Leituras sobre a sexualidade em filmes: as pedagogias culturais em foco. Vol. 9

ISBN: 978-65-5869-063-4
eISBN: 978-65-5869-064-1

Autor/Organizadores:

Paula Regina Costa Ribeiro; Joanalira Corpes Magalhães; Raphael Albuquerque de Boer

APRESENTAÇÃO

Paula Regina Costa Ribeiro
Joanalira Corpes Magalhães
Raphael Albuquerque de Boer

Muito tem sido debatido e escrito sobre os estudos de gênero e sexualidade, bem como, suas intersecções com as pedagogias culturais. Entendemos as pedagogias culturais, que além dos muros dos espaços escolares, compreendem outros espaços sociais que também educam, produzem significados, que são negociados, constantemente com o seu/sua interlocutor/a. Queremos, então, trazer destaque, para este volume, o cinema, enquanto aparato cinematográfico, ou seja, um sistema de imagens em movimento, assim como todos os elementos que o compõem a fim de construir representações culturais da “realidade” de temas como gênero, sexualidade, entre outros. Para este oitavo volume da série, “Leituras sobre a Sexualidade em Filmes: as pedagogias culturais em foco” destacamos o gênero e a sexualidade em filmes, artefatos culturais que personificam o caráter do cinema como prática social.

Laura Mulvey (1983), em seu artigo “Prazer Visual e Cinema Narrativo” ilustra, com sucesso, a forma de que o aparato cinematográfico se configura a fim de evidenciar figuras de gênero e sexualidade, em um contexto de relação “filme-espectador/a”. A autora discorre que “o ponto de partida é a forma como o cinema reflete, revela e até brinca com as interpretações concretas e socialmente estabelecidas das diferenças sexuais que controlam a imagem, as formas eróticas de se enxergar e o espetáculo.

É útil para entender o que o cinema têm sido, como sua mágica foi trabalhada anteriormente, ao mesmo tempo que procura aplicar uma teoria e prática que vai desafiar esse cinema do passado” (MULVEY, 1983, p. 437)[1]. O seu texto, mesmo tendo sido escrito há mais de quatro décadas atrás, é atemporal. A passagem nos parece extremamente apropriada para o que o nosso volume engloba: questões sobre o gênero e a sexualidade no cinema, como um espaço que constrói pedagogias, no âmbito do cinema, que formam/transformam ideias, noções e conceitos, além do intercâmbio constante de sentidos e significados entre o mundo “real” e o ficcional.

Nesse caso, nada mais apropriado do que (re) lembrar as categorias de gênero e sexualidade como construtos sociais de indivíduos/sujeitos de corpos genderificados e fluidos. Além disso, cabe ressaltar o caráter formador do cinema, mas também (des) construidor de representações tendenciosas e preconceituosas que englobam o racismo, sexismo, homofobia, e também, questões sobre masculinidades, feminilidades, entre outros aspectos de grande relevância ao tema de gênero e sexualidade.

No Capítulo 1, Estrelas Além do Tempo: Mulheres Negras Na Ciência – Interdições e Invisibilidades Versus Resistências e Sororidade, as autoras Maria Rozana Almeida, Paula Ribeiro e Ana Colling analisam no filme Estrelas Além do Tempo as condições de possibilidades e as formas de resistências para romper com os estereótipos que dificultam e, por vezes, impedem ou escondem, a importante participação das mulheres e suas contribuições para a ciência, no caso deste estudo, as mulheres negras cientistas.

No Capítulo 2, Contracorriente: Vida e Morte, Sagrado e Profano em Complexidades que Singram no Imaginário das Águas Ailton Dias de Melo, Alessandro Garcia Paulino e Cláudia Maria Ribeiro analisam o filme Contracorriente. Os autores e a autora realizam um exercício de problematização das forças vigentes de padrão, norma e direção única e navegam nas masculinidades, nas sexualidades e nos desejos que enredam um pescador e um artista. Valores religiosos, um modelo de família, costumes heteronormativos de uma pequena comunidade são colocados em questão pela relação de dois homens que navegam “contra a corrente”.

No Capítulo 3, Garotos não são só garotos: possibilidades do amor entre homens e as masculinidades no filme Boys, o autor Raphael de Boer busca investigar a representação da descoberta do primeiro amor entre dois garotos e de que forma essa relação perpassa as masculinidades, questões de gênero e sexualidade(s).

No Capítulo 4, O silêncio dos homens: investimentos contemporâneos em masculinidades plurais, Alison dos Santos, Carin Klein e Juliana Vargas analisam o documentário O silêncio dos homens indagando sobre “Que investimentos atuam na construção de pedagogias de masculinidades nesse artefato?” O autor e as autoras discutem as masculinidades entrelaçadas com a violência de gênero contra mulheres, sujeitos trans, negros e sinalizam para movimentos de ruptura da representação hegemônica de masculinidade.

