Práticas pedagógicas e material didático no ensino de português como língua não materna

ISBN: 978-85-7993-626-5
eISBN: 978-65-5869-006-1

Autor/Organizadores: Silvia Ines Coneglian Carrilho de Vasconcelos

APRESENTAÇÃO

PRÁTICAS PEDAGÓGICAS E ANALÍTICAS A SERVIÇO DO ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA COMO NÃO MATERNA

A presente coletânea – Práticas pedagógicas e material didático no ensino de português como língua não materna- é o resultado de projetos desenvolvidos por pesquisadores de diferentes instituições: da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), especialmente do Mestrado Profissional de Letras (PROFLETRAS), da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), da Universidade do Estado do Maranhão (UEMA), da Universidade Nacional de Rosário, Argentina, e da Universidade de Princeton, New Jersey, EUA. Todos esses pesquisadores têm em comum um enfrentamento de questões concretas referentes ao ensino da língua portuguesa considerada como não materna, em relação à elaboração, à aplicação ou à análise de materiais didáticos e à decorrente reflexão acerca de práticas de ensino desse campo específico. Tal enfrentamento dessas questões vem estimulando os quinze autores desta coletânea a disseminarem suas contribuições para o debate e para a construção de saberes em relação ao ensino da língua portuguesa aqui genericamente caracterizada como não materna, numa tentativa de cobrir um campo cujas denominações variam como, por exemplo, língua estrangeira, segunda língua ou língua adicional, entre muitas outras (ver nota de rodapé do último capítulo desta coletânea), cujas concepções epistemológicas diferem, mas que, aqui, estão neutralizadas.

Com o objetivo de trazer ao público acadêmico, que vivencia os desafios constantes das práticas de ensino da língua portuguesa para estrangeiros, a coletânea, financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes, disponibiliza, em dez capítulos, divididos em duas partes – Práticas Pedagógicas e Problematizando o Material Didático – as contribuições das experiências ou das análises nesse campo, trazendo questões importantes para um debate que se deseja profícuo.

Na parte I – Práticas Pedagógicas – estão sete capítulos conforme síntese a seguir.

O capítulo Africanidades e saudades: um encontro entre Haiti e Brasil por meio da música brasileira, de Aline Cristina Pereira e Edna Kurisini Diatel, ambas mestrandas do PROFLETRAS, traz a experiência de trabalho com a música popular brasileira de Jorge Ben Jor e de Luiz Gonzaga com haitianos sediados em Joinville (SC). Questões como racismo e intolerância estão presentes nas reflexões, bem como estratégias de superação de dificuldades de uso da língua portuguesa por haitianos no contexto joinvilense. Os apoios teóricos para a elaboração do material e para a interação entre as professoras-autoras e os alunos haitianos ecoam a inspiração nas contribuições de Bakhtin, Dolz, Schneuwly e Rojo.

No capítulo Experiência pedagógica com expressões idiomáticas em material didático do português brasileiro como língua adicional, de Maria Denize Carniel da Silva e Michelli Marchi Oss-Emer, mestrandas do PROFLETRAS, a elaboração do material didático – com sua posterior aplicação – foi fundamentada, especialmente, nas pesquisas do folclorista brasileiro Câmara Cascudo, cuja extensa obra sobre cultura brasileira tem reconhecimento internacional. As autoras partiram de expressões idiomáticas como um desafio à compreensão de sentidos e à interação entre jovens haitianos e brasileiros matriculados em escola pública de Santa Catarina. A estratégia de utilização do material didático considerou o uso de expressões idiomáticas em situação de comunicação por mídia digital whatsapp.

No capítulo Culinária brasileira no material didático de português como língua adicional, as autoras, também mestrandas do PROFLETRAS, Jéssica Mendes da Silva Rodrigues e Fabiana de Fátima Aparecida de Oliveira, apresentam o material didático elaborado a partir de ingredientes e de pratos típicos da culinária brasileira organizado por região do Brasil. Tendo por apoio teórico e metodológico as contribuições de Dolz, Schneuwly, Rojo, Nicolaides, Thomé-Williams, Lima e Reis, as autoras produziram os alimentos e os fotografaram de forma a ilustrar as atividades pedagógicas previstas. Durante a interação com as alunas haitianas, a colaboração dessas foi intensa, pois fizeram indicação de como cozinhar certos pratos ou preparar bebidas haitianas em comparação com os pratos brasileiros bem como a época de cada produção alimentícia no Haiti. O envolvimento em temáticas de conhecimento das alunas foi fundamental para as tentativas exitosas de interlocução entre elas e entre as professoras, autoras do capítulo.

O capítulo Jogos lúdicos no ensino de português como língua adicional para mães haitianas: socialização e aprendizagem, de autoria de Aline Suzana de Freitas Vaz e Maria Clara Dias da Cruz, mestrandas do PROFLETRAS, relata a experiência da aplicação de material didático produzido para alunas haitianas que são mães de crianças em idade escolar. Partindo do artigo de Florestan Fernandes, sociólogo brasileiro, que estudou brincadeiras de crianças em bairro popular de imigrantes italianos na cidade de São Paulo na década de 1940 e fez uma relação da socialização estabelecida entre as crianças como um fator de socialização dos adultos, as autoras elaboraram um material didático baseado em brincadeiras infantis como forma de criar contexto aprazível de interlocução entre as mães haitianas que fixaram residência em Florianópolis. A contribuição das mães haitianas foi surpreendentemente notória ao explicitarem as diferenças entre as formas de brincar aqui e no Haiti, o que permitiu o desenvolvimento de diálogos intensos durante a aula proposta.

