Pesquisas em análise do discurso, multimodalidade & ensino: debates teóricos e metodológicos. Volume 3

eISBN: 978-65-87645-97-1

Autor/Organizadores: Francisco Jeimes de Oliveira Paiva e Ana Maria Pereira Lima

Prefácio

A potência e a diversidade das Análises do Discurso

Bruno Deusdará
Professor Associado
Departamento Estudos da Linguagem
Universidade do Estado do Rio de Janeiro

O leitor tem em mãos o terceiro volume das Pesquisas em Análise do Discurso, Multimodalidade & Ensino – uma série de livros organizada por Francisco Jeimes de Oliveira Paiva, Mestre em História e Letras, e Ana Maria Pereira Lima, Professora adjunta da UECE e dos Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em História e Letras/UECE e do PROFLETRAS/UECE. A série é publicada por Pedro & João Editores e conta com a participação de autores em diferentes estágios de formação e de inscrição na carreira do magistério, destacando-se todos pela seriedade na condução das investigações e pelo compromisso ético-político com a promoção de uma perspectiva crítica.

Neste terceiro volume, o leitor encontrará articulações teórica variadas, encaminhamentos metodológicos que se desenvolvem nas análises de materialidade multimodal e em investimentos em pesquisa da campo e resultados que destacam a força e a atualidade das perspectivas que reivindicam o campo dos estudos discursivos – um campo de investigação cuja emergência, nos anos 60 do século passado, é marcada pela problematização das fronteiras disciplinares rígidas que faziam supor estarem os fenômenos da ordem da linguagem dissociados dos processos sociais e de constituição da subjetividade.

Todos esses aspectos, a saber a variedade das articulações teóricas e os percursos metodológicos dirigidos à pesquisa de campo e à multimodalidade – já seriam méritos conseguidos pelo empreendimento editorial que chega à sua terceira versão. Parece ainda ser possível dizer algo mais, especialmente relevante, em se tratando de pesquisas do campo discursivo, ressaltando alguns aspectos relacionados ao contexto histórico-social no qual estas pesquisas circulam.

Não podemos perder de vista que esta obra vem a público no contexto em que a pandemia da COVID-19 ainda é um desafio para as políticas públicas, para a pesquisa científica, para a vida cotidiana em todo o planeta. Dados históricos e a experiência concreta nos apontam para o fato de que esta é a pandemia com maior impacto sobre a humanidade dos últimos cem anos e alguns elementos indicam a sua rápida e intensa propagação: trata-se de um vírus de alto potencial de contágio e uma expressiva taxa de letalidade, que impõe desafios relevantes na constituição de sua história natural, no planejamento de estratégias imediatas e eficazes de prevenção, na urgente disponibilização de equipamentos de saúde específicos para o tratamento e cuidado com os desdobramentos na evolução da doença.

Esses são os contornos conferidos ao fenômeno que marca decisivamente o ano de 2020 em perspectiva biológica. Note-se que Latour e Woolgar (1997[1979]) já alertavam para o fato de que as descobertas não apenas nas ciências humanas, mas também nas ciências da natureza não provêm da relação direta entre o pesquisador e os fatos a que se dedica investigar. De acordo com os autores, sob a aparência de uma observação pretensamente direta, a vida de um laboratório se inscreve em debates científicos, normas de funcionamento que passam pela formação da equipe, pelo domínio das técnicas, da disponibilização de instrumentos, dos recursos para adquiri-los.

Desse modo, mesmo nas práticas científicas ditas exatas o que se dá é uma rotina que pode ser inscrita na ordem da discursividade. Tais reflexões contribuem decisivamente com fragilização de paradigmas que pretendem circunscrever as práticas de linguagem na condição de algo que se realiza depois dos eventos empíricos, de um mundo que existiria previamente à linguagem. Aqui reside uma outra conquista relevante do campo dos estudos do discurso: a afirmação de que a linguagem não apenas representa um mundo que lhe seria exterior, mas é parte dos seus processos de constituição. É bastante claro o modo como Rocha (2014) formula tal concepção de linguagem, afirmando seu potencial interventivo. Segundo o autor, ao estabelecer com o mundo certa relação de referência, a linguagem “congela o tempo, altera distâncias, oferecendo-nos um retrato – sempre parcial – de um dado momento, o retrato de uma realidade passada e/ou de uma nova paisagem” (2014, p. 624).

