Os Vales que Educam: 10 anos de alternâncias, autonomia e diálogos na Educação do Campo

ISBN: 978-65-5869-066-5
eISBN: 978-65-5869-067-2

Autor/Organizadores: Anielli Fabiula Gavioli Lemes, Carlos Henrique Silva de Castro, Clebson Souza de Almeida e Ofelia Ortega Fraile

Apresentação

Honra-nos, de forma muito especial, fazer a apresentação deste livro, OS VALES QUE EDUCAM: 10 anos de alternâncias, autonomia e diálogos na Educação do Campo . Como egressos do PROCAMPO, o projeto que originou a Licenciatura em Educação do Campo ( da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), como lerão ao longo dos capítulos, confessamos que foi maravilhoso sermos pa rte do primeiro grupo de leitores que tiveram o prazer de apreciarem a riqueza desta obra. Mesmo depois de alguns anos de termos terminado o curso, conseguimos nos enxergar no contexto aqui apresentado, porque somos parte dessa história.

Todos os capítulos que compõem a obra trazem relevantes contribuições para conhecer e/ou ampliar a compreensão sobre a Educação do Campo, principalmente na UFVJM. A obra articula reflexões enriquecedoras sobre a luta, a trajetória e ações afirmativas específicas do context o da Educação do Campo, principalmente d a LEC.

A Educação do Campo apresenta especificidades que vão muito além das características do campo enquanto território, mas também relacionadas ao perfil identitário dos sujeitos que a compõe. Por muito tempo, no Brasil, foi negado o direito à inserção na universidade aos povos do campo e às outras minorias. As políticas públicas para garantir a inserção e permanência dessas minorias nas universidades se constituem como fator imprescindível para que essa nova realid ade se consolide, devendo, inclusive, ser pensada a ampla questão burocrática que muitas vezes dificulta o acesso.

Normalmente, conforme mostra a investigação apresentada no capítulo 1, as famílias camponesas possuem condições simples e baixa renda e, sem subsídios financeiros e apoio, torna se praticamente impossível a permanência desse público na universidade. É imprescindível a assistência para garantir o direito à equidade e às condições justas de permanência. Por isso, é tão relevante que se fale da im portância da continuidade desses investimentos em assistência estudantil, sobretudo no atual cenário, em que cortes diversos, como de bolsas, foram significativos e comprometeram o andamento de importantes projetos de pesquisa.

O capítulo 2, construído por licenciandas geraizeiras e por uma professora do curso de LEC UFVJM, traz excelentes reflexões sobre como o currículo escolar pode dialogar com os saberes tradicionais geraizeiros, problematizando e fortalecendo o modo de vida desse povo e construindo co nhecimentos científicos a partir da realidade local. O diálogo entre esses saberes empoderou de forma significativa os povos geraizeiros, dando visibilidade às suas culturas, aos saberes tradicionais, e contribuiu para fomentar o pertencimento e a autoperc epção enquanto sujeitos de identidades específicas que ali estão inseridos. Como pontuam as autoras do referido capítulo, a Pedagogia da Alternância, que permite a relação entre o Tempo Universidade (TU) e o Tempo Comunidade (TC), se constitui aparato impo rtante para congregar os conhecimentos científicos e tradicionais, a fim de problematizar situações do cotidiano e contribuir para que o coletivo local possa se (re)organizar e pensar estratégias e ações que impulsionem a educação crítica e transformadora, a partir da realidade dos/as educandos/as.

No capítulo 3, é apresentada uma análise da materialização e revisão curricular, passando pela trajetória da Educação do Campo como política pública no país, tendo em vista a construção do currículo da habilitaçã o Linguagens e Códigos, da LEC UFVJM. A perspectiva adotada, alinhada às ideias de multi, inter e transdisciplinaridade, em busca de uma leitura significativa do mundo e que atenda as especificidades dos sujeitos, se adequa às necessidades de letramentos d os povos do campo quando possibilita, por exemplo, as práticas de leitura e escrita não apenas acadêmicas, mas também como demandas das práticas sociais das comunidades dos graduandos. Em diálogo com atual cenário de afastamento social e uso maciço de tecn ologias digitais, o texto traz uma reflexão para se pensar a necessidade do acesso às tecnologias de comunicação para muito além do contexto de ensino remoto, por ocasião da pandemia, por exemplo, mas a partir das realidades diversas, como dos estudantes que retornam da universidade para suas casas e necessitam manter uma relação dialógica uns com os outros e com a universidade constantemente. Desse modo, abre se a discussão iminente sobre acessibilidade, sobretudo de comunidades campesinas, de forma a cont ribuir para o processo de construção e sistematização do saber.

