Linguagens e(m) práticas discursivas: leituras plurais em tempos de pandemia

ISBN: 978-65-5869-008-5
eISBN: 978-65-5869-035-1

Autor/Organizadores: Vera Lúcia Pires; Graziela Frainer Knoll

Prefácio

Adail Sobral (FURG)
Karina Giacomelli (UFPEL)

O que há de mais caracteristicamente positivo em coletâneas de textos compondo livros? Considerando-se que a característica mais positiva não pode ser a unidade esperada de um livro de um só autor, uma vez que há por definição vários, esta tem de ser o diálogo entre a multiplicidade de pontos de vista, a visão panorâmica e ampla que só um coletivo pode dar, uma vez que, como cada membro vê de seu ambiente, de seu lugar, aquilo que lhe permite seu horizonte, ou contexto, a soma dessas visões, não cria a unidade de um livro de autor único, mas, em contrapartida, enriquece os objetos abordados, bem como as abordagens mobilizadas.

Neste livro, organizado por Vera Pires e Graziela Knoll, vemos precisamente variadas perspectivas acerca de temas vinculados com a linguagem (em suas várias manifestações) e o ensino. Essas perspectivas se dividem em três áreas que se apresentam no livro como conexas, inclusive no interior de vários capítulos: Práticas Pedagógicas, Linguística e Literatura. Há em todas elas, como mostramos a seguir, ampla variedade de interesses e modos de abordagem sobre diversos tópicos vinculados com esses três campos e suas interfaces.

Na Parte I – PRÁTICAS PEDAGÓGICAS, o livro se inicia pelo texto “Adaptar-se é preciso: Relato de experiência”, de Sonia Porto Machado, que apresenta um relato sobremodo tocante e expressivo de experiência nessa situação de excepcionalidade pela qual passamos. O texto propriamente dito do relato conta, ao contrário de outros textos, com uma Introdução, assinada pelas organizadoras, na qual são levantadas questões sobre a atual situação de pandemia com respeito ao ofício de professor, questões com as quais o relato de Sonia Porto Machado dialoga profundamente.

Na Parte I – PRÁTICAS PEDAGÓGICAS, Ana Paula Benchimol e Nédilã Chagas discutem uma importante questão no capítulo “Um novo desafio para os professores de Ensino Fundamental: como trabalhar gêneros textuais diante da realidade do Ensino Remoto?”. Trata-se de como trabalhar com gêneros no Ensino Remoto no Ensino Fundamental. Pragmaticamente, as autoras propõem e discutem atividades passíveis de fornecer ao professor desse nível instrumentos para se desincumbir desta tarefa ao que parece inevitável.

Valéria Brisolara, Patrícia Marques e Maristela Rabaioli nos oferecem o texto “Limites e potencialidades: experiências pedagógicas em tempos de pandemia”, no qual buscam, mediante “três relatos de experiências em diferentes níveis de educação e contextos socioculturais” durante o período de distanciamento social e de investimento no ensino remoto, discutir e questionar as potencialidades e limites “do ensino não presencial”.

Cabe a Pedro Francelino abordar um tema bem atual, o dos gêneros verbovisuais, tão presentes nas práticas cotidianas dos alunos. No capítulo “O discurso de outrem em gêneros discursivos verbovisuais: implicações para o ensino de leitura na escola”, Francelino parte de considerações teórico-metodológicas do Círculo de Bakhtin e de alguns de seus estudiosos, para propor a exploração de um importante conceito, o de “discurso de outrem”, para dinamizar o ensino da leitura na escola.

Ernani de Freitas e Miquela Piaia, por sua vez, estabelecem, no capítulo “Gêneros discursivos, multimodalidade e multiletramento: proposta de prática pedagógica para o ensino de língua(gens)”, uma interface entre concepção de gêneros, sequências didáticas e multiletramentos, a fim de alcançar o seguinte objetivo: “incentivar a leitura, a oralidade e a produção textual multimodal no contexto escolar de forma integrada, motivadora, autêntica e relevante” e responder à indagação de se isso “engajará os estudantes e os tornará protagonistas de seus processos de aprendizagem”.

O capítulo de Marília Dalva de Lima, intitulado “O risco das Fake News: propostas e desafios para a educação em tempos de pandemia”, busca abordar o tópico tão atual das Fake News. A par de caracterizá-lo, a autora o propõe “como tema transversal em todas as disciplinas da educação básica, mas em especial, nas aulas de língua portuguesa”, apresentando em seu texto “estratégias para abordá-lo em sala de aula”.

Na Parte II – LINGUÍSTICA, no texto “A seção ‘introdução’ de artigos experimentais: análise da forma composicional a partir dos pressupostos teóricos de Bakhtin e do Círculo”, Ludmila Kemiac considera, a título de exemplo, um segmento específico do gênero artigo experimental, a Introdução, do ponto de vista da teoria dialógica, envidando com esse fim esforços para nem separar “forma composicional” de “estilo” e “conteúdo temático”, nem, ao se concentrar em um único segmento, perder de vista os exemplares de gênero em sua integralidade. Seu interesse é verificar o “tom” que os autores imprimem a esse segmento para defender a relevância de sua pesquisa.

É de Amanda Löbler, Najara Ferrari e Graziela Knoll o terceiro texto desta parte. Intitulado “Popularização da ciência: os infográficos na recontextualização de conteúdos especializados sobre câncer masculino”, aborda não apenas um recurso semiótico de uso cada vez mais frequente, em função de suas características comunicativas, como a atividade de divulgação científica, tão necessária, mormente quando o tópico é o câncer.

