Mosaico cultural Latino-Americano: educação, história, filosofia e espiritualidade

ISBN: 978-65-5869-089-4
eISBN: 978-65-5869-090-0

Autor/Organizadores: Jefferson da Costa Moreira; Vanderlei Barbosa

Prefácio

O Grupo de Pesquisa Movimento, Sabedoria, Ideias e Comunhão (MOSAICO), da Universidade Federal de Lavras (UFLA), nos oferece sua primeira obra– Mosaico Cultural Latino-Americano: Educação, História, Filosofia e Espiritualidade. Este feito retrata a multiforme riqueza do quadro cultural latino-americano. Escrito em meio à pandemia do novo coronavírus (Covid-19), esta atividade é o testemunho de um grupo de pesquisadores que soube se organizar e tirar proveito deste momento desafiador. Ao formar a sigla MOSAICO, retrata muito bem a formação cultural de nosso Continente, territorialmente uma unidade, mas com as singularidades próprias de cada país ou região. É um convite a conhecermos mais os meandros da história aqui gestada e a nos aprofundarmos no processo civilizatório que nos plasmou, tanto nos desafios que se apresentam, como nas potencialidades latentes. Parabenizo o Grupo MOSAICO, por este intento e por tão significativo aporte. O legado do pensamento latino-americano é, ao mesmo tempo, rico e plural; ele carrega um potencial de denúncia e anúncio, indispensável em tempos desafiadores e mesmo sombrios como o nosso.

A América Latina pode ser vista como um vasto, complexo e movimentado laboratório de culturas e civilizações, formas de sociabilidade e jogos de forças sociais, etnias e racismos; compreendendo estruturas de dominação e apropriação, nativismo e nacionalismo, colonialismo e imperialismo; ingressando na época do globalismo. Parece um labirinto ou nebulosa, experimentando ciência e tecnologia, realizações e frustrações, ideologias e utopias. (IANNI, 2002, p. 2)

Nesta obra, desfilam autores de grande porte, tais como Darcy Ribeiro e Eduardo Galeano. Ambos nos lembram “os dramas da crueldade, da exploração, do genocídio, enfim, de toda espécie de barbárie contra os povos latino-americanos, sem perder o humor e o horizonte utópico”, como faz menção Vanderlei Barbosa, no texto de abertura desta obra. Diante da Terra que gera a vida, somos urgidos a ter clareza sobre os impactos do “modelo de sociedade capitalista, […] advindos desse sistema necrófilo, que é o neoliberalismo”, como nos mostra Dulcineia Aparecida Ferraz Ribeiro e Jefferson da Costa Moreira no texto que segue; eles apontam para a necessidade de uma educação que cultive a Pedagogia da Terra para que sejamos instrumentos de libertação, segundo Paulo Freire, e que desenvolva a dimensão ecológica integral, segundo Papa Francisco, para quem tudo está interligado.

Precisamos cultivar as memórias de nossos povos, narrar as experiências, como o faz Carlos Betlinski ao abordar a Teologia da Libertação e a religiosidade, apresentando a necessidade de discernir o cristianismo de libertação que vai na contramão do capitalismo como religião, com a acuidade de identificar os meandros políticos aí incrustados. Caroline Souza Silva e Miguel Vieira Tavares Costa, lastreados em Rubem Azevedo Alves, nos brindam com um estudo sobre a questão educativa, um desafio de grande monta, com destaque para a relação educação e docência. O papel do educador/professor é aqui posto em destaque como o “fornecedor de uma experiência inovadora de educação”.

Em nossos povos, o religioso e o sagrado estão presentes de maneira abundante, quer na linha da libertação quer como expressão de crenças diversas, o que faz da literatura “um espaço cultural insubstituível que reflete abundantemente o clima espiritual de uma época ou uma região geográfica”, como nos relata Leopoldo Cervantes-Ortiz. No olhar integral do humano, vemos também abordada a sexualidade feminina como dimensão humana na poética de Adélia Prado, buscando resgatar os saberes da sensibilidade no olhar feminino sobre o cotidiano, em meio a uma sociedade patriarcal e por demais racional, como aborda Jossuí Basílio Mendonça Maia. A democracia como construção de sociedades livres, justas e fraternas é a constatação que fazem Aparecida Carmen de Oliveira e Maria do Rosário H. Barbosa ao abordarem o cabildo chileno como expressão da voz popular no Chile nas ações político-sociais do cabildo, a democracia “significa aceitar as diferenças, apreciar o diálogo, valorizar a pluralidade, participar e se sentir representado na conquista de direitos, nas decisões políticas e sociais e, por fim, pressupõe submeter-se à regra da maioria, até que esta seja, por inadequações, revista”.

Andrea Díaz aponta a solidariedade como mediação e formação de sentido de justiça social. Ancorada na experiência, a solidariedade deverá alimentar o reconhecimento moral e a ação política, fruto de um processo de maturação. Maria Paula Ferreira Costa e Rosana Ferreira apresentam um estudo sobre o educador Simón Rodríguez, que atuou no Peru e na Bolívia, com destaque para a sua contribuição em prol de uma educação popular que seja capaz de retirar a população desfavorecida de sua passividade para galgar o caminho do conhecimento, recuperar a sua dignidade e construir uma sociedade mais justa. Ellen Maira de Alcântara Laudares, Kauany Damião dos Santos, Luan Mendonça Silva, Matheus Freire Barbosa e Dagmar Cristina de Alcântara Laudares nos brindam com um estudo sobre cultura, literatura e expressões dos povos indígenas da América Latina, com seus cantos e histórias, acrescido de um olhar para o Brasil, referente à oralidade, rituais e memórias dos povos indígenas,primeiros habitantes de nossas terras.

