Práticas interacionais no ensino de língua materna: um olhar etnográfico

ISBN: 978-65-5869-149-5

eISBN: 978-65-5869-153-2

Autor/Organizador:

CATARINA DE SENA SIRQUEIRA MENDES DA COSTA, DARKYANA FRANCISCA IBIAPINA, THIAGO DE SOUSA AMORIM

APRESENTAÇÃO

A ideia de produção deste livro teve início ainda no segundo semestre de 2019, quando nos reuníamos semanalmente na Universidade Federal do Piauí, para cursar a disciplina da Pós- Graduação em Letras, “Tópicos Especiais em Variação/Diversidade Linguística/Letramentos”, mediada pela professora Catarina de Sena. As discussões propostas na disciplina sobre pesquisa qualitativa na perspectiva etnográfica, especialmente, sobre microetnografia da interação em sala de aula nos instigaram a pensar as salas de aulas como microculturas (ERICKSON, 2001), ou seja, como grupos naturais, ou como universos simbólicos de significados multifacetados, em que professores e alunos se reúnem e interagem com os mesmos objetivos (ensinar e aprender conteúdos prescritos no currículo explícito). Porém, as salas de aula, embora sejam culturalmente semelhantes, são bastante desiguais.

A partir de então, nos inquietamos e, como pesquisadores desejosos por aprender a realizar pesquisa microetnográfica, nos lançamos ao desafio de adentrar, ainda que por pouco tempo, em salas de aula de escolas públicas e colocarmos em prática um pouco do que havíamos estudado na disciplina. Assim, decidimos lançar uma obra com os resultados dessas pesquisas (PARTE I), reunindo trabalhos que, com base em princípios éticos, buscaram utilizar instrumentos de produção de dados da pesquisa microetnográfica (observações, entrevistas semiestruturadas, filmagens, gravações em smartfones e anotações em diário de campo) e procuraram desvelar e compreender as práticas sociais de um determinado grupo, a partir dos significados e sentidos que têm para esse grupo, estabelecendo conexões com o contexto social em que estão inseridos.

A ideia de produção desse material também se estendeu ao grupo de pesquisa Língua, Escola e Sociedade (LES), coordenado pela professora Catarina de Sena Sirqueira Mendes da Costa, do qual fazemos parte. Assim, alguns participantes do grupo, que também realizam pesquisas sociolinguísticas em educação, mostraram interesse em participar desse trabalho e, prontamente, aceitaram o convite para colaborar com nossos estudos. O resultado foi uma coletânea produzida por pesquisadores que compartilham da importância da pesquisa sociolinguística educacional e interacional em contextos escolares relacionada ao ensino e aprendizagem de línguas.

Para a organização dos capítulos, influenciaram duas demandas urgentes do debate educacional contemporâneo: a necessidade de investigar sobre processos interacionais no ensino de língua materna; e, mais especificamente, a interferência que eles ou a falta deles podem provocar na educação linguística.

As ideias apresentadas foram formuladas por pesquisadores e professores da educação básica e de jovens e adultos vinculados ao grupo de pesquisa Língua, Escola e Sociedade (LES), da Universidade Federal do Piauí (UFPI), o qual vem desde 2007, desenvolvendo estudos que gravitam em torno da variação/diversidade linguística e sobre as práticas de letramentos e de alfabetização em escolas e na comunidade. Seguramente, as pesquisas realizadas pelos integrantes desse grupo têm contribuído para o reconhecimento dessas práticas comunicativas legítimas que se encontram na base de qualquer prática humana.

Em suma, de um modo ou de outro, todos os autores desta obra, sob diferentes perspectivas, trazem reflexões e contribuições sobre a importância da interação verbal em sala de aula, sob diferentes abordagens, de modo a evidenciar o seu reconhecimento como recurso indispensável no confronto e sobrepujamento de dificuldades socioeducacionais decorrentes das práticas de ensino de língua materna no contexto educativo brasileiro.

