os resultados do estudo apontaram que a vítima de abuso sexual tende a ter dificuldade nas relações familiares, conjugais e sociais, podendo sentir culpa, vergonha e medo. Sentimentos contraditórios e complexos, difíceis de lidar sozinhos, sem apoio e acompanhamentos necessários.

Kaoana Sopelsa, em “Minha voz uso pra dizer o que se cala: reflexões sobre a inserção masculina na luta pelo fim da violência contra as mulheres”, relata a sua fala na Câmara de Vereadores de Cascavel-PR, no dia 5 de dezembro de 2019. A fala construída com a finalidade de tensionar o modelo e os marcadores da masculinidade hegemônica é composta pelo compartilhamento de relatos femininos, pela atual legislação brasileira, por dados e índices de violência. Ela marca, de acordo com o binarismo presente na proposta do evento, o lugar de fala como o exercício feminino de direito à voz, direito de ser escutada; além disso, desloca os homens para o lugar de escuta, pelo exercício pedagógico de responsabilizar-se por seu lugar como atores majoritários das violências infligidas contra as mulheres. O caminho proposto visa ao início da erradicação, marcado pela legitimação das denúncias femininas, que justificam posicionamentos contrários ao machismo.

“A prática educativa na construção da (des) igualdade de gênero na escola”, de autoria Luana Regina Borges, parte do pressuposto de que a escola é o local do desenvolvimento humano, responsável pela transmissão do conhecimento; diante disso, ela se torna o lócus, juntamente à instituição familiar, em que acontecem as primeiras interações sociais do sujeito. Dessa forma, pensa-se a prática educativa dos professores do ensino fundamental, bem como os desafios de promover a igualdade de gênero na escola. Assim, a partir de uma pesquisa bibliográfica sobre o tema e da análise de dois livros literários infantis fundamenta a proposta de trabalho docente para o rompimento dos estereótipos de feminino e masculino, reforçados no ambiente escolar. Por fim, indica que há possibilidade de realizar o trabalho pedagógico com o compromisso de superar os estereótipos presentes na sociedade em busca de uma educação emancipatória.

As autoras, Patrícia Canabarro Coelho de Moraes e Andréa Cristina Martelli, no texto “Mãe, esposa e mulher: elementos da identidade feminina a partir da revista Jornal das Moças”, analisam algumas publicações contidas na revista “Jornal das Moças” (1914-1965) com discursos que investem na construção de um modelo de “mulher ideal”. Nesse sentido, o objetivo é analisar o discurso ideológico nos diversos gêneros textuais que compõem a revista e quais são os elementos presentes nas publicações que sustentam a identidade feminina – os papéis de mãe, mulher e esposa – e tudo aquilo que define a construção social da categoria “mulher” através da perspectiva de gênero. Para isto, utilizaram recortes de diversos trechos da revista e com aporte teórico apoiado em autoras como Simone de Beauvoir, Guacira L. Louro, Michelle Perrot, dentre outras para contribuir com as análises e discussões referentes à temática proposta.

Em, “O cenário do nascimento: desapropriação e dominação do corpo feminino”, Alessandra Crystian Engles dos Reis e Solange de Fátima Reis Conterno abordam o trabalho do parto e nascimento. A problemática exposta remete à reflexão de alguns elementos sociais e históricos que determinam a transformação de um evento fisiológico, em um evento, na maioria das vezes, determinado por vontade de outro, o profissional da saúde. Diante desse cenário, questiona-se se o parto vaginal sem a conotação de sofrimento e como um evento/acontecimento prazeroso e desejado tem sido subtraído da experiência existencial de mulheres e de suas famílias por uma questão de dominação de gênero? Utilizou-se das ideias de Pierre Bourdieu para a discussão sobre as relações de poder e a disciplinarização do corpo feminino sob a óptica da dominação simbólica.

Sônia Camila da Silva Gomes e Bárbara Anzolin apresentam no texto “Estudos de gênero e o cuidado em saúde com gestantes na Atenção Básica: relato de experiência” o relato de uma experiência vivenciada no estágio curricular obrigatório específico de um curso de Psicologia do noroeste do Paraná. As intervenções foram realizadas com gestantes e puérperas em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) durante o ano de 2019. A partir da inserção no território e conhecimento das demandas, o objetivo foi o de promover um espaço de escuta e acolhimento para gestantes e puérperas, em que pudessem ser problematizadas e compartilhadas as experiências e temas propostos pelas participantes. Isso permitiu perceber como é importante e necessário um trabalho que legitime os processos que atravessam o ser mulher e o processo de gestação e puerpério, também, a aproximação com o trabalho da psicologia na saúde pública, mais especificamente na Atenção Básica, promovendo a saúde das mulheres.

