Indi-age: a presença indígena na universidade

eISBN: 978-65-5869-031-3

Autor/Organizadores: Roseli Rodrigues de Mello; Claudia Raimundo Reyes

Apresentação

Esse livro é fruto do encontro entre vários agentes e agências que vêm transformando num fato o que, até a algumas décadas, era um evento localizado, ou seja, a presença indígena nas universidades brasileiras. Data de 1999 o primeiro encontro, no território da Universidade Federal de São Carlos, entre indígenas, docentes e administração. Eram integrantes do povo Kalapalo que pediam ajuda para a Profa. Dra. Marina Denise Cardoso, antropóloga que dedicou sua vida acadêmica ao estudo da saúde indígena, para, entre outras demandas, serem alfabetizados em português, uma vez que as conquistas registradas na Constituição Cidadã de 1998 trariam a eles desafios de contato e negociação com não-indígenas. Naquele momento, ambas as organizadoras desse livro envolveram-se nos diálogos sobre a alfabetização em português. De tais encontros, nasceu a circulação de kalapalos na UFSCar, tanto para a venda de seu artesanato, quanto pela fixação de algumas famílias na cidade de São Carlos. Mas, o território da universidade continuava a ser apenas um território de visita para aquele povo.

Ao longo de uma década, mobilizadas em torno do direito à educação, lideranças tradicionais indígenas negociaram em diferentes setores sociais o ingresso em universidades como parte deste direito. Tradicionalmente voltadas para os cursos de licenciatura multicultural, algumas universidades brasileiras passaram a receber diferentes povos, formando-se, assim, também lideranças indígenas acadêmicas. A UFSCar entrou nessa história em 2008, com a concretização do trabalho de uma comissão multicêntrica liderada pela Profa. Drª Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. A reserva de vaga específica, com seleção de ingresso também específica marcaria o começo da história da presença indígena no território da UFSCar, agora não mais como visitantes, mas como estudantes dos diferentes cursos ofertados por ela.

Novamente as organizadoras do livro participariam da história do encontro com povos indígenas na UFSCar, mas, agora, de maneira intensa, primeiro ocupando lugares-chave na administração da política de ações afirmativas da universidade, e depois ocupando lugar de parceiras dos estudantes dos diferentes povos indígenas, principalmente a partir de diálogos com o Centro de Culturas Indígenas, organizado pelos estudantes dos diferentes povos que passaram a compor a comunidade da UFSCar. Cada uma de nós relata sua participação nessa história: uma, no primeiro capítulo do livro; a outra, no quarto capítulo. Uma, de coordenadora do Programa de Ações Afirmativas a parceira do CCI; outra, de pró-reitora de graduação a parceira do CCI; ambas, na interlocução com as lideranças estudantis indígenas, puderam vivenciar a construção coletiva de muitas ações que foram melhorando e modificando o desenho original das Ações Afirmativas para indígenas na UFSCar, incluindo-se o projeto aprovado no edital Abdias do Nascimento, base do livro aqui apresentado.

Além das organizadoras, aqui se reúnem estudantes, técnicos-administrativos, outros docentes da UFSCar e docentes da Universidade de Córdoba para contar o movimento da política de ações afirmativas na instituição, e como ela foi se configurando em cada um de seus campi.

“Estudos Indígenas” ou “Indi-age” é o primeiro capítulo do livro, que revela a longa interlocução entre o Núcleo de Investigação e Ação Social e Educativa – NIASE, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com o Centro de Culturas Indígenas (CCI) da mesma universidade. Nele é possível encontrar o relato de como tal diálogo se converteu em um projeto aprovado pelo edital Abdias do Nascimento, lançado pela Capes, em 2013, para grupos atendidos por políticas de ações afirmativas nas universidades brasileiras. Narrado em primeira pessoa, o capítulo revela não só a percepção pessoal da coordenadora do projeto, mas também de seu compromisso com essa parceria estrangeira, efetivado e avaliado com os companheiros da Universidade de Córdoba, na Espanha.

Escrito pelos pesquisadores estrangeiros da Universidade de Córdoba, o segundo capítulo revela a experiencia de como ocorreu a criação e o desenvolvimento do projeto de internacionalização interinstitucional. Amparados teoricamente, enfatiza-se a importância das relações interinstitucionais que contemplam a diversidade cultural internacional. Ao longo do capítulo os autores analisam as aprendizagens dos estudantes nos eixos formativos, investigativo e de convivência e sua contribuição para o desenvolvimento de conhecimentos interculturais, na comunidade educativa, os processos de construção de lideranças, o compromisso com a transformação social e o papel ativo dos estudantes indígenas nesse processo, possibilitando a construção de novos modelos criativos de interação igualitária na universidade, permitindo a ampliação das bases das instituições de ensino superior sensíveis a diversidade.

O terceiro capitulo tem como foco dois aspectos fundamentais para o tipo de missão de estudo: a descrição cuidadosa do processo de seleção dos estudantes indígenas, bem como a história contada pelos sete protagonistas, tanto no que diz respeito a argumentação utilizada para seu ingresso, com base na Carta de Apresentação exigida no momento da seleção dos candidatos, bem como a avaliação do que foi vivido e aprendido no percurso de estar no convívio na universidade espanhola.