Ao condensarmos os trabalhos, optamos por dividir a obra em duas partes. Para compor a PARTE I, selecionamos 5 (cinco) trabalhos que tiveram enfoque na pesquisa microetnográfica da interação em sala de aula. Na parte II, reunimos 2 (dois) trabalhos cuja base teórico-metodológica se fundamenta na Sociolinguística Educacional e Interacional, mas não necessariamente utilizaram os recursos oferecidos pela microanálise etnográfica de sala de aula. Ainda na PARTE I, o primeiro capítulo, intitulado Da antropologia à etnografia da comunicação: perspectiva teórico-metodológica da sociolinguística, foi arquitetado pela Profa. Catarina de Sena Sirqueira Mendes da Costa, em que apresenta e discute aspectos da Etnografia da Fala. Esta abordagem foi logo em seguida ampliada sob a denominação de Etnografia da Comunicação, no sentido de incluir como objeto de estudo não apenas a fala na sua diversidade, mas também a diversidade de meios comunicativos importantes na vida de uma comunidade de falantes, da qual a fala faz parte. E são as duas principais tradições de estudos etnográficos da Sociolinguística.

Portanto, neste capítulo se encontram fundamentos da Etnografia e mais especificamente da Etnografia da Comunicação, tentando mostrar que a partir do surgimento da Sociolinguística ficou patente que 1) existem importantes áreas dos estudos linguísticos que são problemáticos na vida humana, mas que ainda não foram estudadas como, por exemplo, os usos e significados da fala e meios de comunicação mais do que propriamente da língua ; 2) a etnografia, por sua importante contribuição para a Antropologia, quer na construção dos conceitos e categorias de análises, quer na consolidação e segurança do corpo teórico erigido por essa Ciência, constitui o instrumento mais adequado para a realização de pesquisa sobre essa área de estudos linguísticos que ora vem se evidenciando.

O segundo capítulo tem como título: Microetnografia em sala de aula: a interface entre o processo interacional e a competência oral em aulas de língua materna. Este estudo foi realizado por Lígia Alencar Pacífico Barreto, Luzia Fernandes do Nascimento, Micilane Nascimento dos Santos e Catarina de Sena Sirqueira Mendes da Costa, no qual elas defendem que à escola, através do ensino de língua materna, é atribuída a tarefa de ampliar a competência comunicativa dos discentes, de forma a fazê-los utilizar a língua de modo diverso e adequado aos contextos de interação. Nessa perspectiva, o objetivo do trabalho foi analisar o processo interacional em sala de aula, com ênfase na relação professor-aluno, em uma turma de 3o ano do Ensino Médio, durante aulas de língua portuguesa em uma escola pública estadual, em Timon-MA. No tocante à metodologia, trata-se de uma pesquisa de cunho etnográfico, usando-se o método da microanálise, de natureza qualitativa e interpretativista, orientada por registros audiovisuais, observação direta de aulas e notas de campo.

O terceiro capítulo, intitulado: A sociolinguística na sala de aula: um estudo da interação entre professores e alunos em uma escola pública de Teresina (PI), foi desenvolvido por Leidiane Maria Magalhães Nascimento e Silvestre José Pinto. Neste capítulo, os autores apresentam a descrição e análise de alguns eventos da fala de alunos e professora em situação de interação, em contexto formal de sala de aula, sob o viés da sociolinguística interacional de Gumperz (1982), da etnografia da comunicação de Dell Hymes (1974), bem como nas postulações de Costa (2014) para o ensino de língua materna. Metodologicamente, o trabalho se situa na descrição etnográfica de sala de aula, conforme Erickson (1988). A geração de dados foi feita por meio da observação em sala de aula e registro das situações de interação em áudio, por intermédio de uso das categorias Participantes e Normas, descritas em Hymes (1974) para a etnografia da comunicação.

O quarto capítulo, Processos interacionais em uma turma de EJA da Unidade Escolar Luiz Miguel Budaruiche em Timon (MA), foi idealizado por Cínthya Nicoleia Maristênia Félix da Cunha, Darkyana Francisca Ibiapina e Thiago de Sousa Amorim. O propósito deste estudo é analisar, por meio de observação participante e de entrevistas semiestruturadas com a professora, como os processos interacionais que se desenvolvem em sala de aula de Língua Portuguesa, em uma turma de 3a etapa da EJA, contribuem para o desenvolvimento do letramento escolar dos alunos, em uma escola pública de Timon (MA). Este objeto de estudo torna, pois, evidente o direcionamento para uma pesquisa sociolinguística de natureza qualitativa, do tipo microanálise etnográfica.

