Para não esquecer: narrativas das experiências de professoras no contexto da pandemia do Covid-19

ISBN: 978-65-5869-045-0

Autor/Organizadores: Renata Barroso de Siqueira Frauendorf; Fernanda Camargo Dalmatti Alves Lima; Guilherme do Val Toledo Prado

Continuemos a esperançar!

Fernanda Camargo Dalmatti Alves Lima, Renata B. Siqueira
Frauendorf e Guilherme do Val Toledo Prado

O que quer dizer
O que quer dizer diz.
Não fica fazendo
o que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
Só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.
Paulo Lemisnki

O GRUPAD – Grupo de Estudos Alfabetização em Diálogo, coordenado pelas Profas. Heloísa H. D. M. Proença e Renata B. S. Frauendorf – vinculado ao GEPEC – Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Continuada – da Faculdade de Educação da UNICAMP, vice-coordenado pelo Prof. Dr. Guilherme do Val Toledo Prado, é um grupo colaborativo e tem suas atividades coordenadas e organizadas por todos aqueles que participam e desejam contribuir. Um grupo colaborativo que nasceu em novembro de 2010 da força e desejo de professoras recém-formadas e iniciantes na carreira docente, que sentiam necessidade de conversar – dizerem do seu lugar de dizer – e pensar sobre a prática escolar na alfabetização. Atualmente é formado por educadoras no exercício da docência nos anos iniciais do Ensino Fundamental e na Educação Infantil; por profissionais da coordenação pedagógica escolar; formadoras de professores que atuam nas redes públicas e privadas de ensino, entre outras profissionais vinculadas à educação escolar. Um coletivo formado majoritariamente por mulheres.

Em nossos encontros quinzenais partilhamos experiências, ideias e saberes fruto das diversas atividades que desenvolvemos, não nos esquecendo das temáticas relativas à alfabetização. Partilha que acontece seja nos momentos de encontros, no grupo do Facebook, Instagram ou no WhatsApp, sempre procurando entender melhor o universo profissional que vivenciamos, pois, concordamos com a ideia de que ao narrarmos os processos que “nos tocam”, nos atravessam, nos transformam (LARROSA, 2002), elegemos aspectos para potencializar nossas reflexões coletivas.

Mas então, março de 2020 chegou e, junto veio…

Pandemia. Susto. Distanciamento. Escolas fechadas.

E nós, professoras e professores para onde vamos?

Para casa?

E nossos Encontros do Grupad?

Medos e dúvidas que provocaram nosso afastamento até o mês de maio quando retomamos nossos encontros de forma remota. O GRUPAD foi o espaço de escuta, acolhimento, do abraço que envolve, pelo fio invisível da internet. O Google Meet tornou-se nosso novo local de encontro, as janelas e chat nosso meio de interação. Iniciamos esta retomada, relembrando a tarefa deixada lá no primeiro encontro presencial do ano de escrita de narrativas sobre os desafios atuais de alfabetização. Escrita que se desdobrou para os desafios da pandemia.

Essa proposta nos impulsionou e nos estimulou a partilhar escritas produzidas em tempos angustiantes e muito desafiadores. Essa proposta nos transformou, nos encheu de esperança do verbo esperançar, como nos ensinou Paulo Freire!

Os escritos começaram a ser partilhados via nosso grupo do WhatsApp, e durante os encontros virtuais. A escuta e partilha de narrativas sobre os desafios, inseguranças, receios, experiências, descobertas, dentro de um contexto tão desconhecido e incerto permitiu às demais participantes perceber e acolher os sentimentos das professoras, os saberes recém-construídos num momento excepcional, além do fortalecimento de nosso coletivo-colaborativo.

Com as escritas, nos reconhecemos enquanto professoras-pesquisadoras-organizadoras do conhecimento do chão da escola-casa. O nosso posicionamento, ao escrever, na escolha de cada palavra, cada enunciado, são atos responsáveis (BAKHTIN, 2017) que assinam singularmente a escrita de nossas experiências, somos nãoindiferentes aos sujeitos dos acontecimentos do cotidiano escolar, agora em nossas casas. Quando percebemos, eram tantos escritos, que precisávamos fazer a palavra circular para além de nossas telas. Decidimos compartilhar pelas redes sociais do GRUPAD e nesses espaços recebemos respostas outras de sentimentos, emoções, revelados por diferentes leitores(as)-professoras e professores. Como disse Daniel Suarez na live “Conversas, partilhas e formação em rede” de agosto 20201 , ao narrar o professor, indaga sua própria experiência, recorre a indícios, pistas, ideias, que o ajudem a compreender o vivido. E ao ler a produção de colegas, bem como os comentários registrados, ampliam-se as possibilidades de diál go e atribuição de sentidos outros, revelando-se num importante processo formativo.

Foi um movimento tão potente! Ao disponibilizar nossas narrativas, em tempo de pandemia, compartilhamos a educação que construímos diariamente, na escola e atualmente, fora dela. Mostramos as possibilidades, os limites e marcamos nosso posicionamento sociopolítico frente às injustiças e as desigualdades. Conjugando o verbo esperançar, como disse nosso Mestre Paulo Freire, continuamos a realizar o trabalho pedagógico de modo comprometido e emancipatório.

E ao escrever, porque esperançamos, novas possibilidades de trabalho educativo irrompem, porque construímos saberes com os cotidianos escolares de outra perspectiva, de outra mirada, agora dentro de nossas casas, mais em contato com as famílias, nas suas mais diversas realidades e necessidades. Realidades e necessidades que muitas vezes são reveladas pelo flagrante exposto da câmera aberta, pelos sons que rodeiam os encontros do meet quando o microfone está “desmutado”, pelos silêncios de muitas famílias no grupo de zap, pelos muitos acontecimentos que revelam disparidades sociais, intenções de vínculo, alegrias pelos rostos vistos…

Os textos desta coleção não nos deixam esquecer de um momento, início da pandemia do covid-19 – anos 20 do séc. XXI – e o impacto sentido por nós professoras diante do fechamento das escolas, que muito embora esteja muito vivo entre nós, já é passado. Um passado que não pode ser apagado, esquecido, ou simplesmente abandonado em nome do novo normal, pois vivemos (continuamos a viver) intensamente as angústias e incertezas dos primeiros momentos da pandemia e aprendemos com essa experiência. Finalizamos com as palavras do mestre Paulo Freire (2002):

“É preciso ter esperança, mas ter
esperança do verbo esperançar;
porque tem gente que tem
esperança do verbo esperar.
E esperança do verbo esperar
não é esperança, é espera.
Esperançar é se levantar,
Esperançar é ir atrás,
Esperançar é construir.
Esperançar é não desistir!
Esperanças é levar adiante,
Esperançar é juntar-se com
outros para fazer de outro modo...”
                Paulo Freire

Esperançamos!

Que brotem mais escritas desse lindo coletivo que nos constitui!

1- Disponível em : https://www.youtube.com/watch?v=0Enf4NtVAW8 . Acesso em 22/10/2020

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