Poéticas de SerTão: diálogos literários em sala de aula

ISBN: 978-65-5869-058-0
eISBN: 978-65-5869-059-7

Autor/Organizadores: Kátia Cilene S. S. Conceição; Jean Marcel Oliveira Araújo

PREFÁCIO

Aline Cristina de Oliveira

Um projeto envolvendo um artista das palavras como JoãoGuimarães Rosa não é algo que pudesse ser realizado a duas mãos.

Guimarães, em suas andanças pelo sertão mineiro atuando como médico, descobriu que a arte da escrita era composta por um gigantesco mosaico onde se juntavam pequenas porções de vivências tão singulares que nem mesmo a contemplação do dicionário, proposta por Drummond, bastaria para narrá-las. Era preciso, então, ir além do reino das palavras e penetrar surdamente nos universos particulares, onde personagens emergem da vida ordinária e universalizam-se em sua forma demasiadamente humana, em toda sua complexidade. O autor de Grande sertão: veredas entendeu como ninguém o quanto a literatura se vale de uma intrincada e interminável tessitura de ideias que irrompem em linguagem, essa que também não admite a estagnação.

Foi dessa compreensão de Guimarães Rosa que a proposta SerTão nasceu, cresceu e agora dá seus frutos. Nesse livro, o leitor encontrará diálogos fomentados em sala de aula, pelas mãos generosas da professora Kátia, entre a obra-prima roseana e as criações autorais de artistas que se escondem por detrás da alcunha de alunos. O romance foi o ponto de partida. Este livro não é o ponto de chegada, isso porque a literatura não conhece limites e as mãos que se juntam para conduzila sabem que o destino é desconhecido e irrefreável, como determina a própria essência da arte. O projeto então abriu-se para novos horizontes e até para além desses horizontes, apresentando possibilidades de escrita e de escritores, que pularam para dentro e para fora da sala de aula, esse microcosmo da vida.

SerTão, nesse sentido, não poderia ser um título mais apropriado, uma vez que a arte é o transbordar daquilo que já não nos cabe e que precisa transbordar. Nesse livro, tal força se liga à pluralidade da palavra “sertão”, esta, de etimologia controvertida, parece não ser apenas uma designação para lugar longínquo e desabitado, podendo também estar ligada ao termo latino sedere (aquele que sai das fileiras) para, mais tarde, resultar em desertor. Embora não se possa garantir, e entendendo a genialidade e o extraordinário conhecimento linguístico de Guimarães Rosa, também não se possa negar, desertar das fileiras do tradicionalismo literário pode ter sido uma das provocações roseanas na escolha do título de seu romance mais emblemático. De qualquer forma, o artista é sempre aquele que deserta, que transborda e que, finalmente, “é” tanto que não pode tão somente “ser”.

Nessa definição poética do ofício de todo artista, que nessas páginas transborda por entre estilos singulares e tipologias distintas, o leitor vai sendo levado a conhecer e reconhecer as possibilidades da linguagem. É aí que SerTão novamente surpreende! Duas palavras são tiradas de suas convenções gramaticais e ganham novos contornos em tempos de inconstância e solidão. Em meio à uma pandemia mundial, escritores ressignificaram as angústias de um momento em que a tênue linha da vida tornou o “ser” algo tão fugaz. Entre a prosa e a poesia, costuradas por mãos sensíveis e habilidosas, a tragicidade ganhou contornos que nos tiram, por alguns momentos, da secura da realidade, esse sertão que procura, nas palavras tiradas de seu estado de dicionário, a brisa das águas litorâneas.

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