O quinto capítulo, intitulado: Etnografia e microetnografia em interação linguística: novas formas de interagir, desenvolvido por Leila Patrícia Alves Dantas e Iveuta de Abreu Lopes, propõe refletir sobre as interações linguísticas em sala de aula. As discussões apresentadas foram embasadas na Sociolinguistica Interacional proposta por Gumperz (1998), Erickson (1988), Bortoni (2005) e na proposta dialógico-discursiva de Bakhtin (1997). Por meio de uma análise etnográfica, com método microetnográfico, foram observadas as interações linguísticas, em sala de aula, entre alunos e professor do 1o ano do Ensino Médio, de modo a evidenciar que a interação verbal cada vez mais pautada nas múltiplas linguagens cercam a vida social e cultural dos alunos, sem a qual não há um ensino-aprendizagem com resultados positivos.

O sexto capítulo inicia a PARTE II da obra, intitulado: O estudo do apagamento do R na escrita de alunos do sexto ano e a interação em sala de aula, cujos autores são Lucirene da Silva Carvalho e Marcelino Rodrigues Cutrim Netto. Trata-se de um recorte de dissertação do Mestrado Profissional em Letras da Universidade Estadual do Piauí (PROFLETRAS), no qual se discutiu o apagamento do R em final de verbos na escrita de alunos do sexto ano, e se fez a proposição de um objeto de aprendizagem, a partir da aplicação de um conjunto de exercícios trabalhados em sala de aula, voltados especificamente para o apagamento do R na escrita de alunos do Ensino Fundamental. Os autores adotaram as contribuições da Fonologia de Alvarenga e Oliveira (1997); Bisol (2005); Scliar-Cabral (2003), de Ortografia propostas por Morais (1999); Zorzi (1998), e da Sociolinguística Educacional, desenvolvida por Bortoni-Ricardo (2004; 2005).

O sétimo capítulo tem como título: Processos interacionais no contexto da sala de aula, desenvolvido por Pedro Rodrigues Magalhães Neto. Este trabalho foi elaborado a partir de algumas reflexões feitas sobre os processos interacionais no contexto de sala de aula, como também sobre as práticas de leitura ocorrentes entre professores, gestores escolar, alunos e familiares. Para a elaboração deste estudo estabeleceram-se três objetivos: a) discutir com os profissionais que trabalham com a leitura que ela é indispensável no processo de formação da cidadania, através das relações interacionais;

b) analisar as relações do processo de interação com a leitura no contexto escolar, sobretudo mencionando as dificuldades enfrentadas pelos agentes envolvidos nesse processo, apresentando, inclusive, algumas sugestões; c) apontar as diferentes visões sobre os processos interacionais entre os diferentes teóricos e pesquisadores. Para a realização do estudo, usou-se a metodologia de uma pesquisa bibliográfica, qualitativa, descritiva.

Finalmente, nosso projeto ganhou corpo e pôde vir a público com o título Práticas interacionais no ensino de língua materna: um olhar etnográfico, em razão de o conjunto de trabalhos aqui reunidos privilegiar a interação em contextos educacionais e etnográficos porque foi a proposta inicial e contempla a maioria dos capítulos. Acreditamos que este livro poderá ser útil àqueles que trabalham com, ou se interessam por questões relacionadas à área em questão, bem como aos professores de Língua Portuguesa, em geral. Nesse sentido, ao tempo em que divulga processos e resultados de pesquisas etnográficas, mais especificamente, de microetnografias, chama a atenção para a importância da necessidade desse tipo de pesquisa, a fim de investigar, conhecer e compreender de forma adequada a nossa realidade sociocultural, inclusive educacional, nos seus aspectos linguísticos, de interação, de fala e de comunicação.

Os Organizadores.

Referência

ERICKSON, F. Prefácio. In: COX, M. I. P; ASSIS-PETERSON, A. A. de. (Orgs.). Cenas de sala de aula. Campinas: Mercado de Letras, 2001.

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