Memórias de infância: narrativas de pessoas velhas a respeito de ser criança no século XX na cidade de Sorocaba – São Paulo

ISBN: 978-65-87645-85-8
eISBN: 978-65-5869-025-2

Autor/Organizadores: Gabriela Maldonado Sewaybricker

PREFÁCIO

Acolhi com alegria e gratidão o convite da jovem professora e pesquisadora Gabriela Maldonado Sewaybricker para prefaciar o seu primeiro livro, “Memórias de Infância: Narrativas de pessoas velhas a respeito de ser criança no século XX, na cidade de Sorocaba – São Paulo”. Alegria por ter tido a oportunidade de acompanhar a trajetória de seu trabalho, ainda na graduação. E gratidão por ela continuar nessa trilha de busca pelo conhecimento, o estudo contínuo, a pesquisa. E por partilhar esse caminho conosco.

A obra que nos é entregue é um presente. E presente considerando duas acepções da palavra: como um regalo material, na concretude do livro e, em sua dimensão temporal, ou seja, o tempo que habitamos, em conexão com a busca de compreender o tempo que já é passado, numa proposta de diálogo em torno de tema caro e repleto de significações: a infância.

Os dois primeiros capítulos do livro são uma amostra do comprometimento da autora com a pesquisa, a procura e o tratamento de suas fontes. Primeiro, há um ensaio para contextualizar o conteúdo trazido nas páginas da obra em sua dimensão histórica e, ao mesmo tempo, Gabriela estabelece contato e nos conta a respeito de sua cidade, Sorocaba, em São Paulo, lugar espaço de seu trabalho.

Em seu terceiro capítulo, a obra nos convida a adentrar nas palavras e memórias das seis pessoas que colaboraram com a escrita da Gabriela: dois homens e quatro mulheres que em entrevistas, depoimentos e imagens fornecem pistas valiosas para se pensar a infância na primeira metade do século XX. São suas lembranças, vividas na cidade de Sorocaba, que apresentam temas que nos são relevantes e evidenciam, ainda hoje, demandas consideradas pertencentes à infância, mas que são também, construtos históricos e sociais que indicam lugares que as crianças ocupavam e ocupam socialmente. Assim, brincadeiras, brinquedos, cantigas, sons, festas, interdições, o parque infantil e uma série de ações e lugares significam um passado e uma infância para esses protagonistas, mas que dialogam com o passado de outrem. Essas memórias são valiosas porque ainda hoje (e sem anacronismos) fazem-nos pensar em questões ainda urgentes em nosso meio: gênero, raça e classe social entre elas. Quais os papéis que ainda presenciamos, vivemos?

A análise respeitosa da autora, explorada em seu quarto capítulo, com a sugestiva alusão às “releituras”, provoca-nos à reflexão do lugar que ocupam não apenas as crianças, mas os chamados velhos. E a nomenclatura “velhos” também é um sinal de valorização, pois tenta escapar de expressões amplamente divulgadas que podem ser consideradas como fantasiosas ou omissas em relação à realidade, como “melhor idade”, por exemplo. É nesse ponto que a autora expõe e defende seu posicionamento, explicitando seu incômodo (e buscando incomodar) ao caráter de exclusão dado à velhice. Em suas palavras: “opto pela utilização da palavra velhos, em vias de “trazer à roda” a temática muitas vezes ignorada pelos diferentes meios sociais. Convido aqui o exercício da escuta e do respeito àqueles que tem tanta experiência, conhecimento e histórias a serem ouvidas, respeitadas e, mais, apreciadas”. (SEWAYBRICKER, 2020).

A apreciação dessas histórias carece de atenção, acrescida de alguma sensibilidade. A pesquisa realizada não foi à procura dos considerados intelectuais, acadêmicos ou políticos. O cuidado foi dirigido ao cotidiano e às pessoas que o compõem em sua dinâmica, indistintamente.

Escutar as palavras alheias e comunicá-las em formato de pesquisa e agora, em livro, podem ser consideradas ações de coragem. Isso porque quando as pessoas narram as suas histórias – em entrevistas ou depoimentos – colocam-se na posição de protagonistas da tessitura histórica, numa perspectiva que escapa de padrões convencionais que reforçam a idéia de uma história única. Ao contrário, à medida que os registros de memória são acessados, ocorre também uma experiência de compor, organizar e significar a própria trajetória de quem narra. É um exercício de se situar em relação ao tempo, ao espaço, à materialidade, aos outros e a si mesmo e, por isso, pode ser considerado como um fazer subjetivo, mas que nos permite, no conjunto, estabelecer compreensão de um amplo e complexo processo que habita nas memórias, uma das categorias de fazer história: “a memória torna-se assim a categoria portante do fazer história, com seus condicionamentos e suas amnésias, seus objetivos e o peso da tradição, logo com seu papel não linear, sempre sub judice, sempre incompleto, mas sempre necessário” (Cambi, 1999, p. 35).

Essa incompletude necessária, esses fragmentos que nos são dados a conhecer, diante de um “cabedal infinito”, nas palavras de Ecléa Bosi (2003), estabelecem relação com outro compromisso: o registro como aliado no processo de não esquecimento. E em referência à memória coletiva e ancestral que nos permite viver o hoje, tal qual a autora, trago mais uma vez o significado do adinkra africano Sankofa em sua força proverbial: “nunca é tarde para voltar e apanhar o que ficou para trás”. É assim que vivemos e ressignificamos o presente: com ciência que não chegamos a esse momento sozinhos, que somos coletivo, afinal, da mesma maneira que a memória, mesmo com lembranças variadas e multifacetadas, colabora com a identidade pessoal e construção da subjetividade, a história nos coloca diante do movimento de resistência e da compreensão de uma dimensão de pertencimento coletivo.

Gabriela Maldonado Sewaybricker, em seu manuscrito de iniciação à pesquisa, também recupera e refaz sua história, sua trajetória e amplia o convite a cada um de nós. Que a leitura de seu trabalho seja aliada ao constante chamado das pessoas que querem e têm o que dizer, sejam essas pessoas crianças ou idosos/idosas. Fica, portanto, o aceno: para ler, mas também para escutar. Há alguém disponível para essa escuta?

Maria Walburga dos Santos

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