O capítulo Desconstrução do estereótipo da mulher brasileira com alunos estrangeiros: uma proposta de intervenção nas aulas de português como língua adicional, de Maria Gabriela Abreu e Thaís Gonçalves Martins, também mestrandas do PROFLETRAS, explicita o percurso de aplicação do material didático que traz um tema polêmico: a tradição de sexualização da mulher brasileira no exterior. A interação em prática pedagógica se deu com alunos estrangeiros de nível avançado de conhecimento da língua portuguesa. Fundamentadas em Bakhtin, Gabrielli e Louro, a elaboração do material didático e sua posterior aplicação abarcou desde a percepção dos portugueses quando aqui chegaram em 1500 em relação aos povos autóctonesnquanto aos enunciados da EMBRATUR de divulgação turística do Brasil no exterior que utiliza a sexualidade da mulher brasileira em suas propagandas.

No capítulo Reflexões sobre práticas de ensino de português para estrangeiro em São Luis do Maranhão, Maria José Nélo, professora da Universidade Estadual do Maranhão, relata sua experiência com alunos oriundos do Senegal, Guiné Equatorial, Nigéria e Serra Leoa, que foram encontrados à deriva no litoral próximo a São Luís e resgatados por autoridades federais. A partir das reflexões teóricas de pesquisadores como Queiroz, Frieiro, DaMatta, Rios e Silveira, desenvolveu práticas pedagógicas de ensino de português como língua estrangeira e explicitou, no capítulo em tela, as atividades referentes à alimentação e à culinária brasileiras.

Fechando a Parte I, no último capítulo, O ensino de gramática na aula de portuguêscomo língua estrangeira: opções para um ensino diversificado, Luis Gonçalves, da Universidade de Princeton, New Jersey, EUA, faz um balanço sobre diferentes posicionamentos frente ao ensino explícito de gramática nas aulas de português como língua estrangeira ou à sua total ausência. De Krashen a Ofélia Garcia, de Pratt a Larsen-Freeman, Luis Gonçalves vai tecendo seus argumentos em defesa de um lugar para o ensino de gramática nas aulas de PLE, que leve consideração as expectativas e características dos alunos e que sejam selecionadas estratégias especiais para o trabalho com gramática em sala de aula.

Na Parte II – Problematizando o Material Didático – estão três capítulos assim sintetizados.

O primeiro capítulo dessa segunda parte tem por título Ensino de português como língua estrangeira e literatura: a didatização de materiais autênticos e é de autoria de Aparecida Regina Borges Sellan, professora da PUC/SP e membro do Núcleo de Pesquisa e Ensino Português Língua Estrangeira (NUPLE) do Instituto de Pesquisas Linguísticas “Sedes Sapientiae” para Estudos do Português (I.P.).Nele, Sellan trata da utilização de textos da literatura brasileira com possibilidades de servirem de alavanca para o ensino de português para-estrangeiros. Em outras palavras, a autora explicita o processo de como uma crônica de autor brasileiro pode se constituir em material didático para as aulas de PLE, buscando desenvolver a competência intercultural comunicativa, refletindo sobre a cultura da língua que está aprendendo e cotejando com sua própria cultura.

O penúltimo capítulo – As dimensões interlinguística e intercultural em livros didáticos de português para hispanofalantes – é de Florencia Miranda, professora de português como língua estrangeira da Universidade Nacional de Rosário, Argentina. A partir de sua experiência no ensino de PLE com livros elaborados em solo argentino de 1999 a 2015, a autora desenvolveu uma investigação acadêmica inscrita na perspectiva teórico-metodológica do interacionismo sociodiscursivo, fundamentada em Bronckart, Dolz, Gagnon e Mosquera. Dentre os aspectos analisados, os falsos cognatos ganham certa relevância. Todavia, como aponta Miranda, são apresentadas palavras soltas, sem contexto para a delimitação do uso delas.

O último capítulo da coletânea – O dispositivo humorístico no ensino de português como língua estrangeira – é de autoria de Silvia Ines Coneglian Carrilho de Vasconcelos, professora da Universidade Federal de Santa Catarina, no PROFLETRAS. Fundamentada em Aristóteles, Bergson, Bakhtin, Propp e Minois para tratar do humor, do cômico e do riso, e em Engracio, Justo, Nogueira e Garotti para tratar do dispositivo humorístico no contexto educacional, a autora analisa postagens com intuitos didáticos, voltados ao ensino de português como língua estrangeira, cujo traço principal seja a questão da comicidade. As postagens analisadas circularam em redes sociais (Facebook e Youtube) e foram apontadas pelos usuários como possibilidades de uso em práticas pedagógicas como material didático disponível ao ensino de certos fenômenos de língua como o uso da pontuação (a vírgula em especial e suas possibilidades de sentido, inclusive o cômico) ou como a troca de um fonema por outro pode gerar confusão ou episódios cômicos.

Esses dez capítulos, escritos por quinze autores de contextos educacionais diferenciados, traçam um panorama de como as pesquisas acadêmicas com projetos analíticos ou de intervenção em práticas pedagógicas podem abrir outros caminhos para o ensino de português como língua não materna, segunda língua, língua de herança, língua adicional ou de acolhimento, entre muitas outras denominações disponíveis hoje bem como podem estimular a busca por experiências outras de quem se dedica a esse campo de ação educativa.

Florianópolis, verão de 2019.
Silvia Ines Coneglian Carrilho de Vasconcelos

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