O quarto capítulo, relata a o processo de implantação da política de ações afirmativas da UFSCar, no que concerne aos estudantes indígenas. Primeiramente aborda aspectos históricos da presença indígena na graduação das universidades brasileiras, mostrando um panorama nacional e, em seguida, especifica o caso da UFSCar. Na segunda parte descreve detalhadamente a implantação da reserva de vagas para estudantes indígenas na UFSCar, versando inicialmente sobre a especificidade desse processo seletivo; relata ações empreendidas pela Pró-Reitoria de Graduação com relação a eles; finalmente analisa brevemente a experiência, no que se refere à instituição, aos docentes e aos estudantes.

O quinto capítulo apresenta o processo de construção do acompanhamento acadêmico e pedagógico dos estudantes de povos indígenas da UFSCar – São Carlos. Para tanto, descreve-se, inicialmente, quem são esses estudantes no que diz respeito à diversidade de etnias e línguas faladas, de localidades de origem, e suas escolhas pelos cursos de graduação. A seguir, a permanência na Universidade ganha luz, e o acompanhamento pedagógico é relatado enquanto uma ação institucional construída, cotidianamente, a partir do diálogo com os próprios estudantes. O sexto capítulo tem como foco a ação de apoio à aprendizagem de matemática acadêmica desenvolvida desde 2012 até 2016, demandada pelas/os estudantes indígenas diante da necessidade de melhorar sua aprendizagem dos conteúdos de disciplinas básicas de matemática de seus cursos, como parte importante de sua formação na universidade e assim de seu desempenho atinente às necessidades de sua comunidade de origem. O texto ao mesmo tempo relata a experiência e apresenta uma reflexão sobre o desenvolvimento e a importância desse apoio, possibilitando o fortalecimento da resistência respeitando os valores e a cosmovisão indígenas.

O sétimo capítulo privilegia o relato de ações em saúde, para o fortalecimento dos estudantes indígenas no ensino superior, por meio do trabalho desenvolvido pelo Programa de Educação Tutorial (PET), especificamente sobre o Grupo PET Indígena-Ações em Saúde da UFSCar, que surgiu no contexto de democratização da educação formal superior e de intensa mobilização em busca de uma formação profissional humanista, ética e reflexiva, pautada na valorização da diversidade sociocultural e na responsabilidade social. O capítulo mostra a trajetória da implantação do Grupo, suas ações e práticas no período de 2010 a 2016, bem como a percepção dos estudantes indígenas sobre a contribuição do programa para sua formação acadêmica.

O oitavo capítulo apresenta ações compartilhadas entre estudantes indígenas e docentes, do campus de Araras, destacando as que favoreceram e fortaleceram a presença indígena na universidade: 1o Simpósio de Interculturalidade, a criação do Núcleo de Estudos Indígenas (NEI) e a realização do Ciclo de Ações e Luta Indígena (CALI). Há ainda o relato de três estudantes que rememoraram a presença atuante no campus e a reflexão de dois docentes sobre o re-conhecimento destas presenças em sua atuação profissional. As aprendizagens pessoais e profissionais relatadas evidenciam a importância de ações afirmativas porque transformam positivamente toda comunidade universitária.

O nono capítulo relata a trajetória indígena estudantil da UFSCar – Campus Sorocaba. Os aspectos pedagógicos, político-institucionais e interpessoais que atravessaram a vida estudantil indígena foram o foco da leitura histórica e crítica da realidade vivida. O capítulo é apresentado pelas estudantes e docente que partilharam tal construção e aprendizado. Metáforas são utilizadas para compor a noção de caminho, trilhas e trajetos desenhadas pelas práticas estudantis, com suas convergências e divergências, e se apresentam nas divisões de tópicos do capítulo e nas entrelinhas do texto. A leitura permite ver o contexto universitário sob a perspectiva para o diálogo entre as culturas e o conhecimento na luta pelo fortalecimento indígena nas instâncias sociais do mundo contemporâneo, pelo direito de viver a diversidade cultural em territórios ocidentalizados.

O décimo e último capítulo versa sobre a presença Indígena no campus Lagoa do Sino, inaugurado em 2014 e que tem o primeiro ingresso de estudantes indígenas em 2016. O capítulo mostra o processo de chegada dos primeiros estudantes indígenas, organizada por outros estudantes do campus, desde Guarulhos, reduzindo os obstáculos tornando esse momento com menos obstáculos para os que chegavam. Há uma reflexão sobre atenção que deve ser dada na organização coletiva para a criação de um ambiente que busca a valorização da identidade e de como foi criado o Centro de Culturas Indígenas – CCI-Lagoa do Sino, local para a proposição, conscientização sobre a importância de participação nos espaços de decisões da universidade, trazendo protagonismo para as pautas e organização de eventos de temática indígena.

Deixamos leitores e leitoras com o livro, para que possam visualizar os caminhos percorridos por coletivos que constroem a história da presença indígena na UFSCar. Esperamos que ele contribua para o encorajamento de quem começa a desenvolver políticas dessa natureza em suas instituições, ou que luta por estabelecê-la, e para o fortalecimento de quem já trilha caminhos da presença indígena nas universidades brasileiras.

Boa caminhada!

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