Nessa perspectiva, o momento atual é particularmente desafiador para a observação da produção simultânea linguagem/mundo.

Com efeito, a crise sanitária que assola o planeta encontra, no Brasil, um contexto de ascensão do pensamento ultraconservador e da implementação de políticas neoliberais ortodoxas, que se expressam, dentre outras formas, em uma guerra cultural contra as universidades públicos, o financiamento público das pesquisas, a autonomia e a democracia interna das instituições de ensino, enfim, ao conhecimento e aos coletivos que se dedicam a produzi-lo. Dessa forma, muito do que se tem produzido como conhecimento fomentando estratégias de prevenção fundamentalmente baseadas no isolamento social e em orientação ao uso constante de equipamentos de proteção individual tem sido contestado no debate público, especialmente por alguns atores governamentais.

Desde as primeiras notícias acerca da identificação do vírus com essas caraterísticas, ainda no final de 2019, até os primeiros casos de contaminação local no Brasil, temos recebido diariamente um conjunto diverso, complexo, fragmentado e dissonante de informações, sustentando posicionamentos que ora afirmam a necessidade de empreender uma luta em defesa da vida, ora contrapõem essa luta a uma indicação de que a “economia não pode parar”. Tais discursos circulam tanto nas mídias empresariais quanto nas redes sociais e nos demais suportes tecnológicos de produção/circulação de textos.

Do ponto de vista da vida social, tal cenário de contestações e disputas tem efeitos perversos e profundamente danosos, como a alta taxa de letalidade, a desagregação no comportamento diário, o desgaste do tecido social, o aprofundamento das desigualdades. Parece evidente que os fenômenos da ordem do discurso não podem ser reduzidos ao plano da superestrutura, fazendo crer que se tratasse de meros reflexos daqui que se produz em outra esfera – a da economia, a da política. Pronunciamento públicos que menosprezam o potencial de contágio do vírus qualificando-o como uma “gripezinha” contribuem com comportamentos pouco solidários no trato diário, bem como com convocações ao trabalho sem todos os cuidados necessários à proteção coletiva, por exemplo.

Se, em momentos históricos anteriores, foi possível apostar em contornos mais nítidos de separação das esferas pública e privada, na contemporaneidade, a ação de dispositivos multimodais tem possibilitado a exposição da individualidade, a manutenção do vínculo social, uma militância engajada e também a disseminação de discursos pautados pela indiferença e o ódio. Assim, os discursos não podem ser apreendidos tão somente como um plano em que se refletem processos que se realizariam fora dele. Os discursos compõem a vida cotidiana, explicitam engajamento, fazem circular sentidos de solidariedade ou de individualismo, de orientações de cuidado ou de relaxamentos descuidados. É por meio de discursos também que se convoca a funcionar a economia, fazendo supor que pudesse prescindir das vidas que lhe dão corpo e movimento.

Essas considerações me parecem necessárias, na medida em que o projeto editorial potente levado a cabo por Francisco Jeimes de Oliveira Paiva e Ana Maria Pereira Lima ganha especial relevância. Trata-se do terceiro volume de uma série que demonstra a força e a diversidade da interlocução teórica, conceitual e temática proporcionada pelo encontro entre os organizadores e os autores envolvidos nesse empreendimento.

Como o título da obra já antecipa, são apresentadas experiências de pesquisa dedicadas à perspectiva discursiva, aos desdobramentos contemporâneos da multimodalidade e suas implicações com as práticas de ensino e os desafios da atualidade ao universo escolar. Pude ressaltar na caracterização do contexto de emergência desta obra a necessidade da investigação da multimodalidade, dado o modo como os sentidos circulam e compõem os encontros, desde os debates públicos à manutenção do vínculo no contexto de isolamento por meio de mensagens, ligações de vídeos entre outros suportes que demandam um contato cotidiano com o verbal e o visual, em diferentes inscrições.