Vera Pires, organizadora do volume, trata, no capítulo “Identidade cultural: a construção discursiva de desigualdades e diferenças’’, a partir da perspectiva dos estudos culturais e da Análise Dialógica do Discurso, “focando na cultura do diálogo e nas práticas sociais do cotidiano e priorizando os gêneros discursivos midiáticos e multimodais, veiculados por linguagens verbal e visual”, das maneiras como as “identidades sociais de gênero” são apresentadas nos discursos dessa esfera, criando enunciativamente “desigualdades e diferenças”.

Saigon Quevedo, por sua vez, no capítulo “A teoria dos gêneros discursivos como suporte para o ensino da língua portuguesa no ensino médio”, parte da questão do estatuto da gramática no ensino de língua materna e, após questionar algumas das práticas vigentes, propõe que se compatibilize a necessidade da presença da gramática na escola com uma abordagem em termos de gêneros que busca ir além da normatividade e torna os gêneros base para o ensino de língua materna no ensino médio.

Em “Revisitando o termo polifonia: da sua origem no cânone musical ao uso em Bakhtin e Ducrot”, Paulo Roberto Ramos apresenta uma ampla retrospectiva acerca do termo “polifonia”. Ao lado disso, explora as características que o termo assume na obra dos teóricos Mikhail Bakhtin e Oswald Ducrot, não sem antes fazer um excurso pela questão do uso de “termo” no campo da terminologia, a fim de defender o uso dessa palavra em vez de alguma outra.

A Parte III – LITERATURA encerra o volume. No primeiro capítulo, Osmando Brasileiro se dedica, no capítulo “Identidade da mulher africana e subjetividade na poesia de Conceição Lima”, ao estudo da obra A dolorosa raiz do Micondó (2012), da poeta são-tomense Conceição Lima. Parte o autor do fato de que as autoras africanas persistem “em evidenciar sua identidade e subjetividade femininas” de mulheres africanas, buscando “estudar um pouco mais a fundo essa identidade de mulher africana”, a fim de tentar estabelecer “um perfil dessa mulher que é ao mesmo tempo vítima da guerra, do abandono e de processos culturais que lhe impõem condição inferior de ser social e até mesmo humano”.

Éderson Cabral e Ernani Mügge, por sua vez, no capítulo “O trabalhador brasileiro em “O Pano de Vermelho” e “Sabor de Química”, de Roniwalter Jatobá”, tratam da presença, na literatura brasileira”, da figura do trabalhador. Segundo os autores, “A atividade de trabalho está dispersa no conjunto da literatura brasileira e somente a busca e o estudo sistemático permitem visualizá-la como um tema recorrente em diferentes autores”, concentrando-se, para esse fim, na exploração de duas narrativas de Roniwalter Jatobá, que se destaca por apresentar o trabalho, na contracorrente da ideia de que este dignifica o homem, em seu aspecto negativo.

Roberto Medina, encerrando a Parte III e o livro como um todo, trata de “Garcia Lorca e o duende na criação artístico-literária: conferências”. No capítulo, o autor dedica-se a traçar um panorama do percurso criativo de Lorca com base nos três volumes de Obras Completas (1986) em espanhol, e dois livros, um em espanhol, intitulado Conferencias (1984), e o outro, em português, Conferências (2000). Medina afirma, quanto a isso, que “Federico García Lorca, em sua paideia imaginativa e criativa, para compor textos e peças teatrais, muito passeou nos bosques da cultura e da tradição a fim de encontrar sua voz autoral, decidindo temas, evocando o passado para melhor se aparelhar e encontrar sua mecânica e engenharia poético-imaginativas”.

Como o leitor pode perceber, temos neste volume um amplo mosaico de tópicos e abordagens, muitos deles e delas dialogando entre si, como é o caso do conceito de gêneros e suas possibilidades de ensino. O ensino remoto ou não presencial e suas implicações e possibilidades, positivas e negativas, é outro tópico recorrente. Comparecem igualmente a questão dos multiletramentos, a das Fake News, a do “tom” de textos científicos, o termo polifonia em dois importantes autores, a imagem do trabalhador na literatura brasileira e a identidade da mulher africana na literatura, bem como a criação e a consciência literária de García Lorca, a criação de identidades de gênero subalternas na mídia, ao lado da divulgação científica e da verbovisualidade no ensino.

Como dissemos, os diversos pontos de vista aqui apresentados (como buscamos demonstrar neste Prefácio) se aproximam ao mesmo tempo que se distinguem em alguma medida, criando com isso uma diversidade altamente positiva, como o é toda diversidade. Isso não apenas amplia a compreensão do(s) objetos que abordam como permite entrever possibilidades que somente cada sujeito autor, de sua posição única e una, pode desvelar.

Distinguir-se aqui, obviamente, não significa confrontar-se, indicando antes modos diferentes de ver os mesmos objetos, de ver objetos distintos vinculados a um mesmo campo de saber ou a um campo afim e mesmo de mobilizar maneiras diversas de partir de um mesmo arcabouço teórico. Aproximar-se, do mesmo modo, não significa mesmice, mas antes afinidade em dado plano comum de pensamento, por mais diversas que sejam as abordagens.

Ao leitor cabe, a partir de agora, apropriar-se, ao seu modo peculiar e único, a partir de sua posição ímpar, de quanto lhe é apresentado neste volume por esses autores dedicados a pensar a linguagem em sua diversas manifestações e em suas relações com o ensino de língua materna, de literatura e de temas transversais.

Pelotas, 04 de setembro de 2020.

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