No capítulo 4, os autores, que são educadores/a da LEC-UFVJM, a partir das experiências pedagógicas do curso, fazem uma excelente reflexão sobre o uso de tecnologias da informação para garant ir aos sujeitos algum “direito de narrar”. Na busca de levar as vozes campesinas mais longe, os projetos buscam os letramentos dos licenciandos/as com a finalidade de formar cidadãos e futuros professores/as que atuarão como atores sociais em suas respecti vas comunidades camponesas, com potencial para influenciar modificar as realidades locais. Nesse sentido, as reflexões passam pelas práticas de três projetos específicos. O Vídeo cartas tem o objetivo de produzir vídeos com temáticas socioculturais do cont exto camponês. O Olhares do Campo funciona como um laboratório de comunicação q ue produz notícias, reportagens e textos diversos em boletins on line e impressos. O Comunidades do Campo: conhecendo seus sujeitos, saberes e realidades produziu cinco temporad as de um programa de rádio que, após exibidas, viraram podcats. Tais projetos proporcionam processos de letramentos que, segundo os autores/as, acontecem, na medida em que trazem práticas sociais que envolvem a leitura para muito além dos aspectos fônicos e fonológicos, mas na construção de sentidos de forma ampla, que auxilia na compreensão dos espaços sociais, seus discursos e seus sujeitos. São experiências construídas de forma coletiva e que, utilizando se de canais digitais, divulgam e trazem à tona c ontextos de diversas comunidades do campo, potencializando suas vozes e diferentes aspectos relacionados ao contexto que vivenciam. Esse “direito de narrar” propiciado aos povos do campo devolvem a eles o direito de serem ouvidos, e isso contribui para que suas versões da história sejam ouvidas e perpetuadas, para que, assim, sejam reconhecidos na expectativa de maior equidade e justiça sociais.

O capítulo 5 traz uma rica experiência de um projeto de pesquisa sobre apicultura na Escola Família Agrícola de V eredinha (EFAV), em que há uma interlocução entre o olhar do/a professor/a, a realidade dada e a atuação coletiva na construção de conhecimentos. O trabalho de pesquisa desenvolvido na EFAV evidencia como a ciência cidadã é uma ação coletiva importantíssim a para a promoção do conhecimento e dos sujeitos que a produzem de maneira colaborativa e emancipatória; com potencial para a promoção do bem comum por meio dos conhecimentos produzidos e compatibilizados. Nessa ponte entre a universidade e as comunidades do campo, construída de diversas formas por meio da LEC UFVJM, muitos projetos são redimensionados, ampliando seu alcance e suas potencialidades. Por meio do projeto de estudo de pólen e mel apresentado no capítulo, pode se perceber que é possível (re)estabelecer vínculos com o meio, sobretudo no que se refere à fauna e à flora, na forma como a natureza está organizada e se apresenta, visando sempre o equilíbrio e a sustentabilidade, além da produção de conhecimentos compartilhados. Apesar dos diálogos, o c apítulo descreve, no entanto, vários desafios decorrentes de questões burocráticas da universidade que, se por um lado dificultaram algumas ações, por outro deixaram transparecer a importância de parcerias e a necessidade da participação das escolas durant e o processo de organização das agendas/calendários da universidade.

No capítulo 6, as autoras discutem as estratégias pedagógicas desenvolvidas na Escola Família Agrícola de Veredinha (EFAV), analisando como tais estratégias influenciam na configuração de uma identidade institucional em um contexto de disputas entre modelos educacionais influenciados por questões e agentes socioeconômicos. A partir desse cenário, são trazidos os conceitos de educação emancipadora e educação neoliberal, em uma abordagem crí tica em torno das pedagogias utilizadas na EFAV e que elucidam a qual(is) conceito(s) ela está direta ou indiretamente associada.