Margarita Sgró fala-nos da crise como único traço estável do capitalismo contemporâneo, necessitando acionar o pensamento crítico ante o neoliberalismo a fim de recuperar um olhar humanista e a ideia que outorgue a todos as oportunidades mínimas de uma vida digna; isto passa por uma educação embasada numa pedagogia crítica. Marília Eduardo da Silva e Ana Paula Batista Protacio estudam o entrelaçamento da escravidão e a espiritualidade no Brasil, analisando o emblemático Sermão XIV do Rosário de Antônio Vieira, bem como o papel da Igreja na colonização brasileira. Maria Camila Lima nos oferece um texto sobre a Cultura Educacional Protestante de Lavras, reunindo dados sobre o percurso de missionários em Lavras e a implementação da educação desta Igreja. Humberto Silvano Herrera Contreras apresenta o instigante tema da “agroecologia para crianças”, como “um conhecimento que reúne os saberes dos povos originários e dos agricultores de um determinado lugar sobre a agricultura ecológica”. Jefferson da Costa Moreira fecha a série de textos realçando da utopia e a esperança a partir de Frei Betto, quer no viés teológico, quer no viés poético, sem descuidar do caminho pedagógico e sem deixar de apontar para uma educação profética; “é por meio da educação e da profecia que edificamos possibilidades que mantêm a vida”, afirma ele.

Meu intento foi de valorizar cada uma das contribuições, mesmo ciente de que os saberes produzidos na América Latina guardam uma riqueza ainda a ser aprofundada e continuamente explorada. Chamo a atenção do leitor para os nomes de autores e/ou pensadores latino-americanos citados nos diversos textos. O grupo de pesquisa MOSAICO vem somar esforços neste sentido e o faz com propriedade; é o que demonstra nesta sua primeira obra. Temos um compromisso a ser selado em prol do resgate de nossa identidade latino-americana, para que não caia no esquecimento a riqueza de nossas raízes, em sua pluralidade e diversidade.

Nesse vasto e problemático laboratório sócio-cultural e político-econômico que tem sido e continua a ser a América Latina, germinam-se situações e condições, impasses e frustrações, realidades e ilusões, com os quais florescem as ciências sociais e as artes, fertilizando inclusive inquietações filosóficas. (IANNI, 2002, p. 31)

Alimentados pela fé e a esperança, manifestamos nossa confiança no povo latino-americano. Parafraseando Paulo Freire (2014a, p. 130), vejo que o caminho a ser percorrido passa pela afirmação da América Latina como sujeito, sem que a realidade seja escondida ou camuflada.Cabe ao intelectual colocar-se a serviço da cultura deste Continente, em seus diferentes matizes, não para sermos verbosos ou tecnicistas sem consciência, mas para enfrentar a grande batalha da humanização, da libertação, em comunhão com o povo. Toda transformação requer o diálogo com o povo que, respeitado, assume sua história como sujeito e criador, sem cair na falácia “da propaganda, do dirigismo e da manipulação” (FREIRE, 2014b, p. 76).

Não podemos entregar ao esquecimento a memória destes povos e simplesmente rendermo-nos à cultura oficial. É necessário preservar a memória dos que muitas vezes têm sido relegados aos porões da humanidade e ao esquecimento pela historiografia dominante. Trata-se de um empenho pela emancipação dos que foram vítimas da história, sendo este um privilégio dos que, hoje, tomam consciência da necessidade de assumir a “tarefa de escovar a história a contrapelo” (BENJAMIN, 2016, p. 245, tese 7).Trata-se de um “processo de emancipação” que “resultada reflexão e da crítica”, buscando “conservar a liberdade, ampliá-la e desdobrá-la” (HORKHEIMER; ADORNO, 1985, p. 8, 10).Concomitantemente, isso implica em acender as chamas da esperança, interrompendo a submissão servil, realizando “a libertação em nome das gerações de derrotados” (BENJAMIN, 2016, p. 248, tese 12).

O olhar não é somente para o passado; a história a contrapelo e a reflexão crítica sobre o presente coincidem, o que implica afirmar que, ao acender as chamas da esperança, transformam-se o passado e o presente […]. Nos faz descer do pedestal da história escrita de maneira linear e cômoda para assumir um olhar crítico partindo das contradições de nossa sociedade. (AGOSTINI, 2019, p. 59, 211)

Dr. Nilo Agostini

Referências
AGOSTINI, Nilo. Os desafios da educação a partir de Paulo Freire e Walter Benjamin. Petrópolis: Vozes, 2019.
BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. 8. ed. 3ª reimpressão. São Paulo: Brasiliense, 2016 (Obras escolhidas 1).
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 36ª edição. Rio de Janeiro, São Paulo: Paz e Terra, 2014a.
_. Pedagogia do oprimido. 57ª edição. Rio de Janeiro, São Paulo: Paz e Terra, 2014b.
HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. W. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
IANNI, Octávio. Enigmas do Pensamento Latino-Americano. São Paulo: IEA/USP, 2002.Disponível em: http://www.iea.usp.br/artigos. Acesso: 01out 2020.

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