Oficinas didáticas interdisciplinares: teoria, prática e reflexão

ISBN: 978-68-5869-015-3
eISBN: 978-65-5869-016-0

Autor/Organizadores: Thiago Araújo da Silveira

PREFÁCIO

Em tempos nos quais há uma consciência dos problemas e insuficiências da experiência pedagógica tradicional, consciência esta que há muito permeia o itinerário de formação de professores no Brasil, trazer à luz estratégias didáticas, ao mesmo tempo críticas da referida experiência e propositivas porque indicam caminhos outros, constitui uma das tarefas que se impõem a pesquisadoras e pesquisadores do ensino e, por assim dizer, a educadoras e educadores. O livro Oficinas Didáticas Interdisciplinares: teoria, prática e reflexão, de Thiago Araújo da Silveira, colhe os frutos dessa consciência e dá o salto necessário ao nos ofertar uma alternativa teórico-prática experimental de ensino-aprendizagem. Nele não é somente exposto o já conhecido diagnóstico da didática tradicional, mas é tão somente sugerida uma expressiva direção pragmática mediante a concepção de Oficina Didática Interdisciplinar.

Ora, mas por que oficina? Para além do sentido comum – oficina como espaço onde se realiza algum tipo de trabalho prático, faz-se ou produz-se algo – , o autor ecoa o significado propriamente educativo desse fenômeno humano como lugar de formação e aprendizagem de um ofício, de uma técnica enquanto um saber-fazer, sendo também o lugar da vivência efetiva desse saber-fazer. Isso posto, o autor evidencia a tese de acordo com a qual seria da natureza da oficina o caráter unicamente prático, para em seguida problematizá-la, dando-nos a compreender que a teoria permeia e constitui a própria prática no fenômeno das oficinas. Nesta senha acha-se o ponto de inflexão do argumento aqui apresentado, o qual se concretiza na afirmação das oficinas didáticas de caráter interdisciplinar como asseveradoras da relação umbilical entre teoria e prática.

A originalidade do presente trabalho está em, concomitantemente, sinalizar a conexão incontornável entre teoria e prática ligada à oficina enquanto experiência pedagógica e denotar a quebra da ideia de uma exclusividade ou enaltecimento da prática na razão direta do sepultamento da teoria, no interior dessa mesma experiência. Numa frase, este livro convoca-nos a uma negação consistente da separação entre teoria e prática no ato pedagógico. Essa negação parece-nos justificada e efetivada na proposta das Oficinas Didáticas Interdisciplinares, uma vez que concebe a existência de uma copertença entre prática e teoria (aquela é composta, iluminada e provocada por esta, e vice-versa), passando ao longe de visões cuja ingenuidade as isola, quando as mesmas se encontram numa recíproca constituição.

Tendo isso em conta, as oficinas ensinadas na presente obra consistem em estratégias de ensino-aprendizagem suturadas por linhas diferentes, porém convergentes, entre as quais: a ontológica-existencial situa o humano em sua condição indeterminada, inacabada e aberta a possibilidades de ser; a epistemológica ressalta uma compreensão holística, metacognitiva e perspectivista do conhecimento; a ético-social, o reconhecimento do outro e a abertura constitutiva às diferenças; a política, a depreensão das relações de poder na operação de escolhas coletivas, entre outras. A proposta implica, portanto, uma visão colaborativa, interativa, questionadora e prospectiva (porquanto atitudinal) de ensino-aprendizagem, ao abrigo de uma costura interdisciplinar cujo tecido – que é ao mesmo tempo processo e resultado dessa sutura – é uma ampla e significativa experiência de educação.

Nesse corrimão, um relevante propósito deste livro consiste em reconhecer os elementos randômicos que perpassam o acontecer didático, insuflando-o em direções amplificadoras de perspectivas: o acaso, o inesperado, o não pretendido vem à tona e, ao vir, é bem-vindo. Isso, em desfavor de uma ânsia por um impossível, quixotesco e paranoico controle absoluto e centralizador do processo de ensino-aprendizagem. Isso pressupõe abertura. Nesse sentido, o opúsculo que ora tens em mãos não é somente uma clara contribuição pedagógica, mas uma necessidade ética: muito mais que um conjunto sistemático de princípios e parâmetros para uma ação didática interdisciplinar que visa a um aprendizado consistente, temos aqui uma evocação da práxis, que, no limite, torna esse aprendizado possibilitador de uma cidadania consequente.

José Antônio Feitosa Apolinário,
Filósofo, Professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco – Unidade Acadêmica da UAST
Triunfo, 27 de agosto de 2020.

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