Adicionalmente, algumas ferramentas do trabalho desenvolvido pela EFAV, considerados emancipadores pelos autores, são objetos de reflexão como o Plano de Estudo (PE), o Projeto Profissional do Jovem (PPJ) e algumas práticas agropecuárias e suas contradições no citado contexto de disputa.

O capítulo 7 traz uma discussão sobre o caráter político pedagógico do Programa Cisternas nas Escolas Água que Educa e o acesso à água da chuva por meio da construção de tecnologias sociais em escolas do campo na região do semiárido mineiro. O texto revela a importância das tecnologias sociais de convivência com o semiárido e a necessidade da in teração entre os diversos sujeitos e seus espaços educativos com finalidade de contribuir na formação humana e na defesa da superação das desigualdades. O texto apresenta alternativas de se conviver com o semiárido, construindo um novo projeto de sociedade que se contrapõe ao projeto capitalista vigente, gerador de exclusão social e degradação ambiental.

No capítulo 8, autora e autor fazem reflexões contundentes sobre o livro didático e a temática da água no ensino de Geografia a partir da análise de práti cas pedagógicas da Escola Municipal do Craúno, localizada no campo do município de Jequitinhonha. O trabalho revela a importância de se construir de forma colaborativa e contextualizada um trabalho pedagógico que articule elementos do livro didático, da realidade vivida e de outras práticas socioculturais e ambientais ligadas aos seus contextos, como o estudo das bacias hidrográficas locais. Temáticas que dialogam com as realidades necessidades locais podem potencializar o sentimento de pertencimento e a construção de uma identidade sociocultural que se identifica com o campo, cons truindo caminhos para que o campesino se reconheça enquanto sujeito de direito, para que suas diversidades socioculturais e ambientais sejam reconhecidas, para que sejam motivados a lutarem por seus territórios.

No capítulo 9, de forma simples e objetiva, os autores sistematizam as experiências e as ações institucionais de formação e mobilização social e políticas, bem como, ações de produção, geração de renda e gênero desenvolvidas pelo Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica CAV, junto às comunid ades camponesas do Vale do Jequitinhonha, em seus 26 anos de atuação. Buscando se contrapor ao projeto capitalista implantado no Vale do Jequitinhonha, que não respeita a realidade local e regional, a partir do diálogo entre saberes empíricos e científicos , o CAV tem desenvolvido muitos projetos que potencializam os processos de gestão das águas, produção agroecológica, equidade de gênero, associativismo, produção artesanal e geração de renda na região, contribuindo para melhorar a qualidade de vida das pessoas, principalmente dos/as camponeses/as.

No capítulo 10, a autora traz reflexões sobre os princípios fundantes dos movimentos do campo na construção de uma proposta de educação em que os/as camponeses/as se apropriam dela com a finalidade de constituírem a si mesmos, de serem reconhecidos como sujeitos históricos de direitos, tendo seus saberes e fazeres reconhecidos, sem negar a importância da ciência e da universalização dos conhecimentos como um direito social. Os movimentos sociais do campo foram cons tituídos por sujeitos coletivos que lutaram e lutam pela construção de um projeto de Educação do Campo forjado a partir das construções sociais, das transformações diárias, frutos de muita luta, e objetivando evidenciar as contradições históricas da socied ade e garantir um projeto de sociedade mais justa, solidária e fraterna.

A abrangência e a profundidade da obra, dadas as diferentes dimensões que a relacionam, direta e indiretamente, à questão da Educação do Campo, fazem desse livro uma referência muito importante para os diferentes sujeitos que compõem a Educação do Campo, formuladores(as) de políticas públicas e os mais diversos movimentos sociais que reconhecem a Educação do Campo como uma prática social estratégica na construção de um Brasil mais just o, fraterno e solidário.

Boa leitura!

Ângela Rita Teixeira e Edivaldo Ferreira Lopes
primavera de 2020

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