E no texto, “Docentes masculinos na Educação Infantil”, Rodolfo Agostini de Souza e Andréa Cristina Martelli abordam a docência masculina na Educação Infantil, analisando se o professor sofre preconceitos nos Centros Municipais de Educação Infantil – CMEIs, bem como buscam compreender as origens desses e constatar, se caso ocorram, como a escola tem enfrentado essas situações e manifestações. A pesquisa caracteriza-se pela abordagem qualitativa e a fim de alcançar os objetivos propostos realizaram a coleta de dados por meio de questionário online com os professores da Rede Municipal de Educação de Cascavel-PR. A análise dos dados demonstrou que a concepção que a docência infantil caracteriza-se como uma profissão feminina deve ser problematizada, pois, uma vez que tanto homens como mulheres podem exercê-la com uma formação adequada para essa modalidade.

Em “Entre corpos abjetados: o discurso de Rogéria como a travesti da família brasileira”, Silvana de Araújo Vaillões e Luiz Augusto Mugnai discutem o discurso da travesti Rogéria, conhecida atriz brasileira, que afirmou, por várias vezes, ser a travesti da “família brasileira”. Com base em sua biografia, objetivaram perceber se há realmente lugar para a figura da travesti, tão estigmatizada, na família brasileira, a saber, a personificação da sociedade atual. Utilizaram do viés discursivo da Análise de discurso de orientação francesa para refletir como o corpo da travesti é construído biopoliticamente, como abjeto. Para tal, escolheram algumas das falas de Rogéria, publicadas em sua biografia “Rogéria, uma mulher e mais um pouco”, bem como autores que estudam a causa travesti, a saber, Don Kulick (2008), Letícia Lanz (2015), Berenice Bento (2018/2017/2006), Larissa Pelúcio (2007/2009), entre outros/as, a fim de perceber se há espaço para a travesti, na forma como vivencia sua identidade de gênero, na sociedade atual brasileira.

A segunda parte do livro versará sobre as sexualidades e a diversidade sexual. Os autores Alexandre S. Ferrari Soares e Alexandre da Silva Zanella, em “O discurso jornalístico sobre o sexo em tempos de pandemia: uma questão de classe”, escrevem sobre como o discurso jornalístico (de circulação nacional) produz sentidos distintos ao discutir questões sobre o corpo, o desejo e o prazer em tempos de pandemia e significa também de forma distinta os sujeitos que podem estar em quarentena e os que não podem quando trata dessas mesmas questões. Como ensinou Pêcheux ([1978] 2009, p. 273), há a luta de classes, e esta é uma “uma luta pelo sentido das palavras, expressões e enunciados, uma luta vital por cada uma das duas classes sociais opostas que têm se confrontado ao longo da história”. Analisar os dizeres sobre o sexo em tempos de pandemia é observar como a ideologia se inscreve no campo da linguagem dizendo dos sujeitos e de suas relações.

Em “Como a universidade trabalha a sexualidade com a sociedade? um estudo com atividades extensionistas”, Wellington Soares de Lima e Lourdes Aparecida Della Justina apresentam uma pesquisa de cunho qualitativo com o objetivo de apresentar alguns descritores que apontam o trabalho da sexualidade por atividades extensionistas em uma universidade pública. Foram obtidas atividades de extensão propostas e analisadas nesse trabalho os vieses da sexualidade observados (biológico, social e psicológico), a amplitude de alcance dessas atividades quanto aos municípios de aplicação e as estratégias e recursos utilizados para o trabalho das atividades. Diante do estudo, perceberam que a sexualidade necessita ser discutida socialmente, pois é por meio deste elo entre universidade e sociedade que os saberes científicos são construídos e podem favorecer a vivência e sobrevivência do maior número possível de indivíduos.

Gabriela Hansen Alves, no texto “A concessão do benefício previdenciário de pensão por morte nas relações homoafetivas”, discute sobre o cabimento legal da concessão do benefício de pensão por morte a cônjuges viúvos e viúvas que viviam relações homoafetivas. Para tecer a análise, é necessário compreender questões como qualidade de segurado e segurada do segurado instituidor e segurada instituidora, quem são os legitimados e as legitimadas a receber tal benefício e desenvolver uma longa análise constitucional e cível acerca do que a lei dispõe sobre casamento, união estável e relações homoafetivas. É de suma relevância esclarecer que o cabimento do benefício previdenciário ora em exame está ligado a conceitos da legislação civil, constitucional e previdenciária, razão esta que justifica a o amplo debate no que tange a tais vertentes jurídicas.

Convidamos você para a leitura dessa obra com a mesma paixão e liberdade a qual foi escrita e organizada, a nós, não cabe outro verbo a não ser RESISTIR.

Alexandre Sebastião Ferrari Soares
Andréa Cristina Martelli
Dantielli Assumpção Garcia

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