Eu não deixaria de destacar o fato de os estudos presentes neste volume ganharem consistência por meio de gestos múltiplos, tais como a diversidade de abordagens sustentadas, as articulações teóricas promovidas, as entradas de análise promovidas, as materialidades submetidas à investigação. Essa enorme e intensa variedade não poderia deixar de ser confrontada com as imagens do fazer científico que ainda compõem o senso comum e algumas expectativas conservadoras vinculadas aos ideais de neutralidade, de imparcialidade e de homogeneidade. Tal como é demonstrado ao longo das leituras possibilitadas aqui, a diversidade de entradas, percursos e diálogos não apenas favorece oferecer uma resposta contundente aos ataques sofridos pela pesquisa científica, como afirma um gesto epistemológico fundado na diversidade de entradas, de interesses, de desdobramentos.

Entre as diversas indicações que o referido projeto editorial fornece, uma delas parece merecer destaque já desde a leitura preliminar do sumário. Refiro-me especialmente à interlocução teórico variada, possibilitada pelo interesse conferido ao fenômeno da língua em uso, avançando em perspectiva discursivas. Os diálogos passam por abordagens como a sistêmico-funcional, a interativa, a sociorretórica, a pragmática, comparecendo, em diversos estudos, a perspectiva dos multiletramentos, o interesse pelos gêneros discursivos.

Eu destacaria também o forte interesse pelas práticas de ensino de leitura, que mobiliza diversos capítulos da obra. O destaque se justifica não apenas pela quantidade de textos, mas especialmente pelo compromisso com o direito à educação e à escola pública de qualidade, inclusiva e socialmente referenciada. Eu seu texto, Ana Maria Pereira Lima afirma: “A escola é o espaço de construção do homem enquanto ser único, repleto de especificidades, desejos e necessidades, seja de caráter físico, intelectual e/ou social”. Fragmento que me parece sintetizar as preocupações e compromissos manifestados pelos autores, ao longo de seus textos.

Passemos agora a uma breve apresentação dos capítulos que o leitor encontra nesta obra. O primeiro deles, intitulado “Uma análise semiótica da busca pelo poder nas narrativas de Voldemort e Hitler”, é de autoria de Marion Lucena Cavalcante e Mary Nascimento da Silva Leitão. Nele, as autoras investigam a busca pelo poder em estudo comparativo entre o personagem Voldemort, da saga Harry Potter, e a personalidade histórica Hitler, indicando proximidade entre a política antissemita e a crença na supremacia dos bruxos de puro sangue. Para construir essa aproximação, as autoras recorrem a estudos sobre a personagem no campo da Teoria Literária, nas leituras de Anatol Rosenfeld e Massaud Moisés, e de aproximações entre História e Literatura, com base nas reflexões de Paul Ricoeur e Pesavento. Nas análises, o percurso gerativo do sentido é acompanhado pelos estudos semióticos de base greimasiana, com especial ênfase para os trabalhos de Diana L. P. de Barros e J. L. Fiorin. O percurso construído se constitui de três níveis: fundamental, narrativo, discursivo. As autoras concluem suas análises apontando diferenças baseadas em “objetivos e conquistas, pois por serem de universos diferentes” e semelhanças, que dizem respeito a “temáticas de hierarquia, segregação e ideologia, bem como os mecanismos de manipulação através da capacidade exímia de impressionar com o discurso e a efetividade da propaganda como meio de convencimento”.

A problematização do crescimento de produtos de beleza para o público feminino é gesto marcante de Viviane Yamane da Cunha, em “Persuasão e multimodalidade na construção da identidade feminina na propaganda do esmalte colorama, com Giovana Antonelli: uma perspectiva sistêmico-funcional”. Nele, a autora investiga a persuasão que percorre a propaganda de esmaltes destinados ao público feminino. Nas análises, são considerados aspectos relativos à relação verbo-visual, às ideologias implícitas e explícitas e as metáforas ideológicas relevadas por esses aspectos. O quadro teórico é composto da articulação da Linguística sistêmico-funcional, de Halliday, da teoria da Linguística Crítica, de Fowler, da teoria da avaliatividade, de Martin, da multimodalidade, de Kress e Van Leeuwen, associada a Linguística Sistêmico-Funcional, de Macken-Horarik. Entre as entradas linguísticas observadas na análise, destacasse o interesse pela transitividade e pela avaliatividade, demonstrando ainda escolhas lexicais que indicam julgamento positivo. A autora conclui suas análises apontando para contribuições à compreensão crítica do mundo textual construído nas práticas de consumo, afirmando que “O que a propaganda sugere é que usando o esmalte, a compradora se igualaria à atriz, ou, em resumo, leva o produto como se levasse a própria atriz”.