No Capítulo 5, Jean Grey, Vanya, Okoye, Nakia e Capitã Marvel: Mulheres Heroínas no Controle de seus Corpos e de seus Poderes, a autora Ana de Medeiros Arnt tem como proposta analisar as heroínas poderosas que têm sido construídas ao longo das últimas décadas destacando como esse poder, algumas vezes, associa-se a um risco e ao medo de quem acompanha essas mulheres, bem como uma busca pelo controle do corpo dessas mulheres.

No Capítulo 6, As Telefonistas: em foco as questões de gênero e sexualidade em interface com a luta das mulheres por seus direitos, Luís Felipe Hatje, Lara Torrada e Juliana Lapa Rizza debatem em como a série televisa As Telefonistas representam temas ligados às lutas adquiridas pelas mulheres, através da prática laboral, o poliamor e a transexualidade a fim de desmistificar discursos preconceituosos que vêm sendo perpetuados pela sociedade ao longo do tempo.

No Capítulo 7, Dois Irmãos – Uma Jornada Fantástica: reflexões sobre masculinidades, as autoras Barbara Formentin, Karina Molina e Joanalira Magalhães tecem discussões sobre questões relacionadas às masculinidades no filme Dois Irmãos, tensionando as representações de masculinidade hegemônica que circulam nos diferentes espaços sociais.

No Capítulo 8, As canções: narrativas e experiências amorosas atravessadas por relações de gênero e sexualidade, Anderson Ferrari e Danilo Araújo de Oliveira analisam o documentário As canções tendo como foco os atravessamentos de gênero presentes nas narrativas relacionadas ao amor, as quais estão nas narrativas dos sujeitos que participam do documentário quanto naquelas dos/as espectadores/a do mesmo.

No Capítulo 9, Sex Education: Suscitando Possibilidades de Educação para a Sexualidade, as autoras Luciana Kornatzki, Caroline Amaral e Natalia Oliveira, na perspectiva dos Estudos Culturais, investigam como a série de televisão Sex Education representa e constrói significados permeados por questões como as relações entre gênero, sexualidade e corpos a fim de pensar em uma “educação para a sexualidade”.

No Capítulo 10, Paraíso Perdido: quem vai nos impor como viver e como amar? Luiz Davi Mazzei, Nathalye Nallon Machado e Thomaz Spartacus Martins Fonseca, analisam o filme Paraíso Perdido tendo como enfoque em suas discussões, o que a autora e os autores mencionam como, o “embaralhamento de gênero” e as diferentes possibilidades de vivenciar as relações amorosas.

No Capítulo 11, The Good Doctor: Problematizado Relações de Gênero no Episódio Sacrifice, as autoras Fabiani Figueiredo Caseira, Ana Paula Speck Feijó e Marisa Barreto Pires apresentam como a série de televisão The Good Doctor representa as relações de gênero pautadas no poder e as violências que delas decorrem.

No Capítulo 12, Brooklyn Nine-Nine: Tecendo interlocuções sobre as múltiplas representações do personagem Jake Peralta, Alessa Villas Bôas Braga Gonçalves, Tainá dos Reis Garcia e Yasmin Teixeira Mello, analisam a série Brooklyn Nine-Nine focando principalmente no personagem Jake Peralta a fim de investigar as suas diversas representações que perpassam por temas como as masculinidades, relações de gênero e sexualidade.

O conjunto de textos apresentados nesta obra coloca para todos/as nós -leitores/as, pesquisadores/as, interessados/as- interrogações, proposições e a possibilidade de fazer pesquisa e de produzir conhecimentos a partir de artefatos culturais tão potentes como os filmes, as séries e os documentários.

Desejamos a todos/as que, ao lerem os instigantes textos deste livro, lembrem que “o importante não é que nós saibamos do texto o que nós pensamos do texto, mas o que – com o texto, ou contra o texto ou a partir do texto – nós sejamos capazes de pensar” (LARROSA, 1998, p. 177)[2].

Assim, nossa esperança é a de que as escritas possam provocar outros pensamentos, pensar o impensado, que outros dizeres e pensares possam emergir e levar cada leitor/a a problematizar e desestabilizar seus entendimentos sobre as temáticas de gênero e sexualidade, bem como se tornarem espectadores/as mais críticos/as dos filmes a que são expostos/as.

Esse é o nosso grande desejo! Boa leitura!

1- MULVEY, Laura. Prazer Visual E Cinema Narrativo. In: XAVIER, Ismail (Org.). Experiência do cinema: antologia. Rio de Janeiro: Edições Graal: Embrafilme, 1983. (Coleção Arte e cultura; v. n °5). p. 437-453.
2- LARROSA, Jorge. Pedagogia profana: danças, piruetas e mascaradas. Tradução Alfredo Veiga-Neto. Porto Alegre: Contrabando, 1998.

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