Maria Lídia Martins da Silva e Robson Santos de Oliveira se pautam por preocupações com a formação escolar do leitor, no terceiro capítulo “A leitura da peça teatral na Pedagogia dos Multiletramentos: uma proposta interativa”. Baseando-se na perspectiva da Pedagogia de Mutiletramentos, de pesquisadores como os do Grupo de Nova Londres (GNL) e Cope e Kalantzis, os autores formulam uma proposta de trabalho com o gênero peça de teatro nas aulas de Língua Portuguesa, dirigida a alunos do 3º ano do Ensino Fundamental. Como o interesse que se estabelece nessa formulação se dirige ao campo da realização de ações efetivas e de transformação do campo social, os autores se orientam por uma abordagem de pesquisa-ação em diálogo com André e Lüdke e uma metodologia interventiva, fundamentada em Thiollent. No texto, os autores avançam numa reflexão sobre a leitura, compreendida como atividade interativa entre autor-texto-leitor, abordando aspectos levantados por Cagliari, Solé, Koch e Elias, Marcuschi, entre outros. Os autores concluem sua investigação, considerando que “Por meio do teatro a criança será levada a ler a si mesma, ao outro e ao mundo, refletindo sobre o que recebe e como pode doar para termos um mundo cada vez mais oportuno e igualitário”.

Francisco Jeimes de Oliveira Paiva, que organiza a obra, é também autor de “Configuração das unidades sociorretóricas em considerações finais de Dissertações de Mestrado da cultura disciplinar da área de Letras”, dedicando sua reflexão à escrita acadêmica, demonstrando a diversidade de pesquisas relacionadas à língua inglesa em vários gêneros do campo universitário. Nesse campo de discussões, o autor sugere que sejam destacados os esforços de compreensão dos gêneros dissertação de mestrado e tese de doutorado, dado seu funcionamento como condição para inserção dos pesquisadores na pós-graduação. Para isso, o autor apresenta uma vasta diversidade de reflexões, em diálogo com Araújo, Swales, Paiva e Duarte, Miller, Muniz-Oliveira e Barricelli, Paiva, Pacheco, Bernardino e Freitas, entre outros. A partir dessa circunscrição teórica em múltiplos diálogos, o autor analisa práticas discursivas e movimentos retóricos na seção de considerações finais de dissertações de mestrado. Na análise do material submetido à investigação, o autor privilegiou a identificação dos propósitos comunicativos, seguida da aplicação do modelo retórico de análise. Entre as diversas considerações que apontam para a relação entre a investigação e o campo de estudo as práticas discursivas acadêmicas, o autor destaca que “a configuração retórica das sete seções de considerações finais/conclusões provenientes de dissertações da área de Letras, possibilitou evidenciar quais as práticas discursivas recorrentes desses(as) pesquisadores(as) na produção escrita do gênero dissertação de mestrado na cultura do saber (inter)disciplinar”.

No capítulo 5 “O hipertexto no cotidiano escolar: novas práticas de leitura e de construção de sentidos”, as autoras Ana Lorena dos Santos Santana, Adriana dos Santos Pereira e Marizita Saraiva Rabelo constatam que o avanço das tecnologias tem efeito sobre o universo escolar, modificando a relação dos alunos com esse universo. Definindo hipertexto a partir de Marcuschi, as autoras defendem seu uso no cotidiano escolar, com o propósito de ampliar a interatividade e a participação ativa do aluno no processo de construção do conhecimento, já que seu uso demanda escolhas. Com base nessa reflexão preliminar, as autoras formulam o objetivo de discutir novas maneiras de ler e de escrever por meio do hipertexto, orientada por uma ação mais colaborativa e menos individualizada. A entrada no campo se dá por meio de pesquisa exploratória. O quadro teórico se amplia, ao longo do texto, abarcando autores como Koch e Elias, Xavier, Antunes, Rojo, entre outros. De acordo com as autoras, “é notório que o hipertexto possibilita diversificadas formas de ler e de escrever, práticas essas que, como já foi dito anteriormente, propõem-se a tornar leitura e escrita mais colaborativas”.

A constatação de que há poucos estudos sobre a história, a cultura e a produção literária de mulheres antes do século XV é o ponto de partida de Vanessa Rodrigues Barcelos, em “O significado representacional na construção discursiva das personagens femininas de A vision showed to a devout woman, de Julian of Norwich: notas sobre subversão e submissão”. Com o intuito de contribuir com a desconstrução de crenças sobre a Idade Média, a autora propõe investigação acerca da produção literária de Julian of Norwich, a primeira escritora em inglês de que se tem notícia, conforme registra Barcelos a partir de Watson. No exame de A vision showed to a devout woman, a pesquisadora se concentra especialmente nos trechos em que atuam participantes do gênero feminino. Como quadro teórico, opera-se uma articulação entre o interesse pelo enfoque sobre o significado representacional, a partir da Análise Crítica do Discurso, de Fairclough, e discussão sobre subversão e submissão ao gênero, de Butler. As conclusões da pesquisadora apontam para uma tarefa importante: “Em vez de simplesmente renegar o texto medieval como puramente discurso religioso, cabe a nós mergulhar na tessitura textual e nela descobrir as vozes das mulheres que abriram os caminhos para a liberdade pela qual hoje ainda persistimos em luta, e que, em nenhum período, deve ser silenciada”.

Interessando-se pelo contexto do movimento chamado Primavera Secundarista, abrangendo manifestações de ocupação das escolas em diversos estados brasileiros, em 2016, Camila Belizário Ribeiro investiga postagens de alunos de um Instituto Federal, no sétimo capítulo “Facebook e ativismo político: o caso da Primavera Secundarista”. A autora inicia o capítulo contextualizando o movimento de ocupação das escolas em reação à reforma do Ensino Médio e à Proposta de Emenda à Constituição que propunha o congelamento dos investimentos em Educação e Saúde. Como pista de acesso aos debates promovido em torno do movimento protagonizado pelos estudantes, a pesquisa destacou o papel conferido às redes sociais. O material analisado é composto por postagens de 20 alunos, sendo 10 favoráveis e 10 contrários ao movimento, realizadas na página do Facebook intitulada OcupaIfes. Em suas conclusões, a autora destaca que “o movimento Primavera Secundarista contribuiu fortemente para a conscientização e participação política de estudantes do Ensino Médio, assim como seu desenvolvimento para a cidadania, e os alunos a favor do movimento e que se consideram mais engajados politicamente tiveram participação muito mais ativa na rede virtual”.

Em “O conto de autoria feminina em sala de aula: as contribuições dos estudos culturais e da estética da recepção para o ensino de literatura”, Rafael Zeferino de Souza apresenta discussão das representações de gênero no contexto contemporâneo, em suas repercussões nas aulas de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Médio. De acordo com a autora, o trabalho com o texto literário ainda é apresentado em livros didáticos por meio de fragmentos das obras e com defasagem de atualização, podendo tornar esses saberes inacessíveis aos estudantes. Ao compor as referências teóricas do trabalho, a autora propõe articulação entre a perspectiva da Estética da recepção, com Jauss, Bordini e Aguiar, Zappone, da inserção dos Estudos Culturais, com Culler, Guisnki, Santos e Wielewicki e da Crítica Feminista, Zolin e Almeida. A articulação dessas perspectivas possibilita conduzir um trabalho que parta dos conhecimentos prévios dos estudantes, construindo expectativas que serão postas em análise e contribuirão para a composição de comentários críticos. Em suas conclusões, a autora considera que essa perspectiva teórica contribui com um trabalho “intertextual e interdisciplinar, possibilitando assim uma comparação com diversos gêneros textuais que liguem a mesma temática”.

No nono capítulo, intitulado “O letramento multimodal crítico como uma vivência pedagógica”, Ivonildo da Silva Reis adota perspectiva discursiva do letramento, articulando análises em torno dos fenômenos da ideologia e hegemonia segundo Fairclough, dos multiletramentos, com Street, Kleiman, Oliveira, Cope e Kalantzis, Rojo e Moura. Comparecem ainda referências a Hodge, Kress e van Leeuwen. Os procedimentos metodológicos se orientam pelo viés da pesquisa-ação. Em relação às etapas de pesquisa, o autor elaborou um questionário de sondagem, identificando temas presentes no cotidiano dos estudantes e a sua percepção sobre as categorias de análise. Tal etapa teve papel relevante na produção das atividades interventivas. O autor oferece ainda um detalhamento das atividades elaboradas e de seu processo de realização no nono ano. Em suas conclusões, o autor demonstra a importância da perspectiva de pesquisa adotada, considerando o rápido retorno dos estudantes às questões propostas. “Quando isso não ocorreu, interviemos no sentido de oferecer outros caminhos teórico-práticos, sempre pautados no processo interativo, o qual acreditamos estar em consonância com a concepção crítica de ensino de língua materna que advogamos”, afirma.

A organizadora Ana Maria Azevedo de Oliveira afirma o potencial criativo e democrático da escola de qualidade como um direito social imprescindível, em “Tecnologias da informação e comunicação e aprendizagem em contexto escolar inclusivo”. Na perspectiva da inclusão social a ser possibilitada pela escola, a pesquisadora destaca as inovações proporcionadas pela inserção das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC). Com base nessa articulação, a pesquisadora constitui investigação para conhecer os desafios de aprendizagem dos alunos com deficiência e as possibilidade de criação de oportunidades de aprendizagem com uso das TIC, “enquanto ferramenta de viabilização de aprendizagens satisfatórias, que potencializem no aluno com deficiências seus aspectos sociais, comunicativos e cognitivos, gerando também uma reflexão por parte dos professores em relação as suas práticas, mudanças de posturas e atitudes diante da realidade educacional local”. A partir da abordagem qualitativa, a autora desenvolve uma pesquisa de campo, com aplicação de questionário com professores que atuam na educação especial. Em suas conclusões, a autora destaca que, com a inserção das TIC, a atuação de profissionais “possibilitará a consolidação de um cenário escolar apto à promoção de oportunidades que ampliem as potencialidades e habilidades, os limites, os ritmos e as necessidades de cada envolvido no processo de ensino e aprendizagem”.

Em “Ensino Médio e novas tecnologias: a Olímpiada de Língua Portuguesa e a produção de documentários nas aulas de português”, Rodrigo dos Santos Dantas da Silva discute as práticas de leitura e produção de textos no contexto das novas tecnologias e seus impactos sobre o ensino. A discussão se expressa em um relato de experiência em torno da prática do gênero discurso documentário com uma turma de Ensino Médio, no âmbito da Olímpiada de Língua Portuguesa. A participação dos estudantes na Olimpíada é pensada como forma de discutir e problematizar seu contexto de inserção social e cotidiana. A reflexão sobre gêneros discursivos e as textualidades emergentes com os novos suportes tecnológicos está fundamentada nos trabalhos de Bakhtin, Marcuschi, Maingueneau e Rojo. Em suas conclusões, o autor destaca que a prática de produção de vídeo possibilita “contribuir para a construção da proficiência leitora dos sujeitos participantes dela e propiciaram a reflexão por meio da semiótica, uma outra forma de fomentar a compreensão de textos que pode contribuir positivamente para o entendimento de textos escritos seja em sala de aula ou em plataformas digitais, onde várias linguagens se fundem”.

João Flávio Furtado Cruz e Francisco Jeimes de Oliveira Paiva propõem investigação acerca do ensino de Língua Inglesa em escolas rurais, em “O ensino em língua inglesa no ensino médio rural: experiências e desafios contemporâneos”, com o objetivo de apresentar metodologias consideradas lúdicas para esse contexto de ensino. Com isso, os autores pretendem problematizar os estereótipos relacionados à aula de inglês. No percurso da discussão, os autores retomam a constituição histórica da língua inglesa, seu estatuto atual de língua franca e vinculam essa discussão ao papel do universo escolar no debate a respeito do monolinguismo e seus efeitos sobre a aprendizagem de línguas. A proposta se organiza a partir de uma pesquisa de campo, coletando dados por meio de questionário aplicado aos alunos de uma escola pública. Os dados oriundos dos questionários encontram-se detalhadamente analisados, demonstrando um cenário bastante favorável para a aprendizagem, desfazendo imagens cristalizadas. Esses resultados são destacados nas conclusões, quando os autores afirmam que esse retorno “é um grande avanço tendo em vista que, ainda nos deparamos com discursos de professores os quais reclamam que não tem apoio para trabalhar essa disciplina”.

Em “Leitura do Ensino Religioso na perspectiva da Igreja Católica”, Ricardo Santos David apresenta pesquisa qualitativa e documental com o intuito de reconhecer os sentidos atribuídos ao ensino religioso, que se interessa explicitamente pela superação de preconceitos. Essa reflexão é vinculada ao desafio de promover o direito à educação pautado pela igualdade de condições e pluralidade de ideias. Em seu percurso, o autor debate a educação como cenário de diálogo e procura reconstituir o contexto atual do catolicismo no Brasil. A respeito do ensino religioso, o autor retoma elementos de sua constituição nos documentos oficiais. Em suas considerações finais, o autor destaca o seguinte: “O Ensino Religioso por meio do seu conhecimento específico e, articulando religião e cultura, tem como desafio diante da incerteza, da contradição, da descontinuidade dos fatos, da quebra dos valores e das normas sociais que vivemos na sociedade contemporânea contribuir na reconstrução das utopias e dos horizontes dos seres humanos”.

Jaeanne Fabian Guimarães da Silva, Josibel Rodrigues e Silva e Regina Célia Ramos de Almeida investigam os sentidos construídos em livros didáticos de ensino de inglês acerca das identidades de gênero e sexualidade, bem como os modelos familiares apresentados ou silenciados nesse material no capítulo “Identidades de gênero e sexualidade em livros didáticos de inglês”. A perspectiva teórica que sustenta a reflexão é a Análise/Teoria Dialógica do Discurso. A coleção escolhida para empreender as análises demonstra esforços pontuais no sentido de incorporar temas com o da violência de gênero, colocando o estudante em contato com ideologias diversas, avançando em debates sobre as identidades de gênero com diversos movimentos de deslocamento frente à lógica binária. Em suas conclusões, as autoras destacam um silenciamento: “uma vez que os livros didáticos necessitam dar visibilidade para as diferentes identidades sociais, combatendo toda forma de violência, discriminação e preconceito, conclui-se que faltam elementos consistentes na coleção a respeito da realidade da comunidade LGBTQ+ no país, bem como, manifestações que possam combater mais profundamente a homo e transfobia”.

Capítulo 15 Em “Estratégias argumentativas no discurso sobre diagnóstico e autodiagnóstico de pessoas com Transtorno do Espectro Autistas (TEA) em redes sociais”, Adriana Turczinski, Lorena Maria Pitombeira e Lucineudo Machado Irineu destacam o papel desenvolvido pelas redes sociais na promoção da polêmica e do uso de estratégias discursivas e argumentativas. Tratando especificamente do debate em torno dos sentidos e experiência em ser autista, os autores ressaltam o embate travado entre defensores do modelo médico de diagnóstico e grupos de autodiagnóstico, investigando as estratégias argumentativas que versam sobre a discussão acerca do serviço de saúde especializado no diagnóstico e das formas de autodiagnostico. O quadro teórico é composto de referências à Análise Crítica do Discurso, de Fairclough, aos estudos da argumentação, de Perelman e Tyteca. Nas conclusões, os autores destacam que “a respeito da identificação das estratégias argumentativas nas redes sociais Facebook e Twitter referentes ao diagnóstico e autodiagnostico no contexto do Transtorno do Espectro Autismo, o estudo apontou que os discursos dos usuários compreenderam nos Argumentos Quase- Lógicos e nos Argumentos Baseados na Estrutura do Real”.

Recomendo fortemente a leitura de cada um dos textos, compartilhando a potência dos estudos discursivos e dos variados investimentos teóricos e metodológicos propostos.

Referências

LATOUR, B.; WOOLGAR, S. A vida de laboratório: a produção dos fatos científicos. Trad. de Angela Ramalho Vianna. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1997.
ROCHA, D. Representar e intervir: linguagem, prática discursiva e performatividade. Linguagem em (Dis)curso, v. 14, p. 619